Biblioteca Afetiva

No fim da adolescência, momento natural para fazer descobertas de toda natureza, trombei com autores brasileiros cujas obras contribuíam para entender melhor o país, que ainda vivia sob a ditadura civil-militar de 1964. E, entre tantos livros que marcaram aquele meu período de formação como leitor, destaco o encontro com Quarup, de Antonio Callado. Ainda hoje me lembro de retardar a leitura para atrasar a chegada ao fim do romance, e da emoção de ler e reler os últimos parágrafos. Era um bocado de Brasil que se descortinava na jornada de Nando e dos outros personagens, mas era também a apresentação a um autor que se tornaria muito querido (e de quem logo na sequência fui ler Sempreviva). Quarup me ajudou a descobrir que a literatura, além de oferecer uma experiência de caráter estético, poderia ter alcance sociopolítico.

Sérgio Rizzo é jornalista e professor. Vive em São Paulo (SP).


Aos 17 anos, dois problemas se misturavam na minha cabeça: a verdade do universo e a faculdade de engenharia mecânica. Além de reclamar, como propunha Raul Seixas, resolvi ler Contato, de Carl Sagan. A história da cientista Ellie Arroway, que encontra evidências de vida inteligente extraterrestre e comanda uma missão para estabelecer contato com os alienígenas, ajudou a colocar em ordem algumas das minhas ideias de adolescente. É claro que percebo isso agora, em retrospecto; na época, eu tinha apenas lido um baita livro de ficção científica. Sagan foi uma espécie de iluminista do século XX, um dos maiores divulgadores da ciência por quase três décadas, e juntava ali naquela trama matemática, física, romance, cosmologia e suspense. Sua obra serviu para consolidar minha fé na razão e, em certa medida, me motivou a largar a engenharia e partir para o jornalismo (pois é, talvez a razão não tenha levado a melhor nessa mudança).

João Paulo Pimentel é jornalista. Vive em Curitiba (PR).