PENSATA | Julia Raiz
30/06/2022 - 09:59

Viver ensaisticamente #1: destino e febre

Reflexões sobre a fantasia e a metamorfose a partir da leitura do conto “Teleco, o coelhinho”, de Murilo Rubião


 

Entre britar pedras e lidar com as palavras,
britar pedra é como cortar manteiga
João Etienne

 

Eu tinha uns 13 anos quando fui com a minha mãe num bazar da Fundação Campo-Cidade no bairro Cachoeira. A Fundação está na ativa desde 1993, ajudando famílias de produtores rurais a venderem seus produtos em feiras, bazares e igrejas, sem a intermediação de atravessadores. Atua na cidade de Ibiúna, interior de São Paulo, na área da agricultura, educação, capacitação técnica e cultura.

O bazar estava acontecendo numa igreja do bairro. Tinha roupa, bijuteria, miudezas de todos os tipos e livros. Lá eu ganhei os primeiros livros que não eram infantis e que não chegavam pela escola. Os livros foram um presente em troca de eu ajudar a organizar uma pequena biblioteca com a Fundação.

Um dos livros que ganhei, e que ainda está comigo é O Homem do Boné Cinzento e Outras Histórias, do Murilo Rubião, escritor mineiro, contista do “realismo mágico”. Nas primeiras páginas do livro tem uma entrevista, bem curtinha com o Murilo, em que ele dizia uma coisa muito esquisita para uma menina de 13 anos: levei 26 anos para terminar essa história.

Minha vez de falar uma coisa estranha: estou há 17 anos ruminando um conto desse livro. Escrevo a partir de um profundo mal-estar que “Teleco, o coelhinho” me causou e voltou a me causar, essa semana, quando reli o conto. É um texto curto de oito páginas.

Quem conta a história, em primeira pessoa, é um homem sentado de frente para o mar. Aparece uma vozinha pedindo um cigarro, o homem se irrita e manda o moleque ir embora. A vozinha insiste. Quando o homem, mais irritado, vai brigar com o menino vê que quem fala é um coelhinho cinza.

O homem e o coelhinho começam a conversar e se dão bem, ficam a tarde inteira conversando. O homem fica com pena do coelhinho que vive vagando por aí, sem moradia certa, e leva o coelhinho para morar com ele. Lá o bicho, muito amigo, muito querido com todo mundo, revela sua capacidade de se transformar em outros animais conhecidos ou desconhecidos, de vários tamanhos, formatos, cores, espécies: podia ser uma hora um avestruz, outra um leão e outra uma pulga.

Depois de um ano de uma relação estável de companheirismo, surge o primeiro conflito grave entre os amigos. Teleco leva Teresa para morar na casa deles, está apaixonado. Decide não se transformar mais em nenhum outro bicho e mantém a forma de canguru. Começa a se dizer humano e Teresa confirma, sem aparentar dúvidas. Teleco agora é um homem (mesmo que em forma de canguru) chamado Antônio Barbosa.

O outro homem, o amigo, também se apaixona por Teresa. E a amizade dos dois começa uma parábola até o fundo do poço. Depois de uma convivência violenta e sufocante entre os três na mesma casa, Teleco e Teresa se mudam. Teleco, não, Antônio Barbosa vira mágico. Faz sucesso pela cidade.

Depois descobrimos que o casal vai parar no circo. Um dia, o narrador está em casa quando recebe a visita de Teleco ou Antônio (ou seria o caso de precisarmos de um terceiro nome?), já sofrendo um colapso. Ele conta em fragmentos, entre soluços, uma história assustadora que não conseguimos decifrar direito: circo / fogo / Teresa.

Teleco (?) não consegue mais parar em uma pele só. Passa cada vez mais alucinante de forma em forma animal, não se fixando por segundos em nenhum corpo. Está tomado por uma febre terrível. O amigo tenta em vão segurá-lo com os braços, fazer seu sofrimento parar. Até que exausto, o homem cai no sono. Quando no dia seguinte acorda, encontra no seu colo Teleco transformado em uma criança encardida, sem dentes, morta.

O mal-estar que eu sinto em relação a esse conto é compatível com a minha fascinação. Ele está sempre em algum lugar no fundo da minha mente, contaminando tudo o que eu entendo por literatura. O que trouxe o conto de volta para a minha vida foi ler sobre a cruz de Cristo.

De repente fui tomada por um sofrimento pela árvore transformada em cruz. A árvore enquanto cruz ainda é árvore? Já é cruz? É a cruz a reencarnação da árvore? A árvore transformada em cruz me pareceu uma morte sem reencarnação, que destrói a substância “original”, a metamorfose mais radical.

Depois de reler o conto, fui procurar mais sobre a vida de Murilo Rubião. Descobri cartas trocadas entre Murilo e Fernando Sabino / Murilo e Mário de Andrade. Pessoas escritoras parecem conhecer muito bem a angustiante necessidade de partilhar um destino: Quero só que você saiba que continuo mais do que nunca acreditando e temendo seu destino de escritor e de artista. Como o homem que você pode vir a ser sem literatura, eu poderei admirar e gostar apenas, mas sem aquela angustiante necessidade de partilhar de um só destino, escreveu para ele Fernando Sabino, em uma carta que é uma comovente declaração de amor.

Em outra carta, trocada com Mário de Andrade, a quem Murilo admirava muito e mandava contos em que estava trabalhando, achei o seguinte comentário:

O próprio Kafka, confesso a você que frequentemente me deixa numa insatisfação danada. Sim, como você também tem esse dom, ele consegue me impor o extra-natural de tal forma que, como já lhe falei na carta anterior, o problema do irreal, passada a surpresa inicial, deixa de existir, não raro me parece que a fantasia não é suficientemente fantasia, não corresponde ao total confisco da lógica realística (não é bem isso) que ela pressupõe, pra atingir uma ultra-lógica, dentro da qual, no entanto, interfere sempre uma lógica realista muito modesta e honesta.

Mário de Andrade diz que se aborrece com a fantasia que não é suficientemente fantasia, que passado o espanto inicial, revela-se dentro de uma lógica realista, atinge uma ultra-lógica. Concordo com Mário que isso acontece, às vezes a fantasia não é mesmo suficientemente fantasia. Mas talvez não seja tanto por causa do texto, mas por causa de leituras que querem forçar a matéria do absurdo / inexplicável / insólito no molde da ultra-lógica. Não me interessam essas leituras interpretativas de “Teleco, o coelhinho”.

Também não quero aprender nada com Teleco, prefiro continuar abismada com a sua febre, com a sua metamorfose sem retorno à figura “original”, com o grande escape que é a sua morte desdentada e encardida. Teleco é o mágico que opera sobre si mesmo a magia mais radical do desaparecimento. Me apego à Catherine para me justificar.

Uns anos atrás, fiz uma viagem com minha amiga Estela Rosa para Florianópolis. Visitamos o campus da UFSC e Estela comprou um livro azul escuro, que parecia mais um caderno de anotações. Eu gostei da capa, pedi emprestado e acabei ficando com ele. O livro se chama Ontologia do Acidente e foi escrito pela filósofa francesa Catherine Malabou.

A preocupação do ensaio é a “plasticidade destrutiva”. No primeiro capítulo do livro, Catherine fala sobre como, no imaginário ocidental, a metamorfose é raramente apresentada como um real e total desvio do ser. A forma se transforma, mas a substância permanece.

Especulando para além desse imaginário ocidental, Catherine nos provoca a pensar numa mutação que compromete tanto a forma quanto o ser. Uma metamorfose radical, que seria a fabricação de uma pessoa nova, de uma forma de vida inédita, sem nenhum ponto em comum com a forma precedente.

E aqui Catherine encontra Mário de Andrade, em sua crítica à Kafka e o que Mário enxerga de Kafka em Murilo: para ela Gregor Samsa muda de forma, mas de certa forma permanece o mesmo, à espera de sentido. A fantasia não é suficientemente fantasia. Samsa continua seu monólogo interior e não aparece transformado em substância. A plasticidade destrutiva, rompendo com esse imaginário ocidental, se refere, então, ao esquecimento total, perda das referências simbólicas: não retorno à substância primeira. A forma de vida que deserta a si mesma.

Plasticidade destrutiva tem muito a ver com pulsão de morte, por isso Catherine pergunta no final do capítulo: como dar visibilidade à pulsão de morte? Como escritora fico imaginando como seriam essas narrativas desertoras da substância “original”.

Volto para Teleco-que-não-é-mais-Teleco.

Desconfio que ele dá visibilidade à pulsão de morte, não porque no final do conto se transforma e morre / se transforma para morrer / a morte o transforma. Mas porque o trauma da morte violenta de Teresa (da realidade do sentimento se chocando contra a ausência da presença física) o rompe tão violentamente que o sentido e a linguagem são impossíveis (ele não fala, balbucia e depois alcança uma fala traumatizada feita da mistura de vários bichos diferentes). O amor o destrói de dentro pra fora e acaba com a possibilidade que ele teria de voltar a ser ele mesmo.

A saúde, a sanidade e a inteireza do seu próprio corpo como uma unidade coerente estão fora do seu alcance. O estado do agora é a própria febre, um afastar-se de si não em direção ao Teleco, o coelhinho, nem ao homem-em forma de canguru Antônio Barbosa, nem mesmo ao Teleco-que-não-é-mais-Teleco, mas à morte de si como substância. Todas as formas da personagem caminham para a dissolução.

Essa nova criatura em desmanche, que é mais um rodopio de energia, só se fixa momentaneamente como criança morta para já encarar, logo em seguida, a decomposição e transmutação energética. E é a criança a forma (sempre quase) final que se combina com o absurdo, povoando um mundo de sonhos em que formas desconhecidas se encontram.

Ainda ficarei anos digerindo o conto “Teleco, o coelhinho”, ele vai continuar no fundo da minha mente, mas quero arriscar e dizer que esse texto de Murilo escapa. Sua fantasia é, sim, suficientemente fantasia porque destrói a substância “original” e não pode ser reduzida a uma lógica ainda que honesta. Rompe com a tradição ocidental das metamorfoses que não alcançam as possibilidades da plasticidade destrutiva.

Gostaria de enviar um recado que viajasse no tempo. Um agradecimento à Fundação Campo-Cidade, um agradecimento à pessoa que colocou o livro nas minhas mãos e um agradecimento a Murilo por ter continuado mesmo sem saber por onde estava indo. A resposta dele para Mário, intermediado pelo amigo Fernando Sabino, é prova de suas insistências:

O Fernando disse-me, logo após ter regressado de São Paulo, que você desejava muito falar comigo. E mostrar-me os incríveis defeitos que tenho. Pode estar certo, Mário de Andrade, que os seus conselhos poderão ser decisivos para a minha arte. Tenho caminhado muito, dado socos, pontapés e trabalho desordenadamente. E, quase sempre, depois de árdua luta, fico sem saber se avancei ao menos uns poucos passos. Isto, porque caminho, aos trambolhões, sem noção do que estou fazendo. Infelizmente, não gosto de fazer outra coisa senão literatura. E não faço, exclusivamente, para mim ou porque deseje fazê-la.

A sua ajuda me será muito preciosa, torno a repetir. E sei que você me ajudará.

Um grande abraço do

Murilo Rubião


 

Julia Raiz é escritora, mantém o podcast Raiz Lendo Coisas e trabalha com tradução. Publicou as plaquetes p / você (7Letras, 2019) e cidade menor (Primata, 2020) e os livros diário: a mulher e o cavalo (Contravento, 2017) e Metamorfoses do Sr. Ovídio (Arte & Letra, 2022).