Cartas Wilson Bueno a João Antônio

O Cândido publica com exclusividade duas cartas de Wilson Bueno endereçadas a João Antônio, no começo dos anos 1980. O material foi gentilmente cedido por Luiz Carlos Pinto Bueno, depositário do acervo do escritor paranaense. Está em curso um acordo entre os herdeiros dos dois autores para que a correspondência entre Bueno e Antônio seja reunida.




Re-verdes tingui, 3/ JAN/ 1984

Acertado o reinício da sempre ingente batalha pela subvida, em 15 de dezembro larguei-me cá deste mocó para Florianópolis. Aqui recém-chegado (dia 2, ontem) topei com suas sempre generosíssimas remessas. Obrigado muito pela costumeira atenção. (Preciso lhe devolver a 2ª versão da carta).

Fico feliz que tenha aproveitado, supimpamente reescrito, o trecho que passa a integrar a página 8 do seu conto de Natal. Aquilo ali é mesmo comovente. Em minha humilíssima opinião, de todos os títulos ficaria apenas com dois: “Pedaço de Marianita” (a lembrar os grandes títulos de Aníbal Machado) ou “Balada de Gaivotas, de Bolhas Douradas e da Cachorra Tatiana”. Nenhum outro, sinceramente, me bate mais na entranha que estes dois.

Ainda antes de viajar andei aqui, febril e ensandecido com o “Sete Noites”, de Jorge Luis Borges, que me levou, de tabela para a leitura de Dante, Platão e até mesmo De Quincey (traduzido por Baudelaire — “Memórias de um Comedor de Ópio”). E, loucura das loucuras, tudo acabou se bifurcando — e finalizando o delírio — na releitura (terceira) dos dois volumes de “Memórias do Cárcere”. A mais fina, forte, máscula e viril lição de humanidade, que conheço, uma humanidade suja de si mesma, certo, mas ô que humanismo vero e fero o deste mestre insuperável das Alagoas!

Agradeço e retribuo os votos muito sinceros de que em mais este ano, possamos ser dele sobrevivente, como aconteceu com o fatídico 1983. Que o santo de sua devoção, Santo Antônio da Batalha, lhe dê a citada energia para o trabalho e a igual fraca esperança.

Mandei a Duílio Gomes alguns cometimentos poéticos. Se conseguir furar o duríssimo bloqueio da neurose que me paralisa frente a qualquer papel em branco, escreverei, enfim, o “Pingente em Bronze”. Ideias há muitas. Andei relendo seu “Dedo Duro” e considero Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha” coisa definitiva.

Com recomendações a Tereza, guardiã deste inquieto espírito macunaímico, o teu, sempre, Wilson Bueno.



Revárzeas, 11/ julho/1984

João Antônio. Muitíssimo prezado.

A correria, aqui, tem sido imensa. Além do trabalho com as crônicas do jornal, três vezes por semana, ainda funciono regularmente pela manhã e à tarde no lufa-lufa pela subvida. Mas só assim para eu escrever. Desembestei, João Antônio, desembestei nas escrevinhações. Estou fazendo o que considero anotações, à grande, para o livro (ou livros), que pretendo escrever.

O Aleijadinho saiu, ao menos por um período (já aconteceu outras vezes) do rol das minhas obsessões. Li, inteiro, o livro da Isolda. É quase certo que seja essa mesma que andava lá por Congonhas, naquele tempo que lhe dei notícia em carta. Só pode ser ela. O livro é (foi) fantástico, lido numa fase de vagabundagem total e sem as alusões de agora.

Fico te devendo carta alentada sobre Antônio Francisco Lisboa. Creio que a minha visão bem pequena das coisas, não há de fazer falta. Com sinceridade.

Aí vai a primeira das cartas de Um Pingente. Embora o esforço do grande ilustrador brasileiro — Seto. Lembra dele? — passou por quase todas as revistas e editoras de São Paulo. Japonês de grande talento, e ainda que heterossexual definitivo, um apaixonado por Mishima. Na correria das redações, principalmente cá por estas plagas e num jornal relativamente novo, enfiou um baita U no PINGENTE, como v.verá, mas a matéria ficou, no todo, muito boa, em minha opinião. E mereci, inclusive, nesse dia, chamada de primeira página. Aliás, o meu trabalho, que assim que possa, te mando xerox (para uma severa avaliação) vem fazendo um sucesso que acho que não mereço muito, cá por estas bandas. Aquela que lhe enviei (o jornal inteiro, como IMPRESSO e que v., até agora não acusou se recebeu, ou não) sobre os POLAC OS ganhou elogio até de gente super-enfarada. Tanto fazia — gente super-enfarada não têm opinião, tem estado-de-espírito.

Vivência marioandradiana, de três, quatro ocupações simultâneas e mais o mundo de cartas, epistolagem de Norte a Sul deste país.

E ainda as leituras: acabo de sair de um livro que li com unção, pesando e fazendo escorrer na voz e até nas mãos, cada frase, cada período, cada parágrafo, cada capítulo: “INFÂNCIA” do mestre Graciliano. Resolvi , por acaso, lê-lo já que havia a besteira de não entendê-lo, embora a leitura total, lá nos meus dezesseis anos. É uma definitiva obra-prima. Melhor, muito superior que a Infância de Tolstói e acho que em domínio de língua supera o Machado de Assis. / Terminou o papel e o tempo!/ ESCREVA — ESCREVA — ESCREVA. Wilson Bueno.

Wilson Bueno nasceu em Jaguapitã (PR), em 1939. É autor, entre outros, de Manual de zoofilia (1991), Mar Paraguayo (1992), Meu tio Roseno, a cavalo (2000), Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004) e Cachorros do céu (2005). Tem livros publicados na Argentina, Chile, Cuba, Estados Unidos e México. Bueno faleceu em Curitiba, em 2010.

João Antônio nasceu em São Paulo, em 1937. É autor de Malagueta, Perus e Bacanaço (1963). O livro, que conta a história de três malandros paulistas, foi traduzido para oito idiomas e ganhou o Prêmio Jabuti. Depois, João Antônio publicou mais vinte obras, entre elas, Leão de chácara (1975), Malhação de Judas (1976), Casa dos loucos (1978), O Calvário e porre do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1979), Dedo-duro (1981) e Abraçado ao meu rancor (1986). O autor foi encontrado morto em sua casa no dia 1º de maio de 1996.