Biblioteca Afetiva

Muitos livros vieram antes, muitos depois, mas 1984, do George Orwell, me pegou de jeito. Se não me engano era 1996. Eu costumava a passar muito tempo dentro de ônibus e decidi aproveitar essas horas desperdiçadas para ler. No caso de 1984, a história icônica de Winston Smith e do Grande Irmão tinha tudo o que eu queria: força, iconoclastia, profundidade, e pintava um mundo no limite, não tão diferente do nosso. Em determinado momento do livro, quando o casal é capturado pela guarda do Grande Irmão, meu choque foi muito grande. Porém, estava dentro de um Ligeirinho, chegando no ponto final. Tinha que parar. Qual o quê! A leitura era tão envolvente que saí do ônibus e fiquei uns 20 minutos dentro do Tubo do Ligeirinho, parado em pé, tarde da noite, até terminar o capítulo.

Simon Taylor
é cartunista e designer gráfico. Diretor da Ctrl S Comunicação. Também é autor do livro Meus cases de sucesso, lançado em 2013. É curitibano, da turma de 1974, e devoto de São Elvis. Vive em Curitiba (PR).





Da minha biblioteca afetiva, destaco A maçã no escuro, de Clarice Lispector, que narra a trajetória de um homem numa paisagem noturna e montanhosa. Ele foge? Talvez fuja. Mas de quê? Fica a impressão de que cometeu um crime. É tudo nebuloso. Ao amanhecer descobre uma fazenda onde se oferece para trabalhar. Mas sua competência vai muito além do que se exige de um trabalhador rural. A dona da fazenda, ao perceber as competências de Martim, desconfia de que se trata na verdade de um engenheiro. Mas o que faz ali um engenheiro aceitando um trabalho inferior à sua competência? Nada se revela claramente. Finalmente a dona da fazenda chama um policial e Martim sente-se aliviado porque agora poderá pagar por seu crime.

Menalton Braff é escritor. Autor, entre outros, dos romances Bolero de Ravel e O casarão da rua do Rosário, e das coletâneas de contos À sombra do cipreste e A coleira no pescoço. Vive em Ribeirão Preto (SP).