Conto

Os (M)eus tolos argumentos


Oneide Dee Diedrich

Lembro muito bem da primeira vez que tomei o meu primeiro copo de água ardente. Foi uma experiência marcante — daquelas que recordo, foi a mais —, já que não me lembro como foi quando nasci. Alguém havia largado aquele pequeno copo, que parecia conter apenas água, ao lado de minha lancheira e de minha chupeta. Eu não ia pra aula sem elas. Bateu lá no fundo e fez eco, e um mundo novo então brotou em meu pátio; eu estava descalço e dava passos de tango esperando o almoço ou o moço que me levaria à escola. Na verdade, essas são lembranças confusas, não me recordo com exatidão, acho que também recalquei. (Enquanto isso) “Garçom, mais uma dose, é claro que eu tô afim.”

Aquele copo me abraçou como um polvo, como um urso, como uma mãe que sente saudades demais ou talvez como a morte abraçaria Dóris sob o varal.

Eu e aquela água fomos cúmplices de alegrias, brigas e fiascos. “Lembra daquela vez que te encontrei de baixo da cama?”. Ela nunca respondia, sempre foi fiel ao meu estranho gosto pelo silêncio.

Andávamos lado a lado. Eu dava dois passos na lua, ela me esperava no bar da esquina, e isso era o máximo da fidelidade. E, ao nos separarmos, eu a deixava nas privadas ou em postes solitários e ela me deixava louco. Como explicar tal paixão? Eu não merecia tanto, era demais para mim, foi então que decidi que era necessário sofrer. Com o advento da hipocondria, tudo ficou menos complicado, pude me sentir o pior, mesmo estando bem.

Assim é mais fácil entender o peso de minhas cadeias. Então eu estava pronto e bêbado, e o olhar de Dóris pode ser o tiro mais certeiro que me atingiu e que me fez bem, e que me fez mal. Esse é o grande segredo: o que faz bem também faz mal, não há saída. Algo faz falta, e eu não posso me enrolar (ou enrolar vocês) em mil cores como os pirulitos perfeitos daqueles desenhos animados de antigamente. Deixemos pra lá e com gritos de viva! Brindemos aos meus mais tolos argumentos. Depois é só esquecer. Não há como explicar, não é preciso nem entender.

Rua sem saída! Eu pensava em tudo, menos em estar ali. Deitado na rede, rente à janela, eu fitava os passantes, tremendo de medo. Eu tinha muito medo. A loucura de Dóris não era mais tão estranha, na verdade se tornara algo bem familiar, e Linda, coberta de cuidados, parecia uma boneca. Então eu colocava meus óculos escuros e ficava de olho. Tomava um chá amargo, que me fazia bem e mal, e depois de alguns minutos, ficava apavorado. Havia naquela vizinhança uma nota promissória que me perseguia. Cada vez que ela virava a esquina, eu pulava para dentro da casa, mas não era só isso. Só de vê-la, a angústia interditava o meu peito e de imediato me vinham à mente as contas atrasadas: água, telefone, luz e gás.

Lembro-me de uma vez em que Dóris me chamou de poeta, eu nunca havia levado aquilo a sério, mas tamanha era a angústia, que pensei em acreditar e escrever. Quem sabe as letras em associação livre me levassem para um outro lugar. Um país colorido, edênico e distante. Mas não, eu fiquei ali aos pés da torre de Babel, falando sozinho pelos cotovelos. Pensei então que deitado na rede seria impossível prevenir-me daquela nota desafinada e promissória. A solução seria morar no último andar de um prédio muito alto de onde eu pudesse ver a Cruz Machado terminar seu calvário na Tiradentes. Aí eu escreveria um poeminha para o meu lindo lar. Se eu tivesse anotado o poeminha seria assim:

Curitiba do alto

Eu tenho flores
Um lindo quarto
Vejo do alto
A Curitiba
Dona Tereza
Limpa a sala
Que é tão bela
Mas não é dela
E sobre a mesa
Contas esperam
Que o meu saldo
Volte ao zero


Não anotei o verso, o que me deixou ainda mais apavorado. Notei que eu não tinha a menor ideia de como assinar tão singela obra poética. Sempre estive perdido a esse respeito, não sabia me localizar na história de Dóris, já que em alguns momentos da saga, eu era simplesmente “aquele que”. Em outros trechos me propus a ser o objeto de seu olhar e de seu desejo, e muitas vezes me surpreendi na função de narrador. Mas quase sempre, e a todo instante, me sentia um quase nada, medroso e preso pelo pé.

Oneide Dee Diedrich nasceu em Toledo (PR) e passou a infância e a adolescência em Santa Rosa Del Monday, no Paraguay. Graduado em psicologia, com formação em psicanálise, exerce a profissão paralelamente à carreira artística. É vocalista das bandas Pelebrói não sei, Diedrich & Os Marlenes e CroonerDee. O conto “Os (M)eus tolos argumentos” foi extraído do livro, ainda inédito, Réquiem para Doris. Vive em Curitiba (PR).

Ilustração: Alexandre Zampier