Mesa-redonda | A Poética do Agora
25/02/2021 - 17:43

Em uma mesa virtual mediada pela escritora e artista visual Jussara Salazar durante a quarta edição da Festa Literária da Biblioteca Pública (Flibi), a poeta e slammer Mel Duarte fala sobre o momento da poesia no Brasil, o resgate da tradição oral e a força política das palavras para fora da bolha literária. Leia a seguir os melhores momentos da live, que também está disponível, na íntegra, no canal youtube.com/BibliotecaPR.

 

Mel Duarte
A poeta e slammer Mel Duarte participou da mesa A Poética do Agora. Foto: divulgação


 

Palavras próximas

A poesia escrita começou quando eu era muito pequena. Eu me encantei pela poesia aos 8 anos e a partir daí comecei brincar com as palavras e a treinar a minha escrita. Mas para uma criança começar a escrever é um processo mais difícil, porque você não tem experiência de vida. Então comecei a buscar em imagens — fotografias e coisas que achava em revistas e livros — uma provocação para escrever. Parti de imagens para produzir os meus escritos. Esse amor pela poesia veio porque entendi que as palavras eram próximas a mim, estavam postas para mim e eu só precisava da minha criatividade, papel e caneta para começar a escrever. De uma forma muito natural e sem nenhuma intenção de me tornar escritora ou poeta, comecei a treinar e brincar. Conforme fui crescendo e conhecendo um pouco mais sobre os movimentos literários, e um pouco mais sobre a poesia, fui me interessando e adquirindo algumas inquietações. Porque na época da escola eu ficava em crise por ter que ler autores mortos, não entendi por que a escola não me apresentava autores vivos. Queria saber quem eram as pessoas que estavam escrevendo a história naquele momento, se existiam mulheres negras que escreviam —porque essas referências eu também não tinha na escola e a minha família também não sabia me passar. Apesar de gostar muito da poesia, me sentia muito solitária nesse meio por ter poucas referências, principalmente de mulheres negras e de pessoas vivas. Queria entender onde essas pessoas estavam. A partir do momento em que frequento os saraus na cidade de São Paulo, começo a me redescobrir nesse espaço, eu encontro pessoas que escrevem coisas próximas ao que vivo e que têm uma linguagem próxima da minha. Passei minha infância e adolescência lendo poetas que não tinham a mesma realidade que eu e que escreviam sobre outras coisas. Dentro dos saraus a poesia passou a fazer sentido para e se tornou um lugar onde posso colocar a minha voz.


Consciência racial

Tenho uma família que é muito ligada às artes e sou muito privilegiada por ter pais que sempre foram muito presentes. Eles me apresentaram os movimentos artísticos e a gente sempre conversou muito sobre a questão da negritude. O meu pai é um homem branco e a minha mãe é uma mulher negra, de família toda de pessoas pretas. Só que o meu pai, justamente por ser um homem branco se relacionando com uma mulher negra, foi a pessoa que sempre teve muito cuidado de trazer para mim a questão do racismo e conversar comigo. De me mostrar o quanto eu era bonita, que a cor da minha pele era importante. Mas isso de ter uma consciência racial e discernimento político veio depois que comecei a frequentar os saraus e os movimentos sociais. Porque aí eu já estava em contato com pessoas do meu tempo e que estudavam sobre isso. Hoje vejo meninas de 12 e 13 anos que participam dos slams de uma forma super coerente, trazendo essas questões para suas escritas. Mas nessa época da vida eu não tinha essa noção. Foi a partir dos 18 anos que passei a participar desses espaços, minha cabeça começou a abrir e comecei a entender o que é ocupar um espaço de fato.

 

Leituras fundamentais

Durante esse processo, tive pouco acesso à leitura. Por ser de família humilde, demorei para ter acesso à internet. Mas, quando tinha 19 anos, trabalhei numa livraria. A partir desse momento, passei a ter acesso a livros e, principalmente, a pessoas que me indicavam leituras, que me apresentavam uma outra linguagem. A poesia sempre foi colocada num pedestal e eu nunca achei que poderia fazer parte daquilo. Me colocar no mundo como uma escritora era algo muito distante. A partir do trabalho na livraria, comecei a conhecer pensadoras negras e a ter acesso aos livros de autoras como Sueli Carneiro e Bell Hooks. Hoje consigo ter muito mais acesso a mulheres como Maya Angelou, que é umas das minhas poetas preferidas. Nos saraus, conheci outras mulheres que escreviam, como Elizandra Souza, Cidinha da Silva, Esmeralda Ribeiro. A partir daí comecei a entender um pouco mais o que é esse lugar da mulher negra dentro da escrita.


Poesia em espaços públicos

Conforme você vai se permitindo ocupar esses espaços, e vai se sentindo segura para ocupá-los, você vai entendendo o quanto aquilo é potente. Só fui compreender isso depois de participar desses movimentos e ser convidada para falar em outros espaços. Até então eu não imaginava que aquilo que escrevia poderia influenciar outras pessoas. Só entendi isso quando passei a circular nesses espaços e a me apresentar. Entendi também a potência da voz, o quanto é importante a gente tomar de fato esse lugar de fala que já é nosso. Tenho a minha história pra contar, posso registrá-la no papel. Mas tenho a minha voz, ninguém precisa dar voz para mim, quero que as pessoas ouçam o que estou dizendo. Todo espaço que tenho pra falar, estou falando. E isso fez muita diferença na minha vida pra aprender a lidar com outras pessoas, pra aprender a me colocar no mundo. Uma coisa que comento muito com professores que querem começar a fazer saraus ou slams nas escolas, é que esse tipo de movimento vai para além de você querer se tornar um escritor, um slammer ou um poeta. Isso serve para a sua vida. A partir do momento em que você sabe se comunicar, sabe trazer as palavras certas para o lugar onde você está se colocando, isso faz com que as pessoas te ouçam e te respeitem. A comunicação é a base de tudo e a gente ainda tem muita dificuldade em se comunicar, dificuldade em aprender a falar e, principalmente, a ouvir. Nesses espaços, uma das coisas que mais aprendi foi a praticar a escuta.


“Você veio dançar?”

Uma coisa que percebo muito é que as pessoas colocam o corpo negro num espaço específico artístico. Então, por muitas vezes, visitando festivais de literatura, alguns perguntam: "Você veio cantar?". Ou: "Você veio dançar?". Mas nunca ninguém chegou para mim e perguntou: "Você é a poeta convidada?". Dentro do imaginário das pessoas é mais difícil que a gente ocupe esse lugar intelectual. Sinto que ainda existe uma barreira e é preciso quebrar isso. É por isso que outros corpos negros iguais ao meu precisam ocupar esses espaços.


Mente pensante

Parece que já vem uma coisa pré-definida quando se vê uma mulher negra num espaço de fala: de que apenas o assunto "racismo" é que vai vir à tona ou a questão da mulher negra. Como se a gente não pudesse celebrar coisas, como se não passássemos por situações boas. Me incomoda muito ter que falar sobre racismo ou ter que falar sobre questões racistas que eu vivi, sendo que posso falar sobre os cinco livros que publiquei, sobre o disco que fiz e tantas coisas boas que posso trazer à tona. A gente ainda tem esse estereótipo que é difícil de quebrar, mas é um processo. A gente não vai deixar de falar sobre esses assuntos, mas também quero falar de política, tecnologia, outras coisas, porque sou uma mente pensante. Vendo, hoje, essa nova geração que já tá muito mais atualizada com todas essas questões, é uma molecada que já chega com um outro tipo de pensamento, com um outro porte, com uma outra forma de dialogar e eu acho isso muito incrível.


Escrever falando

Quando comecei a me apresentar, eu lia os meus textos. Ficava muito nervosa por estar ali e o papel na mão me deixava mais nervosa ainda, porque eu queria olhar para as pessoas, aí voltava para o papel e me perdia nas linhas. Era um desespero, um caos total. Aí entendi que o papel não funciona para mim, preciso decorar o que falo, até porque tenho essa necessidade de falar para as pessoas, é importante eu olhar para quem está ali me ouvindo, e só decorando eu iria conseguir fazer isso. É um processo. Todo poema que quero carregar comigo, que quero apresentar, tenho que decorar. No processo da escrita, acabo decorando muitas coisas porque escrevo lendo em voz alta. Tudo que eu escrevo precisa caber na minha boca quando eu for falar. Às vezes é muito bonito lendo, mas quando você fala atrapalha o ritmo, não faz sentido. Preciso escrever falando para saber se as palavras cabem e isso já é uma forma de treinar. Depois que termino o poema, gravo ele e fico dias ouvindo e falando junto até internalizar. Mas só quando você se apresenta para as pessoas que sabe se ele está de fato decorado. Porque tem também esse lugar do foco: as apresentações acontecem nas praças ou nas ruas, então tudo ao redor pode te tirar do foco. Por isso é importante você treinar também na frente das pessoas para entender o seu corpo nesse estado. Tudo é um processo, nada parte do acaso.


Pandemia

Eu passava 95% do meu tempo na rua. Desde que comecei a trabalhar com a poesia, a minha vida era na rua, nos movimentos, nas apresentações. Se eu não estava na rua me apresentando, estava na rua assistindo a outras pessoas se apresentarem. E isso me faz muita falta. A troca com as pessoas e respirar esses espaços juntos me lima muito o pensamento. Senti o quanto a minha criatividade começou a falhar por eu não poder trocar com as pessoas. Por mais que a internet resolva, ela resolve até um certo lugar, chega uma hora que você cansa. É diferente de você ir em um slam, ficar no evento por quatro horas e nem perceber. Quantos poemas já não escrevi por estar assistindo a um slam e alguma coisa que alguém falou mexeu comigo. São relações que fazem muita falta. O Slam das Minas fez muito evento online esse ano e não é a mesma coisa. Dá muito mais trabalho colocar numa plataforma ao vivo e fazer com que todo mundo entre na hora, sem dizer que nem todos têm acesso. Então, nesse aspecto da pandemia, a falta de troca com as pessoas tem sido desesperadora. Durante a pandemia, entrei em várias crises com o meu trabalho, me perguntando se era isso mesmo que eu tinha de fazer da minha vida ou se deveria largar tudo e correr atrás de outras coisas. Já aconteceu de tudo durante essa pandemia. Mas pelo menos consegui organizar os pensamentos e fazer um livro novo [Colmeia, Casa Philos, 2020].


Livro novo

É um livro que traz poemas meus de 2012 a 2020. Os meus dois primeiros livros se esgotaram e muitas pessoas me cobram a reedição. Então entendi que esse era o momento de sentar e organizar minha obra até aqui, pensando que já completei uma década de carreira e que o meu material está muito espalhado. Uma das coisas que me pegou muito foi que várias pessoas começaram a estudar o slam e a produção negra feminina dentro da literatura. Essas pessoas me procuravam para fazer teses de doutorado e era um trabalho imenso. O Colmeia traz os meus dois primeiros livros na íntegra, poemas que tomaram grandes proporções nas redes, mas não foram publicados, e também poemas inéditos.


A cena do slam

A partir do momento que a gente cria o Slam das Minas, eu começo a entender que existem muitas mulheres produzindo, mas que estavam escondidas por medo e vergonha. Essa rede de apoio e de afeto ajuda muito a gente se entender. Poder ter com quem trocar alguma coisa que você escreve e pedir opinião sincera dessa pessoa faz toda diferença também. A gente precisa aprender a se criticar de uma forma positiva, a compartilhar as nossas coisas para que a gente possa crescer de fato, senão elas não caminham.

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