Artigo

Vinte anos sem (com) Marcos Prado 

Roberto Prado lembra dos anos de convivência e das parcerias com o irmão, morto em 31 de dezembro de 1996


No sentido horário, os poetas Roberto Prado, Sérgio Viralobos, Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado.

Primeiro tempo A Lata de Luxo Um dia fui à casa da minha mãe, Nadyr do Prado, localizada no mitológico Bacacheri, o bairro mais bem guardado do Brasil. Explico melhor. Neste recanto curitibano estão a base aérea, o CINDACTA 2, o Material Bélico, o Aquartelamento da Ponte do Bacacheri, o Hotel de Trânsito, o gigantesco Vigésimo Batalhão de Infantaria Blindado (o famoso Vinte Bibe) e a casa do cartunista Luiz Antônio Solda.

Pois bem. Aproveitando a deixa, fui visitar o meu irmão Marcos que, nesta época, como todo marmanjo enxotado pela esposa, voltara ao lar materno — habitava então um singelo “puxadinho” nos fundos da casa da dona Nadyr.

Não lembro qual das malvadas havia cometido esta barbaridade com um rapaz tão bom, marido exemplar e que havia cunhado, entre outras pérolas da vida a dois, a prima definição “o sofá é o melhor amigo do homem”.

A mãe costumava dizer às noras de todos os rebentos: “Quer levar, mesmo? Não aceito devolução”. Mas, acabava recolhendo os enjeitados e seus caquinhos.

O mano dividiu espaço, por algum tempo (até partir para novas aventuras) com as indefectíveis tralhas que, tradicionalmente, ocupavam 82,5% da metragem útil do aposento (esta palavra deriva de “local de aposentadoria de móveis e objetos”? Pena que o Leminski não está aqui para explicar).

A coisarada era ali socada para — sabe-se lá — quem sabe um dia. Mas como esse santo dia nunca chegava, permanecia estocada — ao menos nas casas dos antigos, pois essa juventude de hoje não respeita mais nada e é bem capaz de tacar no lixo a ossada do avô!

O que eu estava contando, mesmo? Ah, sim, entrei no quarto do meu irmão, desviando o impressionante volume de livros e cinzeiros que ele havia conseguido acrescentar ao já populoso ambiente. Rindo de pura satisfação, ele imediatamente me passou uma folha manuscrita e, sobraçando uma antiga lata de lixo que, partir deste momento solene virou um tambor, me apresentou a sua mais nova canção, um samba quase Adoniran.

Aliás, poucos sabem que o Marcos Prado, além de parceiro letrista de um seleto grupo de lendários músicos, também arriscava lá as suas melodias solo. Algumas vezes ao violão. Outras a capela, ou ao estilo Lamartine Babo — só com percussão — quando a harmonia exigia mais que sua felina habilidade no instrumento de corda que ele arranhava com tocante elegância. Dizia assim:

Enfim sós
(Marcos Prado)
acabou, que pena
nosso amor se transformou
num bar com meia porta
as cadeiras sobre a mesa
eu torrado e você torta
— —
cada um pro seu lado
a madrugada vazia
você em sua carruagem de princesa
eu com um pé na frente e outro atrás
nos dois a mesma tristeza

Talvez algum dia alguém tenha dó da gente e grave essa canção inédita. Esse luxo nascido da parceria entre um grande coração e uma lata de lixo, no fundo de um quintal do Bacacheri, Curitiba, Paraná, Brasil.

Segundo tempo 

O Fim é Um Bom Começo 

O tempo passou esse tempo todo fingindo se arrastar no marasmo, em clima de pesadelo. Cada bilionésimo de segundo pingando penosamente de uma torneira frouxa ou escorrendo invisível de uma privada desregulada. De repente, me dou conta que ele, o tempo, esse ente que não existe, na verdade não rasteja: voa pelo espaço. E atropelado pela vertiginosa sucessão de janeiros, me caiu na cabeça, de uma vez só, a consciência de que já se foram quase 20 anos desde a morte do meu irmão mais novo, o Marcos Prado. Partida que quebrou a trajetória de um artista com pilha, pique e tesão para mais 60 anos de estrada, no mínimo. Doeu? Ainda dói. 

Parece que foi ontem, parece que foi nunca, não se parece com nada aquela sangria desatada. Eu chegando lá com Léa, a esposa dele, no pronto socorro do Hospital Cajuru, em Curitiba, para uma alucinada sequência de cenas que até hoje reprisam, enevoadas na mente.

De vez em quando me pego lutando, na memória, para que o desfecho seja diferente. Mas acontece que, sem darem a mínima para a minha opinião, quiseram os deuses e as musas da poesia que ele fosse convocado, no réveillon de 1996, para reapresentar-se no lugar onde nasce o tempo.

Lembro bem que eu e Marcos crescemos escrevendo juntos, desde sempre (nisso o tempo não me engana). Duas crianças lendo alto, cantando, parodiando, debochando, desmontando todos os brinquedos literários que nos caiam nas mãos, pelo complicado prazer de ver como eram pelo lado de dentro. Para nós, isso era a vida, nem sabíamos que era batuque, música, poesia. 

O Marcos teria hoje os seus 54 anos de idade. Um inimaginável senhor, um senhor poeta que levou embora seu incontrolável carisma e contagiante alegria de viver, mas deixou uma obra que resiste sem perder cor, aroma, frescor, sabor. Poesia, música e atitude que as novas gerações abraçam como se fosse delas. E é mesmo.

Personalidade inquieta, talento múltiplo, artista explosivo, Marcos foi um dos expoentes de uma geração de santos guerreiros e malucos de pedra, artistas de todos os naipes que batalharam sozinhos ou em bando para tirar a cidade de sua mórbida timidez, sonhando dar a ela um ar mais moderno, alegre e cosmopolita. Gente que dedicou o melhor de suas vidas, no mais das vezes sem nenhum retorno além da própria satisfação, para imprimir sangue e vida ao triste ambiente cultural curitibano. Ambiente que, vendo hoje, você pode imaginar remotamente como era no tempo das diligências. Por essas e por muitas outras que você, pesquisando, vai descobrir, acho que o Marcos Prado ainda está por aí. Começando pelo fim.

Prorrogação 

Um inédito de Marcos Prado

Roberto Prado nasceu e vive em Curitiba (PR). É poeta, tradutor, publicitário, jornalista e autor de canções gravadas, entre outros, por Carlos Careqa, Oswaldo Rios, Sidail César, Tatára, José Oliva, Thadeu, Adriano Sátiro, Beijo a Força, Maxixe Machine, Lábia Pop, Ferryboat, Missionários, Grupo Fato e Viola Quebrada. É autor de diversos livros de poesia, prosa e tradução. Seu mais recente lançamento é o áudio-livro Presença de espíritos (2014), na interpretação de Antônio Abujamra, com versões de poemas fundamentais da literatura universal.