Crônica

O resplendor dos livros


Ronaldo Correia de Brito


A lembrança mais remota que tenho de bibliotecas vem associada a caixotes e malas. Numa caixa de madeira, mamãe levou para a casa do sertão dos Inhamuns, onde nasci, o pequeno acervo de professora primária, após se casar com um rapaz que fora seu aluno temporão. A preciosa carga compunha-se de algumas antologias, gramáticas, volumes de aritmética, geografia e história, e do livro que marcou profundamente minha vida: A história sagrada, uma seleta de textos do Antigo e Novo Testamento. Meu pai, que aprendeu a ler bem tarde e estudou sozinho nos livros da esposa professora, instituiu o hábito das leituras após o jantar da família, coisa que nosso irmão mais velho odiava, interessado apenas nas brincadeiras de rua.

Os livros eram objetos tão raros nesse mundo sertanejo, medievalmente fora do tempo, que um parente rico incluiu entre os bens de partilha do testamento uma minúscula biblioteca de noventa volumes. Hoje, com o dinheiro apurado na venda de um único boi, das centenas que ele deixava, afora as terras e outros rebanhos, seria possível comprar dezenas de livros. Naquele tempo, os objetos de papel impresso davam respeito e distinção, criavam uma aura de sabedoria e nobreza em torno dos seus afortunados donos.

Não me deterei nas bibliotecas humanas, embora não deixe de mencionar os homens e mulheres que guardavam na memória centenas de narrativas da tradição oral e costumavam contá-las para platéias deslumbradas, geralmente crianças. Plantados em suas casas, no fundo de uma oficina ou quintal, ou então viajando pelo mundo, pernoitando em engenhos e fazendas, esses guardiões da memória se assemelhavam aos personagens que em outras culturas foram responsáveis pela criação e divulgação de contos, poemas e epopeias mais tarde fixados em livros como Mahabharata, Ramayana, Epopeia de Gilgamesh, Ilíada, Odisséia e várias narrativas bíblicas. No Brasil, é grande o número de escritores que elaboraram obras partindo da tradição oral, o vasto patrimônio humano sem assinatura, conhecido como bem de cultura. Nunca podemos esquecer essas primeiras bibliotecas, as pessoas treinadas desde a primeira infância em memorizar conhecimentos e que, ao atingirem a idade adulta, começavam a repassá-los às novas gerações.

Falemos agora das bibliotecas em malas. Também essas exerciam grande fascínio sobre mim, mas deslumbravam, sobretudo, as pessoas humildes, moradoras do campo. Nos dias de feira, era comum assistir-se o espetáculo de um vendedor pondo uma lona ou uma esteira de palha no chão, espalhando sobre ela dezenas de livrinhos impressos nas tipografias, em papel barato de jornal, com capas ilustradas por xilogravuras. Tratava-se dos folhetos de cordel ou versos de feira, como também eram chamados.

Para atrair compradores, o vendedor punha alguma coisa extravagante no meio dos cordéis: um tatu, uma serpente, a caveira de um jumento... Formado o círculo de curiosos, ele anunciava os títulos das obras, geralmente com um subtítulo: “Não deixe de comprar O amor de um estudante ou o poder da inteligência; O mundo pegando fogo por causa da corrupção; Vida, tragédia e morte de Juscelino Kubitschek; O sofrimento do povo no golpe da carestia; Os homens voadores da Terra até a Lua; A filha do bandoleiro; Peleja de Serrador e Carneiro”... Depois escolhia o folheto mais instigante e começava a cantá-lo ou recitá-lo. O ator/vendedor sempre possuía boa voz, movia-se com desenvoltura no pequeno palco, provocava a plateia, criava suspense, fazia rir e chorar e intuía com precisão o que as pessoas desejavam ouvir.

Durante décadas os folhetos representaram os best-sellers das populações pobres e “incultas” do nordeste do Brasil. Mesmo quem não sabia ler comprava os livrinhos, pelo gosto de tê-los guardados, ou na esperança de encontrar alguém que lesse para ele. Quando um visitante chegava a uma casa modesta do interior, depois do hospedeiro descobrir que o mesmo era letrado, ia lá dentro num quarto, arrancava de debaixo da cama uma mala de madeira ou sola abarrotada de livros – a biblioteca da família analfabeta escondida como um tesouro –, trazia os folhetos para a sala e suplicava à visita que os lesse.

Tentei compreender as motivações das pessoas que guardam livros mesmo sendo incapazes de decifrar os sinais impressos nas suas páginas. O que significavam para elas? Essa adoração da gente iletrada me parece de maior valor que a dos bibliófilos letrados. Há algo de sagrado nesse culto, o mesmo que se fazia aos “Mistérios”, àquilo que escapa ao conhecimento e à razão e por isso se reveste de outros significados.

A literatura dos folhetos de cordel perdeu seu prestígio. Hoje já não se imagina um sucesso como O pavão misterioso, com vendagem de mais de cem mil exemplares, já nas primeiras tiragens. A televisão e o rádio, a popularidade dos jornais e revistas tomaram o espaço dos folhetos, que durante décadas funcionaram como o veículo de divulgação, interpretação e recriação dos acontecimentos. Não saíram do gênero maravilhoso os campeões de vendagem, mas do cotidiano da gente pobre e comum, da vida de romeiros e cangaceiros, cantadores de violas, comerciantes e agricultores.

Talvez inspirado nesses divulgadores anônimos dos livros, criou-se no Ceará os agentes comunitários de leitura, uma experiência ousada como tudo o que é modesto e simples. Uma pessoa da comunidade, o agente, visita as casas com uma mochila e seu conteúdo de sessenta livros. Número pequeno e bastante. Ele reúne as pessoas da casa, coisa parecida com aquilo que meu pai fazia, lê poemas, contos, trechos de novelas e deixa os livros emprestados. Dias depois ele retorna, pergunta se alguém leu os livros, pede que reproduza a leitura, deixa outros exemplares, lê novos trechos instigantes, cria vínculos, alicia. Nesse jogo em que só há ganhadores, os livros são entronizados nas vidas das pessoas, como antigamente se entronizava o Coração de Jesus na parede de frente da sala. A imagem da família conquistada pelos livros tem o mesmo brilho das estampas dos santos, porém os rostos não expressam nenhuma dor, apenas alegria.


Ronaldo Correia de Brito
é médico e escritor. Nasceu na cidade de Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. É autor, entre outros, do romance Galiléia (Alfaguara), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2009. Vive atualmente em Pernambuco.

Ilustração: Rafael Antón