FLIBI | A nova era de ouro do rádio
21/12/2022 - 15:35

O jornalista Ivan Mizanzuk, criador do Projeto Humanos, fala sobre as novas possibilidades do jornalismo literário e das narrativas em áudio em podcasts de storytelling, em uma mesa realizada na 6ª Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná.

com mediação de Flávia Schiochet

 

Ivan
Ivan Mizanzuk. Foto: Murilo Ribas

 

 

Estigma de “nova mídia”

Essa era uma piada que sempre rolava: produzo podcast desde 2011 e já me considero uma terceira geração de podcasters. O podcast, no Brasil, começa por volta de 2004 ou 2005. Em 2008 você já tem um pessoal que passou a produzir inspirado nessa primeira leva. Eu começo em 2011, então me considero uma terceira geração. Todo ano se dizia: “É o ano do podcast”. A ideia que se tinha era de que, se estava bombando nos EUA, logo iria bombar no Brasil também. Eu mesmo comecei a produzir o Projeto Humanos em um formato narrativo porque percebi que esse tipo de formato ia super bem nos EUA. Gostava de escrever, mas estava frustrado por saber como era difícil ser escritor no Brasil. Então pensei: vou contar histórias por áudio. Juntei duas paixões e me encantei pela área. Para além da brincadeira sobre “o ano do podcast”, costumo dizer que para mim foi 2019. Explico. Eu dizia. antigamente: “O podcast vai explodir no Brasil quando a Globo entrar na jogada. E, para ter audiência, a emissora vai dar um jeito de anunciar no Jornal Nacional, vão colocar personagens podcasters em novelas”. E batata! Em 2019, o William Bonner, durante a transmissão do jornal, fez propaganda do podcast da emissora. Além disso, foi também em 2019 que aconteceu um grande evento do Spotify, durante três dias, em São Paulo. De certo modo, a pandemia acelerou o processo de proliferação dessa mídia, pois as pessoas passaram a ficar mais tempo em casa. Isso não funcionou para mim, por incrível que pareça. Passei a consumir menos podcast durante o isolamento, foquei em outras coisas. Como o livro do Caso Evandro, por exemplo. Por isso, fiquei surpreso quando me falaram que 2020 foi o ano do podcast e que 2021 foi maior ainda. Penso: que bom que a gente entrou nessa. Mas acho que ainda tem muita coisa pela frente. Comparado com os EUA, estamos entrando no que foi o ano de 2014 para os norte-americanos. 

 

Diversidade de temas

Não consigo ouvir mais podcasts. Estou por fora do que está acontecendo. O que é uma pena. Acho que a verdadeira criatividade vem dos criadores independentes, pois eles não têm amarras. Mas é preciso pensar o que significa ser independente hoje em dia. Eu, por exemplo, consigo fazer coisas com cara de independente, mesmo não sendo. E existem outros também nessa mesma esteira. Se a questão for falta de dinheiro, eu produzi o Caso Evandro sem dinheiro, durante as férias como professor. Uma grande lição que aprendi com o Alexandre Maron, um monstro da história dos podcasts no Brasil, é que para fazer qualquer coisa no mundo você necessita de duas coisas: tempo e dinheiro. E se não tiver um, compensa com o outro. No meu caso, eu não tinha dinheiro de produção, mas tinha o tempo das férias das aulas na universidade. Funcionou. O Projeto Humanos chamou a atenção da Globo e na semana que vem estou indo para Nova York receber um Emmy. Durante a produção, percebi que o pessoal batia na trave por causa de tempo e dinheiro. Tive sorte de ter o privilégio de ser um professor universitário com férias e de ter bons contatos. E cara de pau muitas vezes. Embora não acompanhe o cenário independente, espero que tenha muita gente talentosa com condições de poder inovar. 

 

Frustrações

A frustração é importante também. Inicio o Caso Evandro em 2018, mas já estava trabalhando nisso sete anos antes. Existe uma frustração de quem quer começar a fazer podcast e já quer estrear no top 1 dos mais ouvidos com uma semana no ar. Desculpa, mas não vai rolar. Sempre falo para todos: você vai errar muito. Mas começa rápido para errar agora, para errar logo no início. Faz muito, se mata de fazer, para daqui há dois ou três anos você já estar manjando mais ou menos legal para iniciar algum projeto mais concreto, e vai experimentando. Para quem ouvia o Anticast desde o início, em 2011, deve lembrar de programas especiais como o “Episódio 67”, do segundo ano, cujo tema era arte e design. Nessa época, alguns episódios já eram em um formato narrativo. Eu já experimentava formatos narrativos lá dentro. Então fiz o Projeto Humanos. Errei e aprendi muito. Erro até hoje com o Altamira, e vou errar em projetos futuros. Mas tenho que lidar com essa frustração, bola para frente, mesmo sendo difícil. E a internet, para piorar, é um ambiente muito cruel. As redes sociais são horríveis. 

 

Bastidores da criação

Não há fórmulas. O que busco em entrevistas, geralmente, são os personagens que viveram a situação, que olham a história de dentro. E os especialistas, que por sua vez observam a história de fora. No Caso Evandro, por exemplo, para ser bem detalhado e não restar dúvida sobre o que eu estava falando, fiz três episódios só para falar sobre DNA. O que é? Como funciona? O que foi coletado? Para então chegar no final e poder dizer: “É, sim, o corpo do Evandro”. Podcast se baseia em áudio, e costumo dizer que o áudio é a melhor arma midiática para transmitir emoção, pois pega-se o melhor da literatura e tira a parte chata dela, que é ler [risos da plateia]. Amo ler, mas quem diz que ler é uma delícia está mentindo. A literatura exige muito. Já a televisão é maravilhosa: você só fica sentado e assistindo. Acho que é uma bobagem dizer que a TV é um meio passivo. Não é. Ela é um meio ativo, cria-se a partir disso. Não é à toa que o cinema é essa arte incrível de grandes proporções. Mas ela entrega tudo para você, existe uma equipe inteira trabalhando nos bastidores. A graça do podcast é que ele está bem no meio termo: ele não entrega tudo, então o ouvinte precisa usar muito a imaginação e, ao mesmo tempo, não precisa de grande esforço para acompanhar a história. O ponto é que, quando entrevisto um personagem que vivenciou uma cena, tenho que apostar numa conversa longa, de no mínimo quatro horas. Com a Beatriz Abagge, do Caso Evandro, tenho umas oito horas de conversa com ela, fora todas as mensagens trocadas. Mas não posso confiar inteiramente nessas conversas, pois são relatos de pessoas que passaram por um trauma gigantesco. Tenho que verificar. Às vezes, a pessoa está equivocada e eu preciso mostrar isso para ela, a fim de esclarecer o caso como um todo.

 

mediação
Flávia Schiochet e Ivan Mizanzuk. Foto: Murilo RIbas

 

Noção de responsabilidade 

Adoraria que as pessoas tivessem uma boa memória. Quando pego os casos de 30 anos atrás, é difícil esclarecer. Para dar um exemplo, o pessoal de Guaratuba foi preso e no dia seguinte, no Diário Popular, a manchete era “Bruxos Presos”. Já está tudo errado! Mas por quê? É muito tentador fazer uma capa sensacionalista. E é tentador porque nesse caso havia uma fita com a confissão da mulher do prefeito, fita de confissão dos homens com detalhes de como assassinaram o garoto. O jornalista que recebe isso tem que publicar amanhã, isso naquela época — hoje é pior, tem que publicar na mesma hora. Nesse ponto, é muito tentador para o jornalista apontar os suspeitos. Tem que se em levar em consideração a época que o caso aconteceu. Mas qualquer um que ouve a fita de confissão da Beatriz percebe que tem alguma coisa errada. E ninguém parou para perguntar para o secretário de Segurança onde foi gravada a fita? Não, estava todo mundo louco. A culpa não é minha. Entendo o pessoal que entrou na histeria coletiva. Mas como jornalista, tenho que parar, respirar e olhar. Tenho que ficar limpando essas confusões. 

Na série, quando se fala sobre o DNA, aparece apenas um depoimento de um especialista, por pouco tempo de tela, confirmando que, com base nos laudos, era mesmo o corpo do menino, era do Evandro. Apenas isso, sem explicação, nem nada. Isso abre brechas para fãs malucos de true crime começarem a questionar a identidade do corpo sem base nenhuma. Para evitar essa situação, quando saiu a série do Caso Evandro, deixei um post fixado no meu Instagram orientando as pessoas com dúvidas sobre o caso a ouvirem o podcast. O que eu posso fazer é o meu trabalho bem feito, vou fazer o máximo para deixar a história o mais narrativamente interessante possível. Mas mesmo tomando todo tipo de cuidado, ainda vai aparecer gente criticando que eu uso trilha sonora.

 

Trabalho como diretor

O caso do podcast Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio, diferentemente do podcast Contra Ataque — que são episódios sobre personalidades do futebol brasileiro que tiveram problemas com a Ditadura Militar —, é um trabalho de pesquisa do Marcelo Mesquita, idealizador do projeto. Quando ele chegou, já estava com muita coisa gravada  — curiosamente é um true crime em que não se sabe se houve um crime, só se sabe do desaparecimento. Ele [Marcelo] vinha com muitas falas fortes, mas sem provas concretas. Ele precisava de fundamentação. E ajudei nisso: cada detalhe descoberto levava o Marcelo para uma nova linha de pesquisa. Isso foi muito bacana, poder usar minha experiência com um cara que está muito dedicado a uma história, com muito acesso a pessoas e documentos, mas não sabe encaixar tudo aquilo. Eu tenho esse método já, foi legal mostrar como é possível além da superfície. Com isso, descobrimos coisas muito legais que trazem um outro olhar sobre esse caso.


Táticas diferentes

Sou fã do Chico Felitti, já tive oportunidade de entrevistá-lo duas vezes, é um cara incrível, o texto do “fofão da Augusta” é maravilhoso. Mas ele fez algo que eu não faria. Eu não usaria gravação escondida, acho que ele foi louco de gravar escondido em uma empresa americana que dizia bem claro que não podia gravar nada ali. Ele também faz afirmações muito sérias e encerra o podcast [A Mulher da Casa Abandonada] de maneira complicada. Mas acho que ele é um gênio. Fez tudo certinho, contou uma história e fez sucesso. Nesse começo, quando bombou, pessoas vieram me dizer: “Tá vendo, Ivan, é assim que se faz podcast”. Quando deu problemas e pessoas começaram a se aglomerar em frente à casa abandonada, me disseram: “Puxa, Ivan, que bom que você não faz desse jeito”. Está certo que minhas histórias se passam em Guaratuba e, agora, em Altamira, mas os ouvintes não vão lá depredar o local, nem bater em ninguém. Há uma diferença de táticas: eu não quero fazer uma coisa sensacionalista. Se eu quiser fazer sensacionalismo, vai ser para apontar o dedo na cara de quem fez merda. E quando isso acontecer em Altamira, então vai estar ótimo.