Biblioteca Paraná | Bruno Cobalchini Mattos

Dois esboços

Junto com outros 14 textos inéditos de autores entre 18 e 30 anos, este conto foi selecionado pela equipe do Cândido para integrar uma coletânea, a ser publicada no primeiro semestre de 2017 pelo selo Biblioteca Paraná.


No primeiro dos dois desenhos, Orundellico tem a cabeça ligeiramente projetada à frente do corpo e sua postura se assemelha à de um símio. O nariz eleva ao centro de olhos inexpressivos e percorre metade da extensão do rosto, apontando para um recuo brusco da ossatura situado na parte inferior da face. O cabelo repicado, de corte rudimentar, completa o aspecto selvagem do retratado.

No segundo dos dois desenhos, apesar do nariz largo e saliente, Jemmy Button tem as mesmas feições e o mesmo olhar altivo observados em qualquer jovem europeu do século XIX.

Ambos os retratos foram feitos pelo Capitão FitzRoy, que em 1929, à frente do Beagle, levou Orundellico a Londres. Foi ele também quem, no comando do mesmo navio, devolveu Jemmy Button à Terra do Fogo quatro anos mais tarde.


O naturalista justapôs as duas ilustrações e aproximou-as da luz para observar os detalhes com nitidez. Demorou-se por alguns instantes ao compará-las, mas foi logo vencido pelo cheiro da queima do óleo de baleia exalado pelo lampião. O odor sórdido tomava conta do ambiente da cabine, intensificando o enjoo que ele experimentava em viagens longas, às quais ainda não se habituara totalmente. Precisava tomar um pouco de ar.

Antes de abrir a porta, ainda puxou a corrente de prata que escapava do bolso e tinha presa à outra extremidade um relógio dourado. Uma inutilidade, pensou, conferir as horas nas quais a rotina inexiste e as ações são ditadas apenas pela necessidade. Passavam sete minutos das duas da manhã. Ninguém da tripulação circulava pelo navio, e ainda assim os barulhos eram incessantes. As tábuas rangiam, o som das ondas se amplificava; o movimento a bordo parecia maior do que ao longo do dia. Marinheiros de primeira viagem tinham a sensação de navegar rodeado por fantasmas.



Caminhando pelo convés, ele se aproximou da proa e, recortada contra a escuridão tumultuada à sua frente, percebeu uma silhueta de baixa estatura. Apoiada na amurada, reclinava-se contra o mar como se estivesse prestes a se atirar no oceano. Por um instante, o naturalista sentiu o ímpeto de correr em sua direção e impedir o ato, mas logo reconheceu o rosto de Jemmy que, alarmado pelo barulho, voltara-se para ele. Parecia muito tranquilo.

Jemmy Button (o naturalista nunca soubera por que o Capitão FitzRoy havia escolhido esse nome) era o jovem da Terra do Fogo; o mesmo que, na última semana de dezembro, atraíra dezenas de pessoas ao cais do porto para assistir à partida do Beagle rumo à América do Sul. Ao longo de toda a viagem, o garoto demonstrara certo prazer por saber-se centro das aten- ções e objeto de estudo.

Mas o naturalista pouco lhe dirigira a palavra, e soube que aquele era um bom momento para fazê-lo.

— Pegando um pouco de ar fresco também?, perguntou.

O garoto encarou-o fixamente por alguns segundos. A atenção do naturalista se deteve nos olhos de seu interlocutor. Lembravam duas pequenas azeitonas negras e reluzentes, em cujo brilho não se discernia qualquer expressão. Jemmy desviou o olhar para as tábuas de madeira no chão, e o naturalista entendeu que aquilo não era introspecção — o garoto apenas não compreendera a pergunta. Por isso, repetiu a frase pronunciando as palavras com um cuidado especial:

— Você também precisou vir aqui para fora? Para sentir um pouco de vento no rosto?

A resposta veio automática, embora acompanhada por um sorriso:

— Sinsenhor

— São complicadas essas viagens, ainda mais para nós que não estamos acostumados. Três meses e ainda sinto ânsias.

Ele se posicionou ao lado do garoto e recostou as mãos na amurada que os separava do mar. Distraiu-se, tentando discernir a linha do horizonte sob a pálida iluminação da lua minguante. Sentia os pensamentos se recomporem gradualmente com o cheiro de sal e longas distâncias que temperava a brisa fresca. Jemmy acompanhava o movimento das ondas em silêncio. 

Uma coincidência notável, encontrá-lo ali àquela hora, logo após analisar os desenhos. Mas era natural que o garoto tivesse dificuldades para dormir — afinal, estava prestes a voltar à sua terra de origem após tantos anos. Examinando o garoto de perto, o naturalista confirmou que o Capitão fizera jus aos seus traços no segundo retrato, e por isso aceitou também o primeiro como verossímil. Ah, os efeitos da civilização! Só assim era possível explicar a transformação pela qual o menino passara. Além de ter o cabelo bem ajeitado, vestia um suspensório azul-escuro sobreposto a uma camisa justa e tinha os sapatos bem engraxados, mesmo após tantos dias ao mar. Era irreconhecível se comparado ao da primeira ilustração. Até o rosto se tornara mais humano.

— Você se chama Jemmy, não é mesmo?

— Jemmy Button, sinsenhor.

— Sim, sim... Por favor, desculpe-me a indiscrição... mas... por que Button?

Por óbvio, a família do garoto não tinha sobrenome britânico. Se é que tinha sobrenome.

— Button, sinsenhor. É porque, quando me pegou, o senhor FitzRoy deixou um botão de madrepérola para a minha mãe.

— Um botão de madrepérola?

— Sinsenhor. Quando eu ainda não morava na cidade, o senhor FitzRoy queria me levar para Londres pra eu aprender e depois ensinar minha família, e me trocou com minha mãe. Deu um botão de madrepérola pra ela e me levou. Era um botão muito bonito.

Tudo aquilo havia sido uma grande dor de cabeça para o Capitão, que regressara à Europa logo após a aprovação de uma nova lei proibindo qualquer tipo de transporte escravagista em navios britânicos. Diziam os amigos mais próximos que, não fosse a sua inquestionável boa-vontade ao resgatar o menino e civilizá-lo (corroborada pela reputação construída ao longo de toda uma vida a serviço da Coroa), as puni- ções teriam sido as mais severas. No entanto, ele escapara sem maiores complicações além de devolvê-lo à sua terra assim que houvesse uma oportunidade.

O naturalista acompanhara tudo de perto; afinal, a decisão do tribunal influenciava diretamente o planejamento daquela viagem que tanto antecipara. Por isso, inteirou-se da história o máximo que pode, mas sempre com a sensação de que as descrições eram insuficientes para uma compreensão real das condições em que o garoto se encontrava antes de ser resgatado. Sabiase que ele vivera com uma tribo de índios Yaname em uma região próxima ao Estreito de Magalhães. Os Yaname eram facilmente reconhecíveis, pois andavam praticamente despidos em uma região de temperaturas baixíssimas e vento incessante. Lá, o garoto não era Jemmy Button, mas Orundellico.

Em Londres acreditava-se que, a exemplo dos agrupamentos de nativos na Oceania, as tribos que habitavam a zona ao sul de La Plata não eram de seres humanos, mas de uma espécie adjacente. Por isso, fora motivo de surpresa que Jemmy, uma vez catequizado, houvesse incorporado os códigos de etiqueta britânicos e aprendido a falar inglês, apesar das limitações. Passados cinco anos, podia-se dizer com alguma segurança que o selvagem do primeiro desenho já não existia.

Ainda assim, o menino ficara muito agitado com a perspectiva de ser levado de volta à Terra do Fogo. Desde o início da viagem, recontava sua história com grande satisfação a quem demonstrasse interesse, comparando o que conhecera na Europa com sua situação anterior, reconhecida por ele mesmo como “primitiva”. Mas, quando perguntado se desejava ou não retornar, o garoto era reticente.

E agora que o momento se aproximava — era, afinal, a última madrugada antes da ancoragem —, sua excitação parecia dar lugar a uma ansiedade nervosa. O naturalista percebeu que provavelmente não teria outra oportunidade de falar a sós com ele, e quem sabe agora não conseguisse obter algumas respostas? Talvez o tempo que Button passara em Londres fosse suficiente para que o garoto também percebesse as primeiras horas do dia como um momento propício às confissões.

— Você deve estar muito ansioso, não? Estamos muito perto de sua antiga casa.

— Estamos, sinsenhor. Chegamos amanhã.

— E o que você acha disso? De ser trazido de volta?

— Eu sou muito agradecido, senhor. Muito agradecido por tudo que o Capitão fez.

— Mas você queria voltar?

O garoto hesitou. Deslizava o olhar entre os movimentos do mar reluzente e os próprios sapatos de couro preto. Dentro de um ou dois dias, era possível que estivesse descalço. Talvez até estivesse completamente despido, como os seus.

— Você não gostou da Grã-Bretanha?

— Gostei, sinsenhor

— Então, por que se sente feliz de voltar?

— É porque às vezes eu sinto falta...

Mas de quê, ou de quem? Se tão alegremente subira a bordo, como o Capitão relatara, e tão alegremente se exibira nos mais altos círculos de Londres. 

— Sente falta?

E, naquele momento, a resposta do menino soou incompreensível:

— Eu sinto falta do fogo.


No dia seguinte, Button foi deixado junto a uma tribo de selvagens na península de Woollya, o mesmo ponto onde havia sido recolhido pelo capitão alguns anos antes, e a embarcação seguiu por um rio caudaloso rumo à parte interna do continente. 


***


Mas aquela última frase ficaria na cabeça do naturalista até ser esclarecida, três semanas mais tarde. Tendo a expedição concluído as medições geográficas do extremo Sul da América — um dos pretextos da viagem, assim como o garoto —, o Beagle regressou à baía repassando o mesmo caminho que traçara na ida. Conforme o navio se aproximava do oceano, a tripulação distinguiu uma imensa fogueira na margem direita, distante não mais de um quilômetro do córrego que percorriam. Um marinheiro chamado John Thompson, que também participara da viagem anterior, comentou: 

— Vê aquela fogueira enorme? Como os Yaname anda sempre nu, precisaram achar um jeito de se manter aquecido. Por isso acendem essas fogueira no pé das montanha, protegida da chuva, e só se afastam pra caçar e buscar comida. Nunca deixam o fogo apagar. Comem do lado delas; acordam do lado delas; dormem no chão, do lado delas, e fazem todas as necessidade ali, do lado delas.

Thompson olhou naquela direção por mais alguns segundos e, antes de se retirar para cuidar de suas obrigações, concluiu: 

— Não são gente. Vivem que nem bicho.


***


Naquela mesma noite, recolhido à sua cabine, o naturalista anotou provisoriamente em seu caderno que a definição das espécies era, assim como se diria um século mais tarde a respeito das relações de parentesco, uma criação essencialmente arbitrária.



Antonio Dias nasceu e vive em Curitiba (PR). Professor de Artes Visuais, atua no ramo do design gráfico desde a adolescência. Atualmente é designer na Ctrl S Comunicação.

Bruno Cobalchini Mattos nasceu em Porto Alegre (RS). Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estudou Literatura e Línguas Modernas na Universidad Autónoma de Madrid. Trabalha como tradutor e jornalista. Vive em Foz do Iguaçu (PR).