Conto: Rogério Ivano

Samba em dor maior  


O filho chega pela manhã, já ao telefone. “Fica em R$ 640”, diz. “O banco falou que parcela em três...”.
Desliga o aparelho, prometendo pagar uma parcela depois da quarta-feira de cinzas. Só então adentra o quarto. Por um segundo contempla a mulher, prostrada na cama. Aproxima-se, beija-lhe a testa e diz “Oi, mãe”. Passa a mão pelos cabelos dela, depois pousa na testa, como quem toma a temperatura. Tira a jaqueta, ajeita sobre o espaldar da cadeira de plástico que fica em frente ao leito, volta-se para a mãe e aperta-lhe a mão, chamando-a. “Põe um pouco isso, respira”, pede, colocando sobre o nariz da mulher a máscara de oxigênio que estava sobre o peito. Ela entreabre os olhos, mas parece nada ver. Faz um gesto débil com a mão, como quem recusa algo desagradável. Sem oferecer mais resistência, o filho recoloca-lhe a máscara e a segura por alguns instantes.

Finalmente para e observa o restante do quarto, em busca de alguma novidade. No meio agora repousa uma senhora, oriental. Está de olhos fechados, cenho franzido, talvez uma leve dor. Mechas brancas misturam-se ao negro profundo do cabelo curto, cortado rente à nuca. Vários fios, que pendem dos frascos de plástico sustentados pelo suporte de ferro, somem por debaixo das suas cobertas. Ao lado dela uma outra mulher, cabelos castanhos, magra, envelhecida, talvez 40, talvez 50 anos. Quem sabe o que o tempo fez com ela, quem sabe o que ela fez do tempo? Sentada na cama, olha o vazio, num misto de cansaço e resignação. Não tem um dos pés. De repente, dá um gemido, um ai dolorido e engole um amargo.

O filho detém-se novamente na mãe. No suporte dela há vários frascos, bolsas e tubos, de cores diferentes, com fios de espessura diferente também, além de duas pequenas máquinas esverdeadas que bombeiam algo para dentro do corpo. Ele fica ali, ora de braços cruzados, ora ajeitando os lençóis, buscando alguma razão na inutilidade de seus gestos. Dobra o cobertor, coloca sob as pernas da mãe, que estão flácidas e sem força, já inanimadas. Sentado, toma o telefone e digita. “Oi, avisa aí que hoje não posso ir... Tá, então falo com ele... Segunda ainda dá tempo, depois só na quinta...” Pende a cabeça para o alto, mirando o teto.

Uma senhora assoma à porta, olha a mãe e depois o filho. Tem olhos claros e a pele também. A maquiagem cobre pequenas feridas no rosto. Diz-lhe alguma coisa sobre paciência. Ele agradece com a cabeça, sem demonstrar a chateação. Uma ou duas vezes por dia é assim, alguém aparece, faz cara de consternação, diz palavras de alento, fala em fé, força maior... Sabe que não pode desdenhar dessas demonstrações de piedade, mas sente um incômodo. Parecia que queriam simplesmente adiantar a coisa, aproveitando a oportunidade para uma despedida, ou talvez aquietando o próprio coração, aflito com o sofrimento alheio. O que mais incomodava era a publicidade do caso, como se todos que adentravam o corredor do hospital soubessem, de alguma forma, do estado de sua mãe. Quem seriam os tagarelas, seriam as enfermeiras, os outros internos, seus familiares, acompanhantes, quem? Vinham direto à porta, já sabendo quem ali estava. Suspira e mira o vazio.

“Esse ano sua mãe não vai sambar”, disse o médico dias atrás. “Quem sabe...”, desdenhou o filho, em silêncio. Ainda é sexta, ainda há sábado, domingo... mas e daí? Era ridículo imaginá-la enfiada numa fantasia, se requebrando num batuque! Há tempos ela já não ia ao culto, há anos ela abandonara a missa. De qualquer modo, achou grosseiro o tratamento do doutor. Todos sabiam que o sucesso da cirurgia era quase nenhum, mas ele não tinha o direito de dar uma sentença daquele jeito, frio, irônico, querendo se fingir de engraçado. Antes de ser uma paciente, a mãe era uma mulher com história, família, marido, filhos; filhos já criados, mas ainda vivendo sob o mesmo teto com ela. Agora viviam a seus pés, se revezando na vigília.

A pele da mãe, alva, contrastava com a sua, morena. Ninguém entre os cinco irmãos saiu à mãe. “Força da raça”, orgulhava-se o pai. Mas quando crianças sempre escutavam cochichos, bochichos, risadinhas. A mãe ficava transtornada, a cara avermelhada, e de brava passava a furiosa. Dava de dedo, saía pisando duro. Os meninos resolviam a seu modo, geralmente com punhos fechados e pontapés. As meninas é que sofriam mais, sofriam duas vezes: primeiro pelas ofensas, sempre com rimas, depois pelo destino, que não fez a pele delas, o cabelo, nada parecido com a mãe. Vez ou outra diziam que se odiavam por isso.

Um senhor, de camisa azul e sapatos pretos, assoma à porta e pergunta como a mãe esta. Sem dar tempo ao filho responder, ele começa a dizer que somos todos egoístas, que não queremos que se vá aqueles que gostamos, que devemos agradecer pela própria vida, e que ele tinha feito isso quando o pai morrera, embora ele bebesse, jogasse e judiasse da mãe. Mais isso e aquilo outro, que há sim milagres na vida, que ninguém pode adivinhar nem prever os desígnios superiores, pois há um tempo para cada um na terra; e que por isso não devemos nos revoltar nem mesmo quando crianças, grávidas ou gente saudável morre. Tudo isso em dois minutos, mas pareceu um longo sermão, daqueles de quem precisa acreditar nas próprias palavras.

A mãe se agita, parece engasgar-se com o próprio ronco. O filho a ampara, ergue seu pescoço, que já não suporta a própria cabeça. Olha sua boca entreaberta, seus olhos fechados. De repente, ela abre os olhos, revira-os e volta para encará-lo, como se suplicasse pelo último suspiro.


Rogério Ivano é professor universitário em Londrina, onde vive. É autor do livro de contos Os opostos se distraem e da biografia Haruo Ohara – Lavrador de imagens, com M. Losnak, entre outros. Participou do curta-metragem Satori Uso, premiado em Gramado em 2007.

Ilustrações: Guile Dias