ROMANCE | André Luiz Costa
21/12/2022 - 15:44

Nada é monolito

 

A primeira memória da minha vida é a morte de Kurt Cobain. É um fato aleatório, sem importância pra mim, mas essas lembranças não se escolhem. Eu não fazia ideia de quem era o homem em sucessão de imagens num noticiário que interrompeu a programação matinal. Ele aparecia dando entrevistas, cantando e tocando guitarra em shows, caminhando na rua, segurando um bebê ao lado de uma mulher loira e rastejando pra fora do palco numa cena tão angustiante que me fez pensar que aquele era o momento de sua morte. Eu estava deitado num dos sofás, coberto por um edredom de tamanho infantil, e, no outro sofá, estavam Nara e nosso pai. Reparei que havia algo estranho naquilo, que não se tratava de uma morte comum, porque nosso pai comentou que Kurt Cobain era muito louco, todo mundo sabia que iria terminar assim, mas só fui associar esse comentário ao suicídio anos depois. Eu tinha quatro anos, Nara tinha catorze. Ela vestia uma camiseta do Nirvana e assistia compenetrada às notícias, uma repórter falando sobre a carreira dele alternava com o carrossel permanente de imagens. Lembro que Nara me pareceu séria demais, imóvel, e nosso pai, num lapso de sensibilidade, perguntou se ela estava bem, porque sabia o quanto gostava do Nirvana. Nara desviou o rosto da televisão e sorriu, falando que estava bem sim. E essa reação, somada ao fato de que pouco depois ela sairia — pra onde? —, nos deixando ali, em silêncio, assistindo à repetição exaustiva de Kurt Cobain estrela decadente, foi um impacto feroz em mim. Me perguntei naquele momento, reunindo toda a lógica de que era capaz, se Nara um dia lamentaria minha morte. Foi simples associar o fato de Kurt Cobain ser muito admirado por ela com a possibilidade de me considerar alguém menor, afinal eu não tocava nenhum instrumento nem fazia shows lotados. Então, aos poucos, surgido de lugar nenhum, começou a vir um choro que não fui capaz de conter e senti, agora em retrospectiva consigo dizer, um abandono inédito. Nosso pai, pensando que eu chorava por Kurt Cobain, me dizia que a vida era essa, que eu me acalmasse, logo surgiria outra pessoa como ele pra morrer e ser aplaudida também. Isso fez com que minha crise de choro piorasse, porque era um fato ainda mais cruel. Se Nara gostava tanto de um homem provisório, e se sua importância poderia ser substituída, então eu não era ninguém. É estranho que a primeira lembrança da minha vida seja uma lembrança de morte, de me deparar com a morte de outra pessoa e, inevitável, pensar no meu próprio fim. Mas falta a presença da minha mãe nessa manhã. Há ruídos constantes na casa, barulhos produzidos por outra pessoa que só pode ser ela — o que estaria fazendo? O trecho específico da memória depois que Nara sai de casa é um pouco falho, nada está claro, exceto que a televisão segue exibindo a mesma sequência de imagens de Kurt Cobain com as vozes de comentaristas ao fundo. Por quanto tempo eu teria chorado sem que meu pai soubesse o que fazer pra me acalmar? É provável que não tenha sido muito, embora pareça agora, pela opacidade que tomou a cena, um trecho interminável de vida. Então meus olhos se abrem, encharcados de lágrimas, e eu vejo, no alto da escada que leva aos dois quartos e ao banheiro da casa, o tigre de pelúcia que na época era meu brinquedo favorito. A mão que o segura é visível, mas não consigo enxergar nem o rosto nem o corpo da pessoa, que está bloqueada pela semiescuridão e pelo teto do primeiro andar. O curioso é que os ruídos de atividades domésticas seguem sem interrupção e, ao menos em minha memória, surgem do mesmo andar em que eu e nosso pai estamos. Mas, claro, não poderia ser outra a mão segurando o tigre de pelúcia, a mão que, distante, quase fria na lembrança, o solta em minha direção, fazendo com que caia próximo ao meu rosto e interrompa o choro quase de imediato. Eu seguro o tigre de pelúcia, me abraço nele e sinto algo próximo ao conforto. Quando olho de novo pra cima, a pessoa que o segurava desapareceu, e os ruídos seguem sem interrupção, vindos, agora consigo distinguir, da cozinha, onde alguém prepara o almoço. É possível — provável — que uma dessas duas pessoas a mais na casa seja uma falsa memória, ou uma memória infiltrada de outra manhã, e desconfio com alguma segurança que não havia ninguém na cozinha, que ninguém preparava o almoço naquele momento, porque o tigre de pelúcia caindo em mim pra conter meu choro é uma lembrança concreta, indiscutível. No entanto, o que me assombra há anos, e seguirá me assombrando pelo resto da vida, porque a única pessoa que poderia me responder sobre isso, nosso pai, não lembra dessa manhã, é por qual razão minha mãe não teria descido as escadas e me consolado, como era seu costume, num abraço com palavras que só as mães sabem pronunciar, por qual razão teria permanecido no andar de cima, distante, e apenas deixado meu brinquedo favorito cair em mim e fazer o trabalho de me acalmar? Já pensei tanto sobre isso, já revirei essa manhã, mas não encontro resposta. A primeira manhã de que me lembro e ali já estão a morte pairando e a ausência da minha mãe, como um sinal fácil de interpretar, mas que, quando ocorre, é impossível saber, porque se trata, em qualquer análise de circunstância, de mais um dia na vida, mais um músico que comete suicídio e ocupa todos os noticiários do mundo, mais uma irmã que gostava da banda do músico, mais um pai sentado no sofá enquanto a mãe, longe, cuida da casa ou do almoço, mais um filho chorando por razões misteriosas, mais um dia cristalinamente ensolarado — sim, também lembro disso — e, no entanto, essa aparência de cotidiano, esses acontecimentos corriqueiros, quase sem importância se considerarmos todos os acontecimentos que compõem uma vida, estão nos dando um vislumbre de futuro, daquilo que em alguns anos se tornará os nossos dias, a presença constante da morte, uma presença ausente, mas não a morte de um roqueiro depressivo, sim a morte de uma pessoa essencial, uma pessoa que precisava continuar existindo pra que a existência, a nossa existência, continuasse sendo comum, e não o fluxo incessante de pesar e incerteza que se tornou. E essa manhã parece ontem, porque o tempo e a memória jogam de forma arbitrária com as impressões, mas essa manhã aconteceu há vinte e seis anos, e todo o fluxo de dias nesse período, que também posso chamar de minha história, me trouxe até aqui, até esse vagão de metrô que vai em direção a Copacabana.

 

 

Nascido em Porto Alegre (RS), André Luiz Costa é formado em Letras, mestre em Escrita Criativa e doutorando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-Rio. Publicou Ciclo Neon (poemas, Bestiário) em 2021 e atua como editor. O trecho publicado pelo Cândido é parte de um romance inédito, que tem o título provisório de Nada é Monolito.