Conto | Manoel Carlos Karam

Ilha de Nossa Senhora Fulana de Tal e outros nomes



A Ilha António chamava-se assim em homenagem ao seu descobridor, mas mudou para Ilha da Sereia porque uma lenda ganhou mais força que o descobridor.

O nome seguinte foi Ilha dos Papagaios Vadios, dado por um governador que, segundo os cronistas, gostava de gracejos, pois a ilha não tinha papagaios.

A Ilha dos Papagaios Vadios virou Ilha das Bateiras (na voz do povo, Ilha das Bateras), homenagem às embarcações dos pescadores que viviam nos rios de pouca água e não se sabe se de muito ou pouco peixe, mas pescadores que provavelmente tinham as simpatias do governador da época – a história de que um dos pescadores de bateira chegou a governador é chamada de lenda pela maioria dos cronistas.

O nome passou, por influência religiosa, para Ilha de Nossa Senhora das Fontes Murmurantes ou Ilha de Nossa Senhora dos Ventos Uivantes – os cronistas divergiam, dois deles chegaram a se bater em duelo, que terminou empatado, dois mortos.

Outro empate quando os defensores do nome Ilha de Nossa Senhora das Fontes Murmurantes e Ilha de Nossa Senhora dos Ventos Uivantes chegaram a um acordo, e o novo nome foi Ilha de Nossa Senhora Fulana de Tal.

Durante a Grande Estiagem, também chamada de Big Estio, algumas vezes grafada como Big Stio, chamou-se Ilha dos Guarda-Chuvas Fechados, mas não em todos os documentos, numa parte deles continuou Ilha de Nossa Senhora Fulana de Tal por intransigência religiosa.

Alguém teve o cuidado de eliminar as referências ao nome Ilha do De Vez Em Quando, mas não conseguiu apagar todas, algumas escaparam, como aconteceu com os registros da Funerária Sempre, documentos disputadíssimos em leilões.

A guerra civil foi pródiga em mudanças de nome. Quando os do Norte estavam ganhando, mudou para Ilha do Norte Glorioso. Quando os do Sul estavam à frente, Ilha do Sul Vitorioso. Quando terminou a guerra civil, ela recebeu o nome Ilha da Grande Merda, mas nem todos os historiadores confirmam, alguns usam o nome sem a palavra Grande.

Quando os dez mandamentos viraram lei civil, com punições militares, a Ilha do Olho Que Tudo Vê teve grandes progressos econômicos, mas os pecadores ficaram de fora.

Ilha dos Furacões Bonzinhos não foi um nome muito correto, por isto trocado rapidamente para Ilha dos Furacões de Verdade, que também não agradou e acabou em Ilha da História Mal Contada.

Uma das fases religiosas resultou na Ilha do Convento das Emmas Descalças, tendo sido para isto construído um convento. Desde o início, a intenção era de um nome que não durasse muito, suposição a partir da escolha do local do convento, bem no caminho dos furacões.

Ilha das Metáforas foi o nome que menos tempo vigorou. Não durou uma semana. Piada de mau gosto, disseram uns. Piada infame, disseram outros. Nem como piada, disseram ainda outros. Mas não foi isto que liquidou o nome em tão pouco tempo. Houve uma emergência que obrigou a escolher um nome estratégico.

Na tentativa de invasão da ilha pelos taedos, foi chamada de Ilha dos Jacarés. Dizia-se que os taedos tinham medo de jacarés. Como se sabe, não tinham, e a tentativa de invasão passou para a fase seguinte.

A reconstrução da ilha, após o desinteresse e a retirada dos taedos, durou quatro anos. Nos dois primeiros, continuou sendo Ilha dos Jacarés. Mudou para Ilha do Baile de Máscaras, nome que permaneceu até faltar um mês para terminar a reconstrução. Foi aí que ela passou a se chamar Ilha X, como é citada pelo mágico na sequência da chuva no filme Slothrop, de Percival Bartlebooth.

Quando a ilha deixou de ser encontrada pelos navegadores, chamava-se Ilha X. Permaneceu assim nos mapas até que deixou de ser encontrada também pelos geógrafos. O buraco no meio do oceano, visto até hoje no mapa exposto no Museu de Todas as Ilhas, em Alhures do Sul, está realmente no ponto exato onde a Ilha X existiu para alguns mapas. Mas a possibilidade do buraco ter sido feito por traças é muito grande.

Outras informações:

Moradores da ilha reclamavam da troca frequente de nome. Diziam que prejudicaria a população assim que a ilha tivesse um serviço de correios. A história memorizou apenas os muitos nomes da ilha, nenhum nome de governador da ilha.

Os arqueólogos não encontraram qualquer indício de que a definição de ilha (uma porção de terra cercada de água por todos os lados) fosse conhecida.

Um cronista da época sugeriu que em vez de nome a ilha tivesse números. Em algarismos romanos. Daí alguma confusão histórica com o último nome da ilha.

A frequente troca de nome causava atritos. Em qualquer encontro de meia dúzia de pessoas havia divergência sobre qual era o nome atual da ilha. A guerra civil começou numa reunião familiar para comemorar um batizado.

Nunca houve repetição de nome. Pelo menos ninguém reparou.

O título deste relato optou por um dos nomes da ilha. Poderia ter sido outro. É que alguns ficavam muito longos, outros muito curtos. Este ficou de bom tamanho.



Manoel Carlos Karam nasceu em Rio do Sul (SC), em 1947, e faleceu em Curitiba, em 2007, cidade em que viveu a partir de 1966. Escritor, dramaturgo e jornalista, publicou Fontes murmurantes (1985), O impostor no baile de máscaras (1992), Cebola (1997), Comendo bolacha maria no dia de são nunca (1999), Pescoço ladeado por parafusos (2001), Encrenca (2002), Sujeito oculto (2004) e Jornal da guerra contra os taedos (póstumo, 2008).

Ilustração  Marluce Reque