Conto | Julie Fank

Um conto ou texto para encenar em voz baixa

Ilustração: Fabiano Vianna



dizem que fumar um ajuda o prazo acaba e a gente não sabe se cumpriu ou não a demanda é tanta que tanto faz se poema se prosa se poe - sia se arritmia se manual de instruções sobre como se tornar invisível em Curitiba Campo Comprido Fazendinha Santa Quitéria Capão Raso são bairros que conheço mas só de nome e o centro força centrípeta1 da margem para o canto direito do Paraná meio do caminho entre a fábrica e a loja que loja literatura não se vende se aprecia ai de quem troca apreço por preço é tudo ficção inclusive o valor do livro da página da gráfica do editor da lauda revisa - da pra que mesmo um revisor quando o experimentalismo é tudo experimenta experimenta experimenta você tá em Curitiba terra de Dalton terra de Leminski terra de polaco terra de biblio - teca na minha isso é nome de bar gay aliás cadê homem branco hetero cis classe média com problemas para cumprir o prazo que é pouco sempre pouco dinheiro cadê meu personagem que sou eu na verdade que sono que preguiça que vontade de dizer que não não pode vai que alguém vai no seu lugar não perde a oportunidade que é bom pro currículo pra política 
pra escrita no jogo é tudo um jogo
espelho em cacos espalhados
espelhados
ilhados
DESEMBUCHA, menina.

Seu dente do meio desobedecia hierarquias e justamente por isso surgia ali entre os dois pausa para procurar o nome dos dentes incisivos acho um adjetivo portentoso que também é um adjetivo imponente. Corta. Intrometido como o cara que fura a fila para pedir se o ônibus da meia-noite ou o trem das onze horas e meia ainda tem poltronas livres. O dente, detalhe importante, tinha um terço do tamanho de seus vizinhos e era levemente encavalado. O não seguro que ela devolve para o quase passageiro quase à meia-noite quase inseguro não faz a narradora pensar que se ELA qual delas? precisasse justificar a grosseria para o chefe lá estaria o dente em seu discurso, meu dente do meio me fez acreditar que era melhor segurar uma poltrona vaga e, sim, não vendi a última vaga, cê sabia que ele lateja toda vez que vai chover e o vento leste da Cambirela muda a rota?, dá azar não prestar atenção nessas coisas será que coloco aspas?. Os incisivos são os dentes usados para cortar os alimentos. A faca. A adaga. A lâmina. NA LIGA. Corte é quando a gente deixa os versos da poesia respirarem. O narrador a narradora em terceira pessoa voz off onisciente onipresente cristão diria que o dente intrometido estabelece uma nova categoria de singular, mas depois que ele descobre que são quatro os incisivos essa frase não faz mais sentido. Num grunhido, faz barulho de peido com a boca avisando que vai ao banheiro e já vem, invertem-se os papéis como se, até parece e é o marido que avisa A avó, deve ser avó pode ser tia-avó pode ser vizinha, a justiça chama de responsável DO SEXO FEMININO, cuida dela, vou cagar e já venho, reitera. Ou foi ELA que decidiu ir ao banheiro?, a memória não ajuda a contar histórias, ele faz um sinal de espera com as mãos e percebo que o diálogo anterior só existiu na minha cabeça. Eles se comunicam com gestos teatrais a pelo menos dois metros de distância, a rodoviária inteira uma folha sulfite palco. As expressões fazem parte de um repertório compartilhado, ela encena para si mesma um ué com as mãos para cima quase sem levantar os ombros, mas levanta um pouco, dá pra perceber e nem estou tão perto. Sem os ombros para cima e o ué imaginário, ela teria protagonizado um levantar de sobrancelhas ou uma cutucada com o cotovelo no meio da missa para iniciar a prece, seu personagem não era ateu? Mas que horror, claro que não. De tão parecidos, suspeito que fossem um casal feito de um casamento arranjado entre primos.

— Moça, você tem carregador de celular? Diz que sim diz que sim diz que sim.

Faço uma cara de não posso te ajudar e é como se tivesse dito não, não está permitido falar neste conto, moço, eu gosto é do silêncio, é quase uma hora da manhã e nada do ônibus, no guichê da empresa os valores estampados PONTUALIDADE RESPEITO AO CLIENTE E PAIXÃO EM CONECTAR E TRANSPORTAR não entendem nada de paralelismo. Pego o livro da bolsa, é sempre a literatura meu fone de ouvido, mas dessa vez era autoajuda, meditação em uma coleção da Folha de S. Paulo de 2001, onde eu estava em 2001?, não consigo. Volto para o de sempre, o Karam na excelente os resenhistas adoram esse adjetivo pena de Jornal da guerra contra os taedos, também de bolso. O anacrônico batalhão de soldados em armaduras causou estupor. Numa guerra em que nada mais causava estupor, foi mesmo uma grande ideia, página 37. Se é uma cena numa rodoviária tá faltando personagem, ainda mais se o meu resolveu ter diarreia e nada de voltar do banheiro, coloque aqui um turpilóquio aprendi essa palavra esses dias jogando Academia à sua escolha. Aparece alguém que interrompe meu pensamento me entregando um folheto de Santa Edwiges, a santa dos desesperados, aceito, guardo na bolsa para fazer uma colagem com o santinho depois que nome ótimo pra um pedaço de papel eleitoral e fico procurando rima pra ela pra quem foi que emprestei meu dicionário de rimas?. Como se entendesse que eu estava pensando em substitui-LA pelo menino ambulante, fica de pé, mãos indignadas na cintura, desconfio que olhou pra mim justificando sua inquietude com uma mão apontada para o companheiro imaginário ausente onde é que ele tá, meu deus? quase que dizendo é ele que não me deixa sair daqui. Não lhe resta nada a não ser mexer no cabelo e amarrá-lo com uma piranha transparente sujeita à incidência do sol para virar um furta-cor que nunca é reconhecido como lilás, coisa brega. ELA faz igual eu olha a gramática verossímil aí e puxa bem a raiz. Como um bocejo, prendemos nosso cabelo ao mesmo tempo, reflexo involuntário que denuncia a narradora observadora então você tá prestando atenção no meu enredo, né, fia? Penso em oferecer um lápis para ELA deixar o coque mais firme, é pra isso que AS MULHERES carregam estojo na bolsa, né?, além do caderno para a lis - ta de compras, no caso dELA não vai adiantar nada, só eu tenho rabicó daquele elástico resistente e consistente e nem tenho e, mentira, minha franja vive escapando e aí só o grampinho segura. O ônibus chega e a menina-neta sabe que o ônibus chegou. Depois de pular três vezes para avisar que o ônibus chegou crianças não entendem nada de pontualidade ainda bem, arrisca soltar a mão, ela se aproveita do sedentarismo involuntário da avó — alguém tem que cuidar dos pertences —, que não sai do perímetro previsto pelo marido, sacode os braços batendo com as mãos fechadas no quadril, a menina passa para o lado de lá do portão sem olhar pra trás, cadê o marido que nunca mais, a avó só sussurros incompreensíveis para si mesma, ai se ela soubesse o valor de um xingamento em voz alta, nada, do marido e da neta, as coisas seguras as coisas se - guras as coisas seguras as coisas seguras AS COISAS s e g u r a s, as mesmas coisas de sempre e nenhum gesto é capaz de gritar, circunscrita no seu próprio corpo dentro do perímetro desenhado pelo marido ela se conforma, coisas da gravidade inércia forçada como a velocidade é um vetor de módulo, direção e sentido, uma alteração na direção implica uma mudança no vetor velocidade. A razão dessa mudança na velocidade é a aceleração centrípeta. A neta hesita por um segundo e a vó deixa escapar um canto de boca menos ex - pressivo, no fundo ela sabe que, de todos os gestos, o que a menina executa com mais desenvoltura é o do tchau.

quero ver você ler este texto em voz alta o não com a cabeça não é preciso falar eu não sei nada sobre o que eles falam só sobre o como eu é que não sei como eu queria na verdade é falar sobre técnica diálogo e plágio tá tudo justificado mas sem justificativa passa por conto pode ser quem sabe depende de quem assina quem sou eu na ordem do dia isso não é um conto muito menos um cachimbo.


Fabiano Vianna nasceu e vive em Curitiba (PR). Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), atua como designer e ilustrador na Ctrl S Comunicação e é editor da revista/livro de literatura pulp LAMA.

Julie Fank nasceu em 1988, em Cascavel (PR). É artista visual, escritora, professora e diretora da Esc. Escola de Escrita, em Curitiba (PR). Formada em Letras Português-Inglês e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), atualmente cursa doutorado em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Tem contos e poemas publicados em periódicos como RelevO e Arte e Letra: Estórias


Nota
1 Força centrípeta é a força resultante que puxa o corpo para o centro da trajetória em um movimento curvilíneo ou circular. Objetos que se deslocam em movimento retilíneo uniforme possuem velocidade modular constante. Obrigada, Wikipédia.