REPORTAGEM | O iletrado misantropo
29/11/2021 - 15:49

Conhecido por seus filmes e polêmicas, Woody Allen também construiu uma obra literária marcada pelo humor, a neurose e questionamentos filosóficos

 

Luiz Felipe Cunha


Esqueçam as histórias inspiradoras sobre como os grandes escritores se descobriram como artistas. Menos romântico, e assumidamente “iletrado”, Woody Allen confessa: se forçou a gostar de literatura (e das artes em geral) para impressionar as garotas. 

Segundo a autobiografia Apropos of Nothing (2020), publicada no Brasil pela editora Globo com o título Woody Allen: Uma Autobiografia, foi no fim do ensino médio que ele notou pela primeira vez o que chamou de “delicinhas boêmias”: jovens universitárias com cabelos longos e rostos sem maquiagem, que carregavam grandes bolsas de couro com exemplares de A Metamorfose. Se Allen quisesse sair com algumas delas, teria de mergulhar fundo na literatura. E foi isso que ele fez.

Gostou de alguns clássicos. De outros, nem tanto. Foi intimidado pelo ritmo maçante de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e penou pra encarar Faulkner, assim como Kafka, Eliot e Joyce. “Eu adorava Hemingway e Camus porque eram simples e despertavam sentimentos, mas não consegui passar por Henry James, por mais que tenha tentado”, escreve Allen em sua autobiografia, destacando também o novaiorquino Herman Melville e a poeta Emily Dickinson.

 

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Divulgação

 

 

Foi por volta dessa época que, casualmente, alguém comentou sobre ele ser hilário e o aconselhou a anotar as coisas engraçadas que dizia. Sem nada a perder, sentou-se em frente a máquina datilográfica de seu pai e escreveu piadas curtas com o intuito de enviar para alguns jornais. Pronto: o jovem misantropo descobriu um talento. Mudou o seu nome de Allan Stewart Konigsberg para Woody Allen e passou a colaborar em periódicos e agências de publicidade de Nova York. Com o passar do tempo, suas tiras e textos cômicos despertaram o interesse de figurões do entretenimento, de modo que aos 20 e poucos anos já escrevia roteiros para programas de auditório como The Ed Sullivan Show e The Tonight Show.

Um pouco saturado dos bastidores da TV, Woody Allen passou a investir sua criatividade nos palcos, fazendo comédia stand-up. Suas piadas criativas, introspectivas e melancólicas chamaram a atenção da revista Playboy, que o convidou a produzir para eles.

Em 1966, Allen escreveu “The Gossage-Vardebedian Papers” — história epistolar curta sobre uma partida de xadrez à distância, em que os movimentos das peças no tabuleiro se dão por meio de correspondências entre dois velhos rivais. Sua namorada da época leu e sugeriu que ele enviasse o material para a New Yorker. Desacreditado, mandou o conto. Tempos depois, um editor ligou: publicariam o seu texto com algumas alterações — que, claro, o autor acatou. Até 2013, foram mais de 40 colaborações para a revista.

Aliás, seu primeiro livro, Getting Even, de 1971, reúne contos, ensaios e peças curtas que apareceram na New Yorker entre 1966 e 1971. Voltados para o humor, os textos carregam algumas das características marcantes de Woody Allen, como o seu apreço por histórias detetivescas, o amor pelo cinema e as questões filosóficas niilistas.

No conto "O Cara", por exemplo, um detetive estereotipado aceita investigar o paradeiro de Deus e, durante o trabalho, descobre que o Todo Poderoso foi assassinado por uma cientista. Em “Minha Filosofia”, um homem, durante a recuperação de uma fratura, desenvolve uma obra filosófica que — ele acredita — o colocará entre os principais pensadores da História. O enredo de "A Morte Bate à Porta" gira em torno de uma partida de canastra entre um milionário e a Morte, na tentativa do primeiro barganhar a sua vida — qualquer semelhança com o filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, não é por acaso.

A compilação chegou ao Brasil em 1977 e foi traduzida pelo jornalista Ruy Castro. Os cuidados editoriais ficaram com a gaúcha L&PM — isso porque um ano antes, na Feira do Livro de Frankfurt, Ivan Pinheiro Machado (fundador da empresa e editor) conheceu pessoalmente o agente de Woody. “Estava nervoso na minha primeira participação na Feira” conta Ivan. “A minha editora só tinha dois anos. Me perguntaram o que eu estava procurando e disse que estava interessado num diretor de cinema super engraçado, que também escreve”, completa.

Por sorte, três meses depois do lançamento do livro no mercado brasileiro, Woody Allen ganhou quatro Oscars com o filme Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Foi o suficiente para a obra virar um hit e alcançar o primeiro lugar na lista de mais vendidos da Veja.

 

Questões frequentes

Seja nas telas, nos palcos ou mesmo em seus escritos, questões como o sentido da vida, suicídio, deslocamento social e a existência ou não de Deus se tornaram mais frequentes em suas produções. Pode-se notar isso em “Excertos de um Diário” e nas peças “Morte” e “Deus”, presentes em Without Feathers (traduzido no Brasil como Sem Plumas), seu segundo livro, lançado em 1975 e que o colocou na lista dos mais vendidos do New York Times.

Sobre as traduções, Ruy Castro admite não ter tido nenhuma dificuldade no trabalho, pois Allen não escrevia literariamente. “Woody usava frases diretas e muito simples, em que o que importava era a gag, e a língua portuguesa se adequa bem a esse tipo de humor americano”, afirma. “Já não diria o mesmo da sua autobiografia, cheia de referências à cultura americana quase incompreensíveis no Brasil.”

É notável que a obra de alguns autores seja norteada por certas obsessões. Quando falamos de Woody Allen, algumas temáticas sempre aparecem, como a neurose e a paranoia, além referências eruditas e filosóficas. E, como podemos observar em sua autobiografia, elas parecem fazer parte da personalidade do próprio Allen.

 

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“A própria participação frequente dele como ator nos filmes reforça esse lado de ‘personagem de si mesmo’. Ele nitidamente escreve sobre o mundo em que vive”, diz o escritor Santiago Nazarian, responsável pela tradução de Apropos of Nothing. “Dessa forma, a autobiografia tem muito o tom das obras cinematográficas dele. Acho que o que mais se afasta é de fato esse tom de mágoa, de acerto de contas com a Mia Farrow, algo que ele não pode fazer no cinema, e um amargor que talvez ele tenha ganho no fim da vida.”

Quando a autobiografia foi lançada, em 2020, muito se disse sobre ser uma resposta do cineasta sobre o caso Allen-Farrow, em que a atriz norte-americana Mia Farrow, com quem Allen se relacionou por 12 anos, acusou-o de abusar da filha adotiva dela, Soon-Yi Previn (com quem Allen é casado até hoje). Nazarian acredita que a motivação da escrita do livro é uma tentativa de ele limpar seu nome. 

“É perceptível uma mágoa dele, sobre como esse caso manchou sua reputação. Já no fim da vida, ele deve se preocupar com o seu legado”, diz Santiago. “Ele quis contar sua versão, limpar o nome, e a autobiografia como um todo tem essa função. É flagrante, por exemplo, sua preocupação em afastar o estigma de misógino. Ele também usa da autocrítica — se depreciando como músico ou intelectual, por exemplo —, mas talvez como uma maneira de reforçar sua defesa, dando a impressão de uma ‘visão imparcial’ de si mesmo.”

Durante o caso, também foi levantada a discussão sobre separar o artista e sua obra. Na internet, muitos fãs disseram não consumir mais livros e filmes de Allen, hoje com 85 anos, após as acusações de Farrow. Ruy Castro — que já lia os textos de Woody em revistas americanas antes de ele ficar famoso e foi um dos primeiros, em 1969, a escrever no Brasil sobre sua carreira no cinema — acredita que é perfeitamente possível separar os dois componentes, e que a história da cultura, não só da literatura, está cheia de casos semelhantes. Além disso, para ele, tantos os livros quanto os filmes de Woody não vêm de um lugar tão pessoal assim. “Woody criou um personagem fascinante chamado Woody Allen, mas não acredito que ele seja Woody Allen em casa, na intimidade”, diz Castro.

O terceiro livro de Allen veio cinco anos depois do segundo e após várias premiações no cinema, incluindo o Oscar de melhor roteiro original e direção por Annie Hall (1977) e Manhattan (1979). Isso elevou seu nome a um novo patamar. Além dos temas de costume, como a filosofia e a literatura, aparecem assuntos novos, como a psicanálise e a história do mundo. São enxertos que poderiam facilmente entrar em filmes do diretor ou se sustentar sozinhos num longa-metragem.

Isso pode ser notado com facilidade no conto “Retribuição”, do livro Que Loucura! (1981), em que um aspirante a dramaturgo se apaixona pela mãe de sua jovem namorada. A obra também traz aquele que talvez seja seu conto mais famoso, “O Caso Kugelmass”, sobre um professor de literatura que, cansado da monotonia de seu casamento, resolve se aventurar em um caso extraconjugal com Emma Bovary, a personagem icônica do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. A façanha só é possível graças aos poderes místicos de um mágico.

“Em primeiro lugar, Woody Allen é muito inteligente, com um humor muito refinado e uma enorme autoironia. Isso tudo combinado dá um resultado surpreendente para os leitores”, diz Ivan Pinheiro. “Nos textos também se nota o humor judeu e um contraponto humorístico com a psicanálise. Acho que ele refletiu muito sobre a nossa sociedade, daqui a 50 anos vamos olhar para seus livros e ter uma ideia de como funcionavam as relações humanas”, completa.

 

 

Principais livros de Woody Allen publicados no Brasil 

Getting Eve (1971; publicado pela L&PM com o título de Cuca Fundida, em 1977)

Without Feathers (1975; publicado pela L&PM com o título de Sem Plumas, em 1979)

Side Effects (1980; publicado como Que Loucura! pela L&PM, em 1981)

Three One-Act Plays (2004; publicado pela L&PM como Adultérios, em 2007)

The Insanity Defense (2007; publicado pela L&PM como Insanidade Mental, em 2017)

Mere Anarchy (2007; publicado pela editora Agir como Fora de Órbita em 2007 e pela L&PM como Pura Anarquia pela L&PM em 2017)

Apropos of Nothing (2020; publicado como Woody Allen: Uma Autobiografia pela Globo livros no mesmo ano)