Conto | Wilker Souza

A Pipa


A xícara funda insiste em prolongar a manhã, mas, de tão espaçados, os goles de café trazem paulatinamente o sabor das horas estéreis. A tela ainda intata, a mão suspensa, à espera de um só movimento imune à censura prévia daquela mente exaurida de esboçar.

O súbito barulho no vidro e as cerdas tocam a tela com desfaçatez. Ele maldiz o condomínio e todos os seres que fazem desse disparate da arquitetura um verdadeiro atentado à civilidade (semanas atrás, porém, vociferou contra a casa de campo alugada cuja morbidez jamais poderia inspirá-lo). É sensato abandonar a tela maculada pelo acaso ou subtrair aquele rastro acintoso, mas antes de dar cabo a algum desses pensamentos, abre discretamente a cortina para ver a razão daquela pausa indesejada.

Uma pipa — intacta, a despeito do choque abrupto contra a materialidade fria do vidro — jaz no chão da varanda. Num ímpeto semicontido, ele abre a porta. Está decidido a destruir a pipa e assim expurgar seu repúdio à contingência.

Como emulasse maturidade, o garoto do 101 pergunta ao outro se não tem mais nada de inteligente a fazer no mundo a não ser soltar pipa, principalmente ali no meio de tantos prédios e fios de alta tensão! Mas o outro — obstinado em apanhar a pipa cuja rabiola pendia do gradil da minúscula varanda do cara do 202 — ignora e escala a coluna com invejável destreza, para desespero do primeiro que projeta o braço fino por entre a grade da janela do quarto exigindo que aquele moleque desça imediatamente da sua garagem!

Jamais gostou de pipas. Vencer muros enormes à procura do melhor lugar para empiná-las ou — olhos fixos no céu, extasiados com a queda vertiginosa de um mandadão — correr desatinado em meio a carros e moleques para apanhá-lo eram esforços subumanos para um propósito tão reles, como diziam. As tintas ao menos não o intimidavam àquela época. Distraíam-no durante a prolongada ausência do pai, para quem o talento do filho era tão inconteste quanto conveniente. Na clausura do quarto, pululavam formas bem acabadas — Que capricho! Um observador e tanto!, aliviava-se a professora ao contrastar os trabalhos do garoto com os borrões desleixados dos demais. Reproduzido com raro detalhamento — desde a tímida convexidade superior do para-choque dianteiro, de onde saía o delgado e prateado friso lateral, até a complexa sobreposição de linhas das rodas de liga leve —, o carro vultoso era posicionado diagonalmente na garagem, como que para dificultar a partida pelo estreito portão de ferro composto de cilindros encimados com pontas de lança, em sua maioria, oxidadas. Cilindros que em outro desenho abrigavam mãos cerradas e entrecortavam a ansiedade indissimulada naquele rosto de sexta-feira à tarde. Sim, o portão fora concebido apenas para chegadas.

Até o dia em que quem sempre chegava não mais chegou e quem devia partir há tempos não soube como. Jamais. A pintura perdeu o propósito, restando apenas o hábito inócuo. Do remoto e premeditado elogio da professora, passando pelos longos anos de retidão e afinco à sempre renovada esperança de anuência especializada, o caminho fora meticulosamente traçado de modo a asseverar pelos quatro cantos o talento que um dia lhe imputaram num abraço. No fundo, sempre se quis digno daquele abraço. Mas para seu desespero, aquelas pálpebras fatigadas se fecharam antes do ciclo para o qual devotava toda uma vida. Ao contrário dos desenhos de outrora, o mundo não era feito de formas acabadas. Alguns voos, na tentativa de desfilar suas cores em camadas mais remotas, só foram possíveis graças à rija linha que o conduzia desde o chão. Rodopios e arremetidas improváveis eram também obra da linha. Que se rompeu.




Wilker Sousa
nasceu em São José dos Campos (SP), em 1981. Como jornalista, foi editor de literatura da revista Cult. Atualmente é mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. “A pipa” integra seu primeiro livro de contos, ainda sem editora. Vive em São Paulo.


Rita Solieri | Raquel Dzierva Ilustração