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Escrevendo histórias reais

Autor das biografias de Carlos Imperial e Ronaldo Bôscoli, Denilson Monteiro descreve como se tornou um biógrafo e de que maneira escolhe e trabalha os seus personagens

O começo
Lembro perfeitamente da manhã de 2001, quando João Pedro ligou de seu emprego, o arquivo do Jornal do Brasil, me convidando para uma visita ao prédio da Avenida Brasil, número 500. Havia encontrado a pasta sobre o compositor Carlos Imperial e queria que eu a visse. Durante anos eu comentei com ele e outros amigos sobre as aventuras do Gordo, dizendo que elas mereciam estar em um livro como os de Ruy Castro e Fernando Morais. Fui ao encontro do meu camarada e fiquei maravilhado com os recortes relatando fatos que ao longo da minha vida ouvi Imperial contar no rádio e na TV. João insistiu para que eu mesmo escrevesse o livro pelo qual esperava, coisa que me apavorou. Até aquele momento só havia escrito redações de colégio e textos para concursos de um jornal do qual era assinante — ganhei brindes muito bons: camisetas, um boné, CDs, e até um pôster do filme Abril despedaçado com autógrafo do ator Rodrigo Santoro.

Depois de um ano de indecisão e procura, consegui entrar em contato com os filhos do Imperial, que receberam com entusiasmo a ideia de uma biografia sobre o pai. Novamente com a ajuda de João Pedro, comecei a lidar com as máquinas de microfilme da Biblioteca Nacional, revistas e jornais antigos e filmes e discos da época do “rei da pilantragem”, como Imperial ficou conhecido. Também precisei fazer entrevistas com aqueles que conviveram com meu biografado, artistas que via desde que me entendia por gente. Eu, um tímido com receio até de falar ao telefone, precisei vencer minhas inibições e, munido de um gravador emprestado, desatei a fazer perguntas a gente como Erasmo Carlos, Paulo Silvino, Agildo Ribeiro e Nelson Motta.

Para encurtar a história, após seis anos de trabalho árduo, o livro foi lançado, resultando em alguns cabelos brancos, mas também em alegrias, como ouvir daqueles que conheceram Imperial que ele era realmente como eu o descrevera e descobrir que era um escritor.

Quando surge o personagem
Não posso considerar que houve a escolha pelo personagem no meu primeiro livro, pois o mais correto seria dizer que foi Carlos Imperial quem me escolheu. Já no segundo, após dois meses do lançamento de Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial, decidi que precisava o mais depressa possível voltar à labuta e provar que não era “galinha de um ovo só”. Ronaldo Bôscoli, que durante as pesquisas foi várias vezes citado por meus entrevistados, surgiu como opção, escolha sacramentada após assistir ao ator Mateus Solano dando vida ao Lobo Bôscoli na minissérie “Maysa, quando fala o coração”.
Como havia feito anteriormente, procurei os herdeiros do meu novo biografado, recebendo resposta positiva deles. Embora seja defensor do direito de se publicar biografias não-autorizadas, a ideia de não contar com a colaboração do biografado ou de sua família é algo que não me deixa confortável. Como prescindir de importantes detalhes dos primeiros anos de vida do meu personagem que só ele ou seus familiares poderiam fornecer? Teria a sensação de um trabalho feito pela metade. Mas é claro que há sempre um Roberto Carlos em detalhes para provar que mesmo sem essa colaboração é possível fazer um belo livro.

Nunca passei pela experiência de escrever sobre um personagem do qual não gostasse. Carlos Imperial, Bôscoli e Cartola, os três livros que lancei, são figuras que admirava, mesmo caso de Tim Maia, de quem não escrevi o livro, mas participei da pesquisa. Entretanto, vale ressaltar que ao escrever, um autor deve evitar o maniqueismo, retratando a luz e a sombra do biografado. Sempre tomando cuidado para fazer isso com o devido equilíbrio, sem canonizar ou demonizar.
Ao decidir contar a história de um personagem, um dos problemas é saber se isso irá sensibilizar as editoras. Muitas vezes um artista tem momentos interessantíssimos em sua vida, mas sua carreira não ter obtido o merecido sucesso, pode não ser considerado um “produto vendável”. Afinal, editoras vivem de vender livros e empregar seus recursos em um negócio que pode dar prejuízo é a última coisa que desejam. Mas se o autor acredita que essa é a missão da sua vida, deve arregaçar as mangas e encarar o mundo.

Pesquisa ou obsessão?
O meu ponto de partida ao iniciar a pesquisa continua o mesmo desde o início, a consulta aos dossiês em arquivos de jornais, bibliotecas e museus. É a partir desse material que se vai tendo uma primeira visão do trabalho, prestando muita atenção a cada fato e nome presente em cada matéria de revista ou jornal. E nos últimos tempos, na internet podem ser encontradas páginas com o acervo de importantes jornais, o que torna mais fácil o acesso a essas preciosas informações.

Nenhuma fonte de consulta pode ser desprezada. Até um livro com receitas médicas pode ser útil na hora de descrever o tratamento do personagem para algum mal que tenha sofrido. Uma fotografia pode ser a prova para a presença do personagem em determinado lugar em determinada época. As fichas técnicas dos discos com nomes de músicos e técnicos de som que participaram de uma gravação oferecem uma infinidade de informações.

Frente a frente com uma fonte de informações
A fonte primária, aquela que conviveu com o biografado, é o que dá o principal sabor a um livro. Um entrevistado pode revelar importantes detalhes sobre o personagem, as expressões que usava, os trejeitos e até a marca favorita de uísque. E para encontrar um entrevistado não se deve medir esforços. Numa ocasião, passei semanas ligando para todos os Alberto de Castro existente na Lista Telefônica do Rio de Janeiro até descobrir o amigo de juventude de Carlos Imperial, que morava num bairro próximo ao meu.
Durante uma entrevista, é indispensável conquistar a confiança do entrevistado, indo ao encontro dele sabendo muito bem o que deseja. Se for um artista, conhecer seu trabalho já é meio caminho andado para isso, pois demonstra seriedade e gera simpatia. Entretanto, é preciso cautela na hora de aproveitar o que é dito durante a entrevista, pois muitas vezes a memória falha e uma informação dada pode não ser exatamente como foi dita. Checar todas as informações dadas é fundamental, pois caso um erro seja publicado, o açoite dos leitores o espera. Nas biografias não vale a frase do filme de John Ford tão usada atualmente, o “imprima-se a lenda”, apenas a verdade interessa.


O principal desafio: escrever
No entanto, todo esse trabalho será em vão se não parar no papel. Há pesquisadores que realizam uma admirável pesquisa, mas no momento de transformá-la em livro, passam por um bloqueio criativo e não conseguem dar forma literária a tudo o que conseguiram apurar. “Escrever é um sofrimento”, ouvi de dois autores em diferentes conversas, coisa que não deixa de ser verdade. Geralmente, leva-se horas para se conseguir escrever um único parágrafo, que na leitura do dia seguinte vai sofrer alguma mudança.
Ler é o melhor caminho para se escrever. Os livros de Fernando Morais e Ruy Castro, citados anteriormente, foram fontes de inspiração no gênero ao qual me dedico. Os de Monteiro Lobato e Paulo Setúbal também. E minha técnica na escrita, aquela que trago desde a infância, é contar histórias como um filme que acabei de assistir, fazendo do leitor o meu ouvinte. Também procuro viver o que estou escrevendo, me transportar para o local que estou descrevendo, tornando-me um espectador do fato narrado. É algo que me leva a tratar meus personagens como figuras que realmente conheci. Já me peguei no supermercado comentando com minha esposa sobre certo tipo de comida apreciada por Ronaldo Bôscoli como se falasse de um velho conhecido.

Enfim, um livro pronto
Depois de horas de sono perdidas martelando o teclado do computador, quilômetros percorridos atrás de um entrevistado, muitas canecas de café, chega-se ao tão desejado ponto final. E aí vem a hora de entregar originais à editora que abraçou a ideia de publicar a vida do teu personagem. Revisões, aprovação da capa, primeiro exemplar entregue pelo correio, comemoração com a mulher e o filho que suportaram todo esse tempo de obsessão, lançamento, corrida por divulgação, torcida pela resposta positiva de público e crítica, e o pensamento: “Qual será o próximo?”.


Denilson Monteiro
é autor de Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial, A bossa do lobo: Ronaldo Bôscoli e Divino Cartola, uma vida em verde e rosa. Também foi o responsável pelas pesquisas de texto e imagem de Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia (2007), biografia do cantor Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Atualmente, pesquisa as vidas do produtor musical Tom Capone e do locutor César Ladeira. Vive no Rio de Janeiro (RJ).