Mesa-redonda | Admirável País Novo
29/01/2021 - 13:58

Em uma mesa virtual mediada pelo jornalista Christian Schwartz, durante a quarta edição da Festa Literária da Biblioteca Pública (Flibi), os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Joca Reiners Terron e Luisa Geisler comentaram seus livros distópicos, falaram sobre os desafios da ficção em alcançar a realidade brasileira e discutiram o papel da fabulação do futuro na compreensão do presente. Leia a seguir os melhores momentos da live, que também está disponível, na íntegra, no canal BibliotecaPR.

ignácio, joca e luisa
Ignácio de Loyola Brandão, Joca Reiners Terron e Luisa Geisler participaram da quarta edição da Festa Literária da Biblioteca

 

Gênese do ficcionista
Ignácio de Loyola Brandão
: Uma tarde, quando eu já estava em São Paulo no jornal Última Hora, entrei na redação e quem estava lá — isso no começo dos anos 1960 — sentado, batendo um texto e fumando? Nelson Rodrigues. Eu era fã do Nelson, lia tudo. Me aproximei e fiquei calado, olhando para ele. No intervalo, falei: “Posso fazer uma pergunta?”. Ele disse: “Pode”. “Como é que o senhor escreve um conto por dia e todos muito bons?” Ele disse: “Menino, menino. Olha para a janela. Escritor olha pela janela e, se o que você está vendo não for bom, exagera, inventa. Imaginação, meu filho”. E tive duas professoras fantásticas no ensino fundamental, em 1917. Uma delas, a Lurdes, nos mandava fazer redação sobre o bairro. Ela dizia: “Quero que vocês me digam como é o bairro, o que vocês veem de engraçado, de triste, de divertido, de trágico”. Em um dia, que não tinha assunto nenhum, me veio à cabeça — porque eu tinha ido ao circo — escrever sobre um girafa com um pescoço de 200 metros de altura e que se enroscava nos fios e árvores. A professora me deu 100, a maior nota. Um menino da turma questionou: “Você falou para a gente falar sobre os problemas da realidade. Escrevi sobre minha mãe lavadeira e a senhora me deu 60, mas pra mentira do Ignácio a senhora deu 100”. Ela falou: “Não é mentira, é uma invenção. E invenção é importante. A fantasia nos ajuda a suportar a realidade”. Nunca mais esqueci essa história e nunca mais tive medo de exagerar, enlouquecer e delirar, nunca. Não tenho nenhum poder de vidente, nem nada. Gosto do absurdo. Escrevi Não Verás País Nenhum, em mais de 4 mil recortes de jornal sobre o aquecimento global, o grande problema do futuro que seria a água, os degelos dos polos, a poluição e doenças. Eu recortava e guardava. Até que um dia li uma notícia: “Nevou no Deserto do Saara”. E bum!, aquilo bateu na minha cabeça: “Se no lugar mais quente do mundo neva, tudo é possível”. Foi aí que passei a olhar para São Paulo, para os congestionamentos, para o calor, para aquela vida louca — e comecei a escrever Não Verás País Nenhum, tudo tirado do dia a dia.

 

Processo complexo
Joca Reiners Terron
: Não há dúvida de que os escritores e as escritoras preferem observar a realidade in loco, enquanto que por ora — devido à pandemia — nós temos que nos ater ao retângulo da janela. Mas a janela sempre foi importante, João do Rio que o diga. Bem, como nascem os livros? Eu não sei, isso é mais uma mentira que a gente é obrigado a contar a posteriori, depois que os escreve. Porque eles nascem de um processo complexo que envolve intuição, plágio, diálogos infinitos e permanentes que o autor mantém com aquilo que leu. No caso especifico do meu A Morte e o Meteoro há um contexto. Sou mato-grossense, então vivi em cidades muito pequenas até os 16 anos, mais ou menos — normalmente no Centro-Oeste, onde a presença indígena é muito grande, faz parte da malha que compõe as cidades. Vivi em zonas rurais por muito tempo, tenho família que tem terra no campo. Os indígenas sempre me impressionaram. Lembro muito das histórias relativas a eles, como atravessar na caçamba de uma camionete numa tribo bororo em dia de funeral. O ritual é muito impressionante: as pessoas se cortam, se machucam. Lembro, também, de uma fotografia que meu avô tinha com um bororo, na qual estava escrito no verso, datado dos anos 1920: “Essa fotografia pertence a minha mãe” e “Esse sempre foi o meu melhor amigo”. Então, voltando à pergunta: não sei como nascem os livros. A Morte e o Meteoro, em particular, surgiu de uma ideia simples: “E se um povo indígena inteiro, que conseguiu se manter isolado até 2033, tivesse qualquer possibilidade de futuro de vida física e metafísica completamente extinta?”. Porque é isso que acontece com os kaajapukugi, povo do meu romance. Não existem mais mulheres nem crianças, são apenas 50 homens velhos, e a Amazônia se tornou um imenso deserto, destruindo, assim, a possibilidade metafísica do grupo. Porque eles consomem ritualisticamente uma droga que é retirada das entranhas de um besouro gigante e, na medida que o ecossistema foi afetado e não há mais esse inseto, eles não têm a possibilidade de chegar ao terceiro céu, ou seja, a possibilidade de evoluir. A vida após a morte também foi extinta. Isso é, a meu ver, a coisa mais triste que já me ocorreu. O livro nasceu dessas perguntas que fiz a mim mesmo e que, felizmente, tive o tempo, disponibilidade e disposição para respondê-las. E, à medida em que procurei respondê-las, surgiram novas perguntas — que certamente não terão respostas, porque é precisamente disto que se trata a literatura.

 

Prenúncio apocalíptico
Luisa Geisler
: O livro Corpos Secos [escrito a oito mãos, junto com Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado] fala de um Brasil desgovernado, sendo tomado por um vírus, e uma população que não sabe muito bem o que fazer. É uma distopia, ou pelo menos a gente achava na época que era uma distopia. Surgiu, em 2018, com uma vontade do Marcelo Ferroni. Ele achava que não existia um livro de morto-vivo no país e queria fazê-lo. Inicialmente, surgiu com a ideia de ser uma antologia de quatro novelas sobre mortos-vivos no Brasil. Para mim, o Corpos Secos, mais do que um grande livro sobre o processo de quatro autores, é um livro sobre a importância de um editor. Foi a Luara França quem coordenou o projeto e bateu o martelo dizendo que ia ser uma história só. A gente ficou um ano trabalhando em separado, fazendo reuniões para bater as informações — como derrotar os mortos-vivos, qual é a origem do vírus / fungo. Tudo precisava estar alinhado, para que não ficasse incoerente. A gente não fazia ideia de como fazer, não tem um manual para isso, embora fossem escritores mais ou menos conhecidos. O normal é escrever no nosso cantinho, não em grupo. E os personagens interagiam, então coordenar tudo isso foi bem desafiador. Mas, mesmo nas pequenas coisas, deu muito certo. Quando começamos a falar do romance, a primeira coisa que me ocorreu é que eu queria escrever do ponto de vista de uma criança. Achei que seria interessante em termos de linguagem, cabeças rolando e uma criança filtrando tudo aquilo, o que ela aprendeu. Confesso que, quando comecei, estava absolutamente “cagada”: achei que a gente ia brigar por tudo, achei que ia ter problema, mas foi tudo tranquilo. Ao final do projeto, juntamos tudo e a Luara passou uma faca inicial — eu, por exemplo, tinha escrito cinco capítulos e perdi um. Foi nesse momento que passamos a olhar o livro como uma unidade independente de quem fez o quê. A Luara organizou a ordem das narrativas, depois todo mundo se editou. Um ano antes, quando me perguntavam quando ia sair o livro, eu dizia que em março de 2020. A gente chegou a preparar o material de divulgação: um anúncio do Ministério da Saúde sobre não pegar o vírus, explicando todo o processo do microrganismo e contágio, daí chegou março com as notícias de um vírus que estava na China. A gente começou a achar que o material de divulgação estava de mau gosto.

 

Nosso Brasil
Ignácio
: O primeiro título que pensei para o Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela foi Enlouquecer Calmamente, porque senti que o mundo estava enlouquecendo dessa forma. Tem uma crônica do Fernando Gabeira, Enlouquecendo Lentamente, e eu gostava desse nome. Mas, de repente, bati os olhos num poema do Bertold Brecht em que ele diz: “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela” — e achei que era o Brasil. A primeira noção que tive foi quando estava relendo Os Sertões. Num momento, o Euclides conta um episódio em que Canudos estava inteiramente cercada por aquele exército imenso e, de vez em quando, sai um tiro que mata uma pessoa. O corpo cai. Depois mata outra que cai. De repente, joga-se uma bomba e as pessoas em volta vivem normalmente, indo de uma casa à outra, e o autor comenta: “A vida continuava normal dentro daquela anormalidade”.  Aí falei: “É o Brasil”. Curioso que o primeiro capítulo do livro é um trem fechado que carrega os mortos — mortos por febre amarela, malária, etc. Esse trem já era uma inspiração dos trens que levavam os judeus para os campos de concentração para serem mortos. Depois me veio na cabeça Sérgio Cabral com toda aquela corrupção tremenda, toda aquela organização mafiosa que corroeu tudo e hoje ainda continua. A Farra dos Guardanapos [de Sílvio Barsetti] me forneceu ideia para o baile. E daí li que tinha um robô com uma possiblidade humana — essas coisas de cientista maluco — e pronto, criei um presidente sem cérebro e sem coração eleito no Brasil. Um ano depois estava eleito nosso homem. As coisas vêm atrás de mim, me perseguem.

 

Realidades alternativas
Joca
: Nunca fui um grande leitor de ficção científica, tenho pouca paciência com o gênero. Não tem linguagem, né? Sou muito seduzido pelo aspecto material da linguagem, gosto de escritores mais inventivos, estilisticamente falando. Mas é inegável que o valor dos grandes romances de ficção científica, dos grandes contos, das grandes histórias, é o caráter metafórico que a própria história ou o próprio romance tem. Gosto muito do William Burroughs e do J. G. Ballard, mas, curiosamente, não tenho muita paciência para ler a ficção deles. Prefiro ler os ensaios, as entrevistas. O próprio Ballard tem uma ideia muito útil, é algo assim: “Vivemos um momento em que estamos cercados de ficção por todos os lados. O próprio discurso do estado é uma ficção. A gente é permanentemente alvejado por informações da publicidade, que é outro campo da ficção, portanto o compromisso ideal do escritor contemporâneo não é mais criar ficção — a ficção já nos é dada —, é criar a realidade”. Mas essa realidade é muito complexa. Criar qual delas? Existe a realidade de além da janela, existe a realidade privada de quem aderiu ao isolamento, existe a realidade íntima da psique. O escritor deve criar a realidade daquilo que virá, daquilo que não existe e, de certa maneira, está aí o papel das distopias como subgênero da ficção científica. Gosto de ler coisas que não entendo direito, porque o mal-entendido nos leva a lugares muito criativos.

 

Leituras na pandemia
Luisa
: No começo da pandemia, se tinha uma historinha do tipo “os personagens foram no restaurante”, eu já ficava “não, não pode ficar aglomerando”. Passei março e abril lendo poesia e HQ. Li muito Ana Cristina Cesar e Wislawa Szymborska — e, por sorte, a Angélica Freitas lançou livro neste ano [2020]. Casualmente, como as coisas são, terminei uma tradução do Hello America, do Ballard, que deve sair pela Rádio Londres. É engraçado como eu tentava fugir disso, mas essas coisas vinham bater na minha porta. Por um lado, eu só queria ler poesia e existir no momento, tentando não pensar em mais nada; ao mesmo tempo, essas coisas ficavam me forçando a trabalhar e pensar nesses temas. Voltei a ler histórias que tinham enredo de não ficção, como o livro The Hot Zone, sobre as várias vezes que o mundo quase teve crise de Ebola. Foi uma coisa tão horrível que me acalmou. E a última distopia que li foi O Planeta dos Macacos, dos anos 1950. Eu achava o filme muito legal, mas o livro é espetacular. A pergunta que fica é: “Se você fosse um ser humano racional que não falasse e não tivesse como expressar isso para uma outra civilização, como você provaria isso?”. Foi uma das grandes leituras do ano de 2020.

 

É isto um homem?
Ignácio
: Quero indicar o livro A Organização, da Malu Gaspar, a melhor jornalista da revista Piauí. Em 650 páginas, ela mostra uma distopia espantosa. A Odebrecht e todo aquele mecanismo de polvo com tentáculos de corrupção. Não tem um que não tenha sido corrompido neste país. É uma máfia, uma loucura. Quero dizer que nunca escrevi ficção científica, e sempre achei meio chato também. Classifico meus livros como ficção político-burocrática, só isso. O Desta Terra Nada Vai Sobrar tem um final feliz. O Não Verás País Nenhum não tem. O primeiro é assim porque o personagem está num Brasil que se dissolveu em ilhas — copiei, confesso, do Saramago. O país flutua em pedaços, e o personagem vê Pedro Álvares Cabral voltando para redescobrir o Brasil. Nunca entendi a vida desde que nasci, não tenho a mínima ideia do que está acontecendo em volta de mim, e tento entender escrevendo. É a minha forma. Tudo é muito esquisito e eu me pergunto: “É isto um homem?”. Se é isto um homem, estou meio desencantado. Tudo é esquisito, e não é de hoje. Logo que você nasce já leva um tapa na bunda. Começa com agressão. A gente é agredido desde que nasce.

 

Jovem escritor?
Joca
: Me sinto mal. Além de ter quebrado o cabo da boa esperança, que é passar dos 50 anos de idade, penso que tenho hoje a idade com a qual meu pai se aposentou — e, no entanto, ainda me chamam de jovem escritor. Uma promessa das letras brasileiras. Vou publicar um novo romance pela Todavia, o título é bastante sugestivo: Futurama. Quis escrever uma história apocalíptica, um tema que me persegue e talvez eu esteja circunscrito a escrever só sobre ele. Para explicar o título, Futurama era uma rede de supermercados que tinha aqui perto de casa e faliu. Eu a frequentava muito. Parte da narrativa se passa dentro desse supermercado. Mas a história, em geral, é de um cara cujo mundo acaba e ele não percebe porque está tão preocupado que não consegue entender que o mundo acaba. Essa história também foi muito alimentada por essa população de rua de São Paulo que cresce de uma maneira brutal no centro. É uma coisa incrível, espantosa.

 

Grande “não sei”
Luisa
: Já tive mais esperança. Eu fazia Relações Internacionais em 2010. Durante o governo Lula, todo mundo entrou nesse curso porque queria viajar o mundo e ganhar em dólar. Lembro que era uma sensação de “agora vai”, e o espírito era esse. Eu tinha a sensação de que isso era envelhecer, envelhecer para mim era olhar para fora e constatar que talvez as coisas vão dar certo. Fui iludida pela primeira vez. Mas aí comecei a ver que o Brasil é essa soma de ciclos. Tenho sentido esse desinflar da esperança. Estou aprendendo a ser brasileira, é isso que quero dizer. Mas, ao mesmo tempo, gosto de imaginar que o fim da humanidade não seja tão ruim assim, se a humanidade parar de existir talvez não seja a pior notícia. Estou escrevendo e não sei dizer se tem a ver com o que está acontecendo. Vou embarcar na ideia de que depois vou inventar uma narrativa. No momento é um grande “não sei” e, nas palavras de Bukowski, sou um cocozinho boiando no oceano. Toda vez que tentei inventar uma narrativa para o que está acontecendo “deu ruim”, então estou esperando para ver o que entendo disso.

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