Cândido indica

S. Bernardo
Graciliano Ramos, Record, 2006
Após esfaquear João Fagundes, que resolveu “abrecar” a cabritinha Germana, Paulo Honório fica preso por três anos. Livre, faz um empréstimo e sobe na vida por meios escusos. A falta de escrúpulos do protagonista o permite tornar-se dono da grande fazenda que dá nome ao livro e prosperar, mas seu temperamento faz com que, gradualmente, tudo colapse. O aparente sucesso de Honório, assim, não impede que sua vida seja uma sucessão de desgraças — assassinatos, brigas, acusações, um casamento fracassado, ciúmes e suicídio. A partir desse estudo da ganância, da ignorância e suas consequências, o alagoano Graciliano Ramos elabora, neste que é seu segundo livro, uma narrativa sobre a ascensão e queda de um homem irascível.

O último dia de um condenado
Victor Hugo, L&PM Pocket, 2017 Tradução: Paulo Neves
Sem revelar seu nome, trejeitos ou aparência, o narrador anuncia de pronto sua condição: “Condenado à morte!”. Sabe-se que deixou mulher e filha pequena, mas o crime que o levou à sentença não é comunicado. Não é interessante, também, saber detalhes de sua vida. O que importa é sua nova condição. O que o define, agora, é a condenação. É assim que, ao elaborar um protagonista anônimo que representa uma questão mais ampla, o escritor francês Victor Hugo (1802-1885) discute a potencial desumanização causada pelo sistema penal vigente à época e explora o tormento do último dia de um condenado.

 
Cosmogonias
Otto Leopoldo Winck, Kotter Editorial, 2018
Cosmogonias apresenta ao leitor uma miríade de referências — literárias, bíblicas, culturais e filosóficas — que são parte primordial na construção dos poemas. Em “Blues”, a música marca o tom da despedida e do coração partido: “Ela se foi/ E com ela foi-se tudo / o que um dia eu fui./ Ficou só a minha dor, / a minha gaita / e este blues”. Já “Torquatamente” recria os últimos passos de Torquato Neto para falar dos derradeiros desejos da voz poética criada por Otto Leopoldo Winck. Segundo livro de poemas do autor carioca radicado em Curitiba, Cosmogonias também flerta e dialoga com a metafísica e a teologia em uma um linguagem que se destaca pela clareza. 

A desobediência civil
Henry David Thoreau, Penguin, 2012
O escritor e filósofo americano Henry David Thoreau (1817-1862) foi um libertário que antecipou ideais que viriam a “colar” apenas muitas décadas após sua morte. Em A desobediência civil, Thoreau dá o tom de sua reflexão logo na linha inicial: “O melhor governo é o que menos governa”. A partir daí, incita seus contemporâneos a protestar contra tudo que é injusto, de leis equivocadas à escravidão então vigente nas Américas. A presente edição ainda traz textos como “Onde vivi, e para quê”, uma defesa do naturalismo e da vida simples em um momento que os Estados Unidos se preparavam para ser o bastião do consumo no mundo.