Entrevista | Aline Bei
30/07/2021 - 13:15

Cura pela delicadeza


Em seu novo romance, a premiada escritora paulista faz de uma relação familiar desestruturada uma tocante jornada de crescimento e superação


Luiz Felipe Leprevost

 

 

Aline Bei
Foto: Aline Bei. Divulgação/Lorena Dini

 

Em Pequena Coreografia do Adeus (Companhia das Letras, 2021), seu segundo romance, Aline Bei retoma o tema do sofrimento feminino — abordado em sua estreia, O Peso do Pássaro Morto (Editora Nós, 2017), livro que já vendeu mais de 30 mil cópias e venceu os prêmios São Paulo e Toca. Desta vez, ela apresenta uma mãe violenta, raramente capaz de se desarmar e permitir que a filha atravesse seu duro e seco coração, alcançando seu “núcleo vital” amoroso.

Ao mesmo tempo poéticos, curtos e diretos, os capítulos de Pequena Coreografia do Adeus se movem na pulsação das emoções de Júlia Terra, narradora que vai da fragilidade à força interior. Para Júlia, o “corpo é uma espécie de museu da dor” e também aquele que dança a dança da vida.

O estilo de Aline mistura elementos de prosa, poesia e dramaturgia (a autora cursou Artes Cênicas, além de Letras). O uso de minúsculas e maiúsculas acontece de modo incomum. A autora também utiliza variações de tamanhos tipográficos — a palavra “eu”, por exemplo, é sempre grafada numa fonte menor, como se transmitisse a sensação da opressão e baixa autoestima sentida pela personagem principal.

Em 282 páginas, partilhamos da redentora história de Júlia, que diz ter sido “a criança mais velha do mundo”, tendo agora se transformado na mulher que, sem desistir de si mesma, foi capaz de romper seus ciclos de dor e sofrimento. Na entrevista a seguir, Aline Bei fala sobre a força da arte, a cura pela delicadeza, seu processo criativo e as marcas que as experiências de mundo deixam nos indivíduos.

 

O sofrimento das mulheres é talvez o principal tema de O Peso do Pássaro Morto. Em Pequena Coreografia do Adeus, você volta a investigar dores, medos, culpa, carência e rejeição na figura de personagens femininas. Que mudanças houve na abordagem desses sentimentos entre o seu primeiro e o segundo romance?

Há um aprofundamento no individuo. No Pássaro, a protagonista estava a serviço do verbo perder, quase sempre de costas ou de lado para o público, o palco escuro demais para visualizar um rosto que na verdade era um vulto. Na minha investigação de Júlia Terra, há um desejo de inaugurar na página o corpo inteiriço de uma jovem artista, retratada em idades de extrema vulnerabilidade, a pré adolescência e o início da fase adulta. Nesses tempos, nossos corpos são profundamente marcados pelas nossas experiências de mundo. Isso me interessava, já que o corpo da Júlia arde e ainda assim está em constante movimento.

 

Vera, a mãe de Júlia, compunha canções no passado até que para ela “o sonho / foi se transformando em / outras coisas”. Que “outras coisas” são essas em que os sonhos frustrados acabam por se transformar?

Pó.

 

Entre o medo e o abandono, Júlia revela uma força interior capaz não só de suportar a rejeição como também de transformá-la. Em algum momento ela passa a tomar decisões sobre a própria vida, como que desenvolvendo agora sua dança autoral. Para as pessoas que, tal qual Júlia, sentem ser “o fruto / de um amor devastado”, como é possível romper seus ciclos de dor e assumir a dança do próprio destino?

A arte, no caso da Júlia, tem função primordial nesse fortalecimento. Ela começa a ler, encontra afetos importantes na fase adulta. Aos poucos, com a ajuda da viúva Argentina, ela começa a se entregar para essas novas possibilidades de toque. Começa a beber chá em busca da delicadeza. Pra mim, a cura está na delicadeza.

 

"Pra mim, a cura está na delicadeza."

 

A narrativa de Pequena Coreografia do Adeus é fluida e direta. Ao mesmo tempo, escrita em versos, incorpora elementos da poesia (imagens, ritmo, elementos gráficos) e da dramaturgia (como o uso de rubricas indicando ações). Como você chegou nessa forma híbrida de escrita?

Acumulando perdas. A primeira foi o teatro que fiz por alguns anos e que influencia o meu processo de escrita. Depois a poesia, quando imaginei versos brotando das minhas palavras. Ao descobrir que eram apenas frases, decidi acolher o meu estilo. E investigar.

 

 

capa
Foto: reprodução/Cia das Letras

 

Você disse, em outra entrevista, publicada há cerca de dois anos: “Sinto que eu sou uma atriz escrevendo, então a folha é sempre um palco”. Até aquele momento você só havia publicado um livro, O Peso do Pássaro Morto, e o seu estilo ainda estava se afirmando. Hoje você é autora de dois livros celebrados, publicada pela maior editora do país. Ainda se considera uma atriz que escreve literatura, ou a escritora tomou por inteiro o ser da atriz?

É da minha atriz que jorra todo o meu processo criativo. Da minha atriz e da menina que fui. Quanto mais eu aprofundo a minha investigação da palavra escrita, mais essa ideia se ilumina em mim.

 

Tem planos de voltar aos palcos como atriz?

Volto ao palco simbólico, não tenho forças para voltar ao palco físico.

 

No livro, Júlia pergunta ao pai escultor no que ele pensa quando está criando. O pai responde que não pensa em nada e conclui dizendo que isso é libertador. E com você, como funciona a sua rotina de trabalho?

Eu penso bastante. Especialmente antes de começar o mergulho do romance. Também sou leitora e gosto de dialogar com os autores nos espaços que eles me oferecem na folha de seus livros, quando não cabe mais vou ao caderno, no momento azul.

 

"Também sou leitora e gosto de dialogar com os autores nos espaços que eles me oferecem na folha de seus livros, quando não cabe mais vou ao caderno, no momento azul."

 

Numa carta enviada pelo escritor vizinho de quarto na pensão em que moram, ele dá a Júlia uma série de conselhos e ensinamentos sobre a arte da escrita, encorajando a jovem a acreditar no seu talento e ir adiante. Você assinaria embaixo desta carta recomendando as palavras dela a escritoras e escritores iniciantes? Ou daria outros conselhos?

Esse texto é fruto da minha admiração pelo livro Cartas a um Jovem Poeta, do Rilke. Também do meu amor pelo filme Sociedade dos Poetas Mortos, veja, não há arte sem paixão.

 

O que significa ser considerada uma das grandes revelações da literatura contemporânea no Brasil de hoje?

Não interiorizo esse tipo de afirmação. Sinto a menina que fui brincar por dentro da minha barriga enquanto escrevo. Quando ela adormece, leio com a minha atriz nos olhos os livros que nos mostram um caminho possível para a nossa arte.

 

Você se destaca em meio a uma geração de escritoras cujas vozes têm feito uma grande diferença na literatura. Quais livros escritos por mulheres marcaram sua vida e por quê?

A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector, pelo espanto.

A Obscena Senhora D., Hilda Hilst, pela febre.

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, pela lucidez.

Bagagem, Adelia Prado, pela ternura.

O Livro das Semelhanças, Ana Martins Marques, pelo sagrado.

Ariel, Sylvia Plath, pelo desejo.

Garota, Mulher, Outras, Bernardine Evaristo, pela humanidade.

Só Garotos, Patti Smith, pela busca.

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