Mesa-redonda | Nação e Raça
29/01/2021 - 13:38

Em uma mesa virtual mediada pelo professor Elias Junior, durante a quarta edição da Festa Literária da Biblioteca Pública (Flibi), os escritores Ferréz e Paulo Scott comentaram as complexas relações no debate político do racismo estrutural — tema reaceso em 2020 por casos como o de George Floyd, nos EUA, e João Alberto Silveira Freitas, no Brasil. Leia a seguir os melhores momentos da live, que também está disponível, na íntegra, no canal BibliotecaPR.

ferrez e scott
Os escritores Ferréz e Paulo Scott participaram da mesa-redonda Nação e Raça

 

Constante de evolução
Ferréz: É muito triste o que a gente está passando [em relação à pandemia], mas a literatura e a poesia são essa ferramenta, essa força que acalenta nossa alma. Não é à toa que as vendas dos livros cresceram, não é à toa que o interesse das pessoas aumentou, e não é à toa que canais específicos de internet e meios de comunicação que tratam de literatura começaram a ter mais acessos. Acredito que estamos numa constante de evolução. Não sou daqueles caras pessimistas que acham que as pessoas estão lendo menos, acho que elas estão lendo de formas diferentes — através de vídeos, de recomendação. Elas resolveram não perder tempo. Autores que têm conteúdo social ou não, mas que façam as pessoas viajarem, irem para o imaginário diferente, eles estão sendo requisitados. Sou um autor fortemente coligado com o social porque sou ativista também, mas não é obrigação de ninguém. A gente tem que fazer o que se dispõe a fazer. Tem autor que não levanta bandeira nenhuma, mas também ajuda, trata bem as pessoas que estão em volta, ajuda instituições, trata a empregada pelo nome — existem muitos casos. Tem muita demagogia também, tem muita gente que está pelo hype, infelizmente. Mas acredito muito que tem importância levantar o tema social, de ter a nossa bandeira, que não é panfletária — e se chamarem de panfletária também não tem problema. A gente vai continuar com aqueles que a gente se propôs a falar. É isso que eu acredito.


Rótulos
Paulo Scott
: Quando vou falar para acadêmicos ou em festivais de literatura, o pessoal fica um pouco decepcionado quando digo que não tenho um engajamento como escritor, porque meus livros acabam sendo tidos como políticos, de crítica social. Mas é como o Ferréz falou: você tem o compromisso de fazer a sua parada. Se as pessoas vão ler como livros de críticos é uma coisa que escapa um pouco à minha capacidade de gerenciamento da repercussão do trabalho. Acho que existem pessoas e escritores que têm uma potência e uma força pessoal que extrapolam sua criação. São pessoas que articulam seu tempo e analisam e enfrentam seu tempo para muito além da própria arte. Uma coisa que me incomoda muito é essa coisa da literatura marginal, porque, na verdade, é um modo de ler as coisas. Tardiamente, talvez nos últimos cinco anos, essa literatura que era marginal está sendo bem reconhecida como literatura brasileira. Os centros que chancelam o que é a “literatura brasileira” são muito acadêmicos, brancos, de classe média, muito heterossexuais, então as pessoas colocam esse rótulo, mas está sendo um pouco bagunçada essa perspectiva. Então que o Ferréz faz, o que eu faço, e outros escritores, não é literatura marginal: é literatura brasileira. Quem está produzindo tem mais é que não se preocupar com rótulos, porque rótulos são para outras pessoas. Não para quem está criando.

 

Desunião
Ferréz
: Os branquinhos são hipócritas para caralho. Acho que esse é um assunto hypado [visibilidade de autores negros e periféricos no Brasil], e eu não comento assunto hypado. De verdade. Porque estou na militância desde que meu pai falou que o médico dele tinha coração de branco, tá ligado? Eu falei: “Pai, você é preto. Que porra é essa que está acontecendo na sua cabeça? Você não pode falar isso”. Lembro que meu pai me deu um disco do Michael Jackson quando eu era pequeno ainda, e eu disse: “Nossa, pai! Esse cara é da cor do senhor”. Meu pai respondeu: “Eu sou preto o quê, rapaz? Sou moreno”. É muito louco isso. Cresci com um cara negro fortíssimo, mas que não tinha a identidade negra. Mas ele também não tinha amigos no bairro. Os amigos do meu pai não apareciam em casa e os meus amigos negros ele não deixava entrar. Cresci dentro disso, tentando transformar o meu pai. Dois anos atrás tive uma grande vitória. Meu pai ia votar no Bolsonaro, e eu falei: “Você não pode votar nesse cara”. E ele: “Esse cara vai tirar os bandidos da rua”. Eu falei: “Pai, olha isso aqui: um vídeo dele falando que os negros são gados”. Meu pai assistiu aquele negócio e não acreditava no que ouvia. Ele disse: “Esse cara é um babaca, um idiota”. Mas, voltando ao tema da negritude, é uma grande hipocrisia as editoras nos procurarem agora. Os meu livros no Brasil não são lançados há 10 anos. Não tenho livros publicados no Brasil, tenho livros publicados em 36 países. Na Argentina, tenho seis títulos consecutivos todos os anos publicados e lançados. Tenho livro publicado na Croácia, Alemanha e não tenho livro publicado livro no Brasil. Neste ano [2020] consegui relançar o Capão Pecado, pela Companhia das Letras, num acordo que temos; Anna e o Balão, pela Darkside; e estou lançando pela Kotter editorial, uma pequena editora de Curitiba, mas muito responsa. Mas olha que louco: até ano passado não tinha nenhum livro meu sendo vendido em nenhuma livraria do Brasil, e eu sou o cara que vendeu mais de 100 mil exemplares só com Capão Pecado. É muita hipocrisia as editoras me procurarem dizendo: “Nós temos que fechar”. Eu digo: “Beleza. Mas como você chegou no meu trabalho?”. E então eles falam da cota racial, que este é o momento. Que momento o quê, meu irmão? Nós estamos nessa luta há 20 e poucos anos. Quando me descobri como homem também descobri que podia participar dessa luta — como um cara que não sofre preconceito porque não é retinto, mas no meio da elite sou um cara preto. Passo batido numa blitz, mas não passo batido na elite — ela classifica e disfarça. É muita hipocrisia. É um país hipócrita demais. Aí entramos em outro debate: autores que não estão sendo incluídos pelo conteúdo. Nós já temos vários problemas dentro do negócio e aí o cara tem o lugar de fala. E aí tem o cara que não é tão negro. Aí tem uma mina que se diz negra, mas daí tem outra mina negra que quer bater nessa mina. Nós estamos na loucura, cara! Ao invés de sermos unidos em volta da causa, estamos nos separando e nos bloqueando. A gente se fragmenta como esquerda e a direita vai avançando. Isso acontece desde a época dos navios negreiros, quando cada negro falava uma língua de uma tribo diferente e não dava para se unir. A gente está assim até hoje.


Comodismo
Scott
: Bato nessa tecla há um bom tempo: vocês não estão sabendo ler as coisas importantes do momento. Não só na faixa da violência ou da denúncia, vocês não estão sabendo ler a poesia, a beleza, o lado encantador das coisas. Uma vez, fiz uma leitura de Capão Pecado e separei quantas vezes o Férrez usa palavras ternas, de afeto, de carinho. Não é só um livro da violência, é um livro da vida, caramba! Da esperança. Não se pode reduzir uma literatura que é importante, um clássico da literatura brasileira. Essa questão de “como ler”, espero sinceramente que depois dessa onda fique um modo diferente de ler porque seguidamente coloco para as pessoas: “Vocês têm pouca ambição em relação ao conhecimento da arte brasileira, das verdades brasileiras, e essa pouca ambição de vocês é uma negligência”. Essa negligência, como se trata de arte, de literatura, vai produzir um preço muito alto para a sociedade, porque é muito fácil criticar o político, mas e na arte? Você está acomodado numa faixa de leitura, não consegue romper, não consegue dialogar. E aí ficam esses acadêmicos falando de gente negra, preta, pardos, mestiços, dentro da lógica escravagista,  mas não rompem essa relação que pode ser maravilhosa e que alguns — não só o Ferréz — conseguem fazer, como o Marcelino Freire, Sérgio Vaz. Você tem que se abrir e conversar com o outro porque assim você vai se conhecer. Tem essa coisa que os latino-americanos nos chamam de papagaios de americanos e a gente não quer se olhar no espelho.


Esperança e luta
Ferréz
: É muita gente vivendo a causa e lutando pela causa. Me dá esperança ir num sarau das minas e ver elas dominarem tudo, ver o cara pedir para falar e ouvir: “Você não vai falar, não, irmão, já falou demais”. Você pensa: “Que louco, mano! O cara não vai poder falar, vai ter que escutar”. E você ir num sarau dos negros na Bahia e também não poder falar, e é isso mesmo. Eu luto, milito, mas não passo pelo que esse cara passa. Não sou xingado na rua, ninguém me barra nos recintos, passo batido. Mas o cara não. Então é isso, é você saber se colocar no lugar do cara e reconhecer que é a luta do cara. É a minha luta, também, mas sou simpatizante. Ele vive na pele o bagulho, vive no pigmento. Tá na pele dele, mano, não tem como se livrar. Quando ando com meus amigos retintos, é inacreditável o que acontece. A pessoa passar e fazer barulho de viatura, em pleno século XXI. Eu falo: “Você não vai fazer nada?”. Eles dizem: “Se eu for fazer alguma coisa eu estou preso já, irmão. Deixa o bagulho rolar, só quero chegar no lugar e comer meu hambúrguer”. É esse país que nós temos que transformar. São importante as questões sobre Machado de Assis, Lima Barreto. É importante a gente discutir o preconceito do qual o cara que criou o Sítio do Picapau Amarelo era capaz. Tenho uma miniestátua desse cara aqui no meu escritório. A literatura dele é ruim? Não. A literatura dele continua sendo boa, é um ótimo escritor, mas temos que avaliar o que ele jogou na obra, o que influenciou nosso povo também. Essas são as questões que a gente tem que debater. E são questões importantes porque vão ficar registradas, educar a nova geração.


Diálogo e revolução
Scott
: Tem um livro chamado Pensando como Um Negro, do professor Adilson José Moreira, ele é mineiro. Antes de entrar na questão filosófica e científica, ele fala um pouco da vivência dele. Ele já estudou fora do país, é um pensador tipo Silvio Almeida — que diz que tem que encarar a complexidade da linguagem, tem que enfrentar os caras no padrão mais alto, porque a máquina é superperversa. Confrontando toda a máquina do racismo brasileiro — que o país da democracia racial, onde não tem racismo, né? Não é isso que o nosso vice-presidente falou? Então você vê a perversidade da nossa máquina. O professor Adílson, como um homem retinto e intelectual, coloca essa perspectiva: você tem que saber dialogar e saber olhar onde estão seus interlocutores. Porque você tem que ter o enfrentamento, o diálogo de ampliação dessa compreensão, o que é superdifícil. Quando a Ana Maria Gonçalves fala sobre seu livro Um Defeito de Cor — que talvez tenha sido o mais importante feito nesse século, aqui no Brasil —, ela diz que entendeu a própria negritude ao escrevê-lo. O Paulo Lins, que é um herói, diz que entendeu a Cidade de Deus escrevendo o livro de mesmo nome. Isso tudo faz parte de um processo de diálogo. A revolução que está sendo feita nos últimos cinco anos vem de uma política pública que tem grande enfrentamento — tanto que vai vencer agora em 2022, sendo revista nas questões das cotas para estudantes. E, com essa configuração política que temos no parlamento, ela vai ser caçada. Isso tem que ser debatido. E outra coisa é essa revolução tecnológica que rompeu o que está escrito no Correio Brasiliense, na Folha de S.Paulo, na Zero Hora, no Estadão, nas revistas da elite, e coloca uma outra perspectiva de orgulho mesmo, de sensibilidade. Espero que não seja moda.


Indignação
Ferréz
: A gente não deve se comparar com o outro em termos de que, se alguém estiver sofrendo, você dizer “podia ser minha filha”. Esse é o pior erro que tem. Não é minha filha, irmão. Não vai ser minha filha. A geração da minha filha eu salvei, mas é a filha de alguém. É uma menina que também podia ter um filho que podia sonhar. Preciso colocar o outro como ser humano, não com relação ao parentesco. É você olhar e dizer: “É importante pra mim, é a minha raça”. Sou um cara inconformado. Há muito tempo trombei uma senhora que falou assim: “Você pode autografar esse livro pra mim?”. E eu disse: “Posso, sim. A senhora leu o meu livro?”. E ela: “Não, não. Esse livro era do meu filho e ele morreu. Posso dizer uma coisa para o senhor? Nunca perca a indignação. Nunca deixe de ser indignado, senhor”. Prometi isso pra ela. Não posso achar comum um cara na rua, jogado, e eu comer bem. Por isso que ando com cestas básicas no meu carro, por isso que uma parte do meu dinheiro vai para isso, por isso que faço assistencialismo mesmo. Tive que aprender que as pessoas precisam de assistencialismo, esse é um país fodido de todo lado e a gente tem que se fortalecer. É um país onde o cara não pode comprar um livro de R$ 50. É um país onde um saco de arroz tá custando o mesmo que um livro, entendeu? A gente tem que lutar pelo outro. Não somos a palmatória do mundo e não devemos ser, mas fortalecer as pessoas no processo é importante.


O Homem Revoltado
Scott
: Durante a fala do Ferréz eu estava visualizando O Homem Revoltado, do Albert Camus, que é o homem que se revolta contra a morte, o homem que não cai de joelhos perante a morte, o homem que busca o coletivo, é o homem que durante uma pandemia não vai sair na rua sem máscara, que vai comprar um monte de álcool em gel e estocar em sua casa. São essas coisas maravilhosas da literatura. Quando Camus fala do homem absurdo em O Estrangeiro, logo ele conecta com O Homem Revoltado, e tem tudo a ver com o que o Brasil está passando hoje, quando você vê que a solução civilizatória dessa elite perversa do Brasil é a arma, é matar. Essa interlocução maravilhosa que se coloca na leitura — e é por isso que a elite jamais vai deixar os seus filhotes longe dessa dimensão maravilhosa que é a literatura. Isso fortalece a compreensão, o debate público que não existe, e a coisa vai resistindo.


Viver o agora
Ferréz
: Já fui muito pessimista, hoje sou otimista. As pessoas têm que se empenhar e se vigiar para não deixarem gramas no meio do caminho, para não se fragmentarem. A gente vai deixando um pouquinho de caráter, deixando um pouquinho de ética, daqui a pouco a gente tá pesando 30 kg... É a jornada que interessa, é o agora. Parar de projetar muito para frente. Tá faltando as pessoas viverem o agora, aceitar o desafio e dizer “não vou me fragmentar, não”. Não faça sua ética ser maleável, mantenha sua ética. Se não couber em você, não entre. Desvia do caminho. Vai para o outro caminho. Não aceite o que o sistema está dando. O sistema está faccionando todo mundo, tá fatiando todo mundo. Quando chegar no final da jornada você não tem mais aquele gosto, o preço foi muito caro. Família, companheirismo, amizade: você não pode deixar isso mais pra frente, vai por mim.


Saída
Scott
: O otimismo é esse: você saber quem você é, e isso nunca está completo. Mas tem que querer se conhecer, tem que tentar ser feliz. Tenho amigos do mercado financeiro que estão ali só pelo dinheiro, não são mais felizes. É muito triste de ver. Consegui salvar a minha alma, tardiamente, porque comecei a publicar muito próximo dos 40 anos. A construção de uma nação é isso, o homem branco nos trouxe até aqui, até esse desastre.  Jogue na cara dele e enfrente, não contorne o debate porque você vai ser mais feliz e vai fazer essa pessoa tão unidimensional melhor também. O diálogo é a saída, eu acho.

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