Conto

seios secos


Sérgio Tavares



maldita é a fome que me pesa os olhos. e me sinto tão fraca que o esforço para deter as pálpebras me desaba de joelhos. sangro ao corte do barro seco. um sangue escuro que mosqueia a pele curtida colada nos ossos do peito pendendo os seios, agora frutas secas e corrugadas.

arrasto-me pela fornalha da casa ao meio-dia, calcinando a ferida com o vapor que emana do corpo febril. agarro o pé da mesa, me apoio. não quero que o menino me veja caída. nessas horas, o mantenho dentro do buraco onde era o antigo poço. ali o solo é mais fresco. mas temo que o cachorro, atraído pelas reverberações, traga-o junto à sua intromissão. farejando a morte que acendeu a cidade em carmesim. os três sobreviventes da ditadura do Sol.

de pé, tapo o joelho, amparando-me na parede quebradiça que esfarela as pontas dos dedos. a fome pesa, como se estivesse prenha de um animal voraz que se alimenta do vazio. sigo em passos miúdos, lentos pelas amarras do calor até a cabaça. desvendo a nossa sorte. uma mão fechada de sementes, uma tira de charque e um naco duro de pão. ainda temos provisões para afugentar os temores que me assombram desde que Nôio partiu.

lembro de seus lábios negros e rachados, sussurrando entre o crucifixo de madeira, para que eu fizesse aquilo com o seu corpo. mas eu não agüentaria, não posso. e lembrar da tentação que espreitou a resistência por tantos dias e tantas noites faz com que as pálpebras cedam. quando abro os olhos novamente, vejo o cachorro esgueirando-se pela porta.

uma vez, Nôio me falou sobre um livro sagrado e suas estórias. disse que uma passagem afirmava que nascemos do barro. aqui, o barro é o fim.

quando o Sol começou a rasgar o solo, um silêncio gradual foi se acomodando pela cidade e selando a impossibilidade do futuro. tudo se tornou abandono. à noite, ouviam-se as vozes fracas lamuriando sob chamas de velas, rumo ao longe, ao nada. os dias se tornaram plásticas reproduções do declínio. a fornalha, apenas a fornalha. e a vida secou.

abro os olhos. sinto o cheiro do menino rasgar a crosta de vapor. tento me aprumar, viro-me com o que se aproxima de um sorriso. ele rasteja, com o uso dos cotovelos, até os meus pés.
é um menino frágil que, se eu lembrasse a idade, diria que já deveria andar. no meu colo, abocanha o seio por puro desespero. sabe que o viço só durou para ele tempo suficiente para afastar a precocidade da cruz. mas deixo-o chupar a minha decadência. ele não tem culpa.

afasto-me e repouso numa esteira de palha. o cachorro se aproxima vadio e começa a lamber o sangue seco no joelho. é um animal esquelético, que apareceu fugido de um casa morta e se arrumou à nossa realidade. não sei o que come, não sei o que bebe. vive sucumbido pelos cantos, com um palmo de língua espumenta para fora. não tem nem mesmo um nome.

lembro da vez em que Nôio amarrou um barbante no rabo do cachorro e o menino ficou eufórico quando o animal começou a girar. tentava ficar de pé, gritava e rastejava atrás do fio. o cachorro parecia que entendia seu entusiasmo e rodopiava cada vez mais rápido. eu e Nôio chorávamos de rir. foi o instante mais feliz das nossas vidas.

há algum tempo, tenho pensado em matar o cachorro. talvez seja esta a saída para os temores que acompanham a escassez das provisões. o problema é o elo tramado entre o animal e o menino. receio que ele feneça com a ausência do bicho, como sofro desde o dia em que Nôio partiu.

a fornalha sussurra pecados mascarados de conselhos. é preciso sangrar para saber ao certo onde é o corte. eu sei. e, se fosse possível ter o que o livro das estórias fabulosas promete, desejaria que Nôio não tivesse feito o que fez, quando escureceu os lábios e beijou o crucifixo. temo que logo farei, então, aquilo que me pediu que fizesse com o seu corpo.

é a maldita fome. na ditadura do Sol, não há predileções.

Sérgio Tavares é jornalista e autor de Cavala, livro de contos que venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2009. Vive em Niterói (RJ).

Ilustração: Renato Faccini