Conto | Manoel Carlos Karam

Schoenberg, Berg e Webern



Nós nos mudamos para Alhures do Sul no verão de 77, vivemos lá até o outono de 83. Foi depois de Relva e antes de Tartiiba. Meu pai, minha mãe, minhas duas irmãs. Meu pai trabalhava numa empresa instalando filiais. Filial instalada, mudança de cidade. Alhures do Sul depois de Relva e antes de Tartiiba. Não tenho recordações de Relva e Tartiiba. Tenho de Alhures do Sul. Com tantas mudanças, nós costumávamos descobrir que uma ou outra questão, quando contada, estava trocada de cidade. Por isso não tenho completa certeza da falta de recordações de Relva e Tartiiba. Mas não tenho dúvida sobre a música do piano em Alhures do Sul. Ouvíamos a música do piano do vizinho, demoramos até perceber o que estava acontecendo. O piano do vizinho tocava muitas horas por dia, foi o que pensamos. Erramos, o piano tocava ininterruptamente. Fizemos um revezamento para conferir, o piano do vizinho tocava vinte e quatro horas todos os dias. Uns dois ou três segundos de silêncio entre uma peça e outra. Sabíamos que era piano e não disco porque eu e minhas irmãs espiamos pela janela do vizinho. A cerca que separava os quintais era baixa. A janela da casa dele tinha cortina, mas sempre ficava uma fresta. Ele tocava sentado de costas para a janela, podíamos espiar o pianista. Era como se ele estivesse num palco, a cortina da boca do palco com uma pequena abertura. O pianista dando as costas ao público, não por desaforo, mas pelo hábito de quem já foi maestro, explicou a minha mãe. Ela explicou quando viu por uma fresta da cortina do quarto da nossa casa eu e as minhas irmãs pulando a cerca de volta após um concerto na casa do vizinho. Ela por primeiro brigou conosco, por segundo perguntou o que nós vimos e por terceiro explicou do maestro que fica de costas para a platéia. Por último a minha irmã mais nova disse que queria ser pianista. Ela sempre dizia que ia crescer e ser da padaria. Acho que foi ainda antes de Relva quando ela disse ser da padaria. Meu pai achou engraçado quando a minha irmã disse ser da padaria. Minha irmã mais nova chorou. Ninguém riu quando ela disse que queria ser pianista porque o meu pai, o que mais ria lá em casa, estava no trabalho, instalando a filial de Alhures do Sul. Minha mãe ouvia o piano o dia inteiro, eu e minhas irmãs só de tarde, tínhamos escola de manhã, meu pai na hora do almoço e de noite, e nós todos a madrugada inteira. Às vezes eu me virava na cama, ouvia um pedacinho de música e dormia novamente. Espiamos uma vez pela janela de madrugada, meu pai autorizou, queríamos saber se o vizinho tocava piano dia e noite sem parar como parecia, mas impossível que fosse assim. Queríamos saber como era. Foi de madrugada que descobrimos a mulher tocando piano. Percebemos nas visitas seguintes que o casal se revezava para manter o piano ininterruptamente em concerto, como disse um dia o filho do contador. Meu pai disse que o filho do contador da filial estudava música, tocava piano e, mesmo muito jovem, já tinha dado concerto. Ele era dois anos mais velho que eu, mas naquele momento não me passou pela cabeça que meu pai estivesse sugerindo que eu deveria fazer alguma coisa que ele pudesse contar, como o contador da filial contava. Convidamos o filho do contador para ouvir o piano do vizinho. Um conhecedor de música esclareceria o que estava acontecendo. Schoenberg, Berg e Webern. Foi o que ele disse que estava acontecendo. O piano do vizinho repetia peças, explicou. A Suíte de Schoenberg (opus 25) ele tocou três vezes. O músico retornou nos dias seguintes, o piano do vizinho continuava tocando Schoenberg, Berg e Webern. De manhã, de tarde, de noite, a Sonata de Berg (opus 1). O filho do contador dormiu lá em casa algumas noites. Acordava de madrugada para ouvir o piano, muito repetidas também as Variações de Webern (opus 27). Foi em Alhures do Sul, depois de Relva e antes de Tartiiba. Perdemos a conta do piano do vizinho, daqueles muitos dias de música sem parar. Um piano era algo tão distante de nós que tivemos medo dele. Eu via no rosto do meu pai e da minha mãe que havia alguma forma de susto, um receio que talvez tenha sido a causa de nunca fazer amizade com os vizinhos. O que vinha a calhar, sempre preferimos não nos envolver com a vizinhança porque logo estaríamos de mudança. Quando viajamos para Tartiiba, no dia em que desocupamos a casa, o piano continuava tocando. A minha irmã mais nova aprendeu com o filho do contador a identificar a música. Naquele nosso último momento em Alhures do Sul, o piano na casa vizinha, nas mãos do vizinho ou da vizinha, não sabíamos, o piano fechava o concerto para nós com Schoenberg, seis pequenas peças para piano (opus 19). O nosso último dia nos fez recordar o primeiro do vizinho. Nós nos lembrávamos claramente de quando chegou a mudança do vizinho. Ninguém deixa de olhar para a mudança que tem um piano. Mas só o piano estava na nossa lembrança. Não tinha jeito de recordar como era a cara do vizinho e da vizinha, muito menos se havia alguma criança.

Manoel Carlos Karam nasceu em Rio do Sul (SC), em 1947, e faleceu em Curitiba, em 2007. cidade em que viveu a partir de 1966. Escritor, dramaturgo e jornalista, publicou Fontes murmurantes (1985), O impostor no baile de máscaras (1992), Cebola (1997), Comendo bolacha maria no dia de são nunca (1999), Pescoço ladeado por parafusos (2001), Encrenca (2002), Sujeito oculto (2004) e Jornal da guerra contra os taedos (póstumo, 2008).

Ilustração Marília Costa