Anotações de um Sedutor

Javier Arancibia Contreras

Já me chamaram de canalha, calhorda, cachorro, de insensível, infeliz, idiota, de babaca, banana e boçal. Tudo isso fora os impropérios que abdico de relatar aqui. Em comum entre todas as mulheres que me ofenderam ao longo dos anos há um fato único, sincero e determinante para que eu me transformasse nesse alvo de desprezo e ódio. Eu amei cada uma delas. Uma após a outra, mesmo que, muitas vezes, um relacionamento tenha entrado em declínio em decorrência do surgimento do outro. Eu não buscava isso diretamente, não queria magoar quem quer que fosse e tampouco desgostava de nenhuma delas quando decidia jogar tudo para o alto. Apenas acontecia. Isso ninguém parece querer compreender.

Sou o que à moda antiga chamava-se de sedutor. Não sou brilhante intelectualmente nem tenho o rosto bonito ou mesmo atributos físicos que chamem a atenção. Sou até um pouco barrigudo, devido ao gosto exacerbado pela cerveja, e ultimamente ando vendo no espelho que uma calvície no cocuruto se expande envergando aproximação com as entradas avantajadas que já tenho sobre a testa. Tenho um nariz bastante grande e afilado, mas não acho isso um defeito, chamo isso de charme, e talvez seja mesmo uma das poucas coisas que se destacam em mim, junto com o sorriso debochado e o olhar de esguelha que costumo direcionar às mulheres que me chamam a atenção.

É como um instinto, um chamado à vida. Difícil de explicar. Não sou um sujeito sem escrúpulos como elas pensam que sou. Repito. Simplesmente acontece. Eu sou daqueles que preferem morrer a ter uma paixão reprimida.

Quando conheci Malú, aos vinte e um anos, eu já havia me deitado com Verônica, Isabel, Lúcia, Rita e umas tantas outras. No início dessa juventude, porém, a libido era como um contrassenso ao amor. E foi só a partir dessa maioridade, dessa ruptura com as reminiscências juvenis, que me descobri apto para tal descoberta. Na verdade, foi mesmo Malú quem me fez balançar quando botei os olhos nela pela primeira vez. As pernas bambearam. Morena dos olhos verdes claros, corpo de mulher feita com rosto angelical, Malú imediatamente se transformou no assunto predileto das rodas de conversa dos homens nos botequins assim que se mudou para o bairro com a mãe doente e o pai motorista de ônibus. Eu morava no subúrbio e as mulheres que vivem nos subúrbios gostam de competir umas com as outras nas noites de sábado. De dia o burburinho todo já começa. A ida à feira livre, ao cabeleireiro, ao campo de várzea onde eram disputadas nossas acirradas partidas de futebol, tudo isso já era uma preparação do mulherio para as noites nos barzinhos do momento e nos salões de baile. Malú, porém, nunca aparecia. E isso deixava a torcida ainda mais impaciente. Tudo o que ela fazia era cuidar da mãe e dos afazeres domésticos.

Eu não estava aguentando mais aquela euforia, aquele desejo reprimido, queria saber mais sobre aquela mulher e quando a vi mais uma vez, semanas depois, levando a mãe para passear, em uma cadeira de rodas velha e desgastada, a todo o esforço para subir as sarjetas da calçada que a levaria à praça, tomei coragem para ajudá-la. Percebendo o acerto da atitude gentil, já emendei que havia feito um curso de auxiliar de enfermagem e que poderia acompanhá-la quando trouxesse a mãe para o passeio habitual. Era quase uma verdade, pois havia feito um curso rápido de primeiros socorros, mas isso pouco importa, visto que até a mãe pareceu sorrir com o flerte. Na verdade, a mãe dela não sorriu coisa alguma, como fui saber depois. Aquela coisa que se assemelhava a um sorriso era uma paralisia facial decorrente de um derrame. Isso Malú me contava aos poucos, enquanto nossa relação se manifestava sincera e até certo ponto inocente.

À medida que as semanas passavam me tornei confidente de Malú, que não tinha amigas para tanto. Foi dessa forma que descobri que ela havia prometido para si mesma jamais se relacionar com um homem enquanto sua mãe estivesse naquela condição. Tentei dissuadi-la da promessa, prometi namoro, justificando que a mãe poderia levar anos para se recuperar ou mesmo morrer, mas Malú não abria mão da culpa que carregava. Culpa esta sobre a qual ela jamais falou. Não obstante, o que ela me disse em seguida surpreendeu-me até a alma.

“Vai, leva o teu fogo contigo que hoje ainda não posso. Mas, quando quiser, volta e me conte tudo.”
E assim foi. Dois anos depois me casei com Márcia, loura recém-saída da adolescência que tinha o hábito de gritar mais do que todas as outras ao me ver fazer um gol no campinho. Ela me idolatrava tanto que deu o meu próprio nome ao filho que tivemos, o Júnior. Durante quatro anos, fui realmente louco por Márcia, mas daí surgiu Elisa, um furacão que devastou minha estabilidade matrimonial. Elisa era a gerente de uma das lojas de papai e, devido à sua incrível competência, foi promovida à supervisora geral e passou a bater de frente comigo, o boa-vida, o playboy do subúrbio, o filho do patrão. Elisa só não contava que eu me apaixonasse por ela. E vice-versa. Eu deixava que ela me subjugasse nas reuniões, que me tratasse como um energúmeno enquanto administrador. No entanto, tudo não passava de um jogo perverso. Quando fechávamos as portas da sala de reuniões, após dispensar a todos, após brigas terríveis em que fatalmente eu saía como um perdedor, o que causava a indignação dos diretores, ela se revelava. Me pedia para humilhá-la, desprezá-la, machucá-la. Dali para o fim do meu casamento, mas principalmente, para o início de um amor infame, bastou o primeiro tapa que lhe dei na cara.

Eu contava tudo para Malú, enquanto ela enfiava a sopa de aveia goela abaixo da mãe e o pai roncava vendo a tevê na sala ao lado.

“Você é um homem bom. Não fez nada de errado. Segue teu desejo, o amor que tens pela vida.”

E Malú me pedia para entrar em detalhes, coisa que me deixava bem constrangido. Eu tergiversava, floreava as passagens mais picantes, mas ela me interrompia. Nervosa, derrubava a sopa no avental da velha e dizia que não queria me ouvir falar como um poeta e sim como um sedutor, um amante das mulheres. Acho que foi a primeira vez que alguém se dirigiu a mim dessa forma. Estranhamente, me senti até orgulhoso.

Elisa e eu nunca assumimos nada, mas ela me infernizou ainda mais que Márcia, que tinha motivos aos borbotões. Isso tudo porque surgiu Carolina e toda a sua doçura era o avesso da insanidade de Elisa. No fundo, sempre fui um sentimental, um eterno romântico, e Carolina era tudo isso e muito mais, eu percebia em seus olhos por trás dos óculos fundo de garrafa que usava e em seus gestos camuflados pelas roupas largas que vestia enquanto me atendia na clínica de animais nas vezes que eu levava meu cachorro Nelson para algum procedimento médico. Foi ela que descobriu e tratou o câncer do Nelson. Foi ela também que lhe aplicou a injeção letal e aguentou o meu choro desmedido e infantil na sala de espera do seu consultório. Com Carolina parecia que eu havia retrocedido no tempo. Nós íamos ao cinema assistir filmes antigos, andávamos de mãos dadas, sentávamos em bancos de praça. Casamos, enfim. Convidei Malú, mas ela se negou, assim como havia feito da vez de Márcia.

Mesmo assim ela insistia e queria saber detalhes sobre minha vida com Carolina, que era tímida até mesmo na cama. Mas isso não me incomodava, já estava farto de volúpias. Entretanto, me chateava dizer isso a Malú enquanto ela limpava a boca da mãe com um pano engomado da sopa e o pai bêbado roncava de frente à tevê.

Não durou muito, porém. Um ano depois de Carolina ter matado meu cachorro, ela morreu. De uma doença animal, disseram os médicos. E eu desatei a chorar de maneira parecida da vez que Nelson morreu.

Daí desandei de vez. Mas eu ainda tinha a chama no peito e nos anos seguintes posso dizer que amei uma porção de vezes, de maneiras diferentes, mas por uma razão única. Só então compreendi que eu era um homem solitário.

***

Quando recebi o telefonema de Malú, fazia anos que não nos falávamos. Eu já não morava no subúrbio, era tarde da noite e eu tive que dirigir bastante para chegar ao lugar onde nasci e me criei. Malú abriu a porta e a figura que eu vi estava envelhecida, os olhos verdes como que diluídos na dor, a boca seca do desgosto.

“Ela morreu.”

E eu entrei e só não vi a velha ainda mais velha porque Malú colocara o pano da sopa sobre seu rosto. No sofá da sala, seu pai já não roncava nem a tevê estava ligada. Me aproximei, acho que pela primeira vez desde que pus os pés naquela casa, e vi de perto seu rosto. Os olhos abertos, como se houvessem presenciado algum tipo de horror, a boca escancarada pelo vômito. Ao lado do corpo, um copo vazio, uma espécie de espuma amarela nas bordas.

Malú também se aproximou. Parada ao meu lado, cuspiu no corpo do pai. Com os olhos lubrificados por um sentimento indecifrável para mim, cuspiu de novo. Desta vez, no rosto. E só então me segurou pela mão e, lentamente, me levou até o seu quarto.


Javier Arancibia Contreras escreveu o livro-reportagem Plínio Marcos — a crônica dos que não têm voz (2002) e os romances Imóbile (2008) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e O dia em que eu deveria ter morrido (2010). Em 2012 foi escolhido como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros pela revista literária inglesa Granta. Vive em Santos (SP).

Ilustração: Theo Szczepanski