ESPECIAL | Nos bastidores de Graça Infinita
29/09/2021 - 14:41

A partir das entrevistas de Um Antídoto Contra a Solidão é possível conhecer as intenções de DFW com relação à sua obra-prima

João Lucas Dusi
 

A primeira versão de Graça Infinita — que se chamaria, a princípio, Um Entretenimento Fracassado — foi escrita à mão, a partir de 1993, em um quartinho tão minúsculo que Wallace, para arranjar espaço para trabalhar, precisava reorganizar os livros à sua volta. Depois, para entregar o material à editora, digitou tudo em um computador — usando apenas um dedo, sendo este o nível de intimidade que ele tinha com a máquina. “Mas era um dedo bem rápido”, garantiu em entrevista a David Lipsky.

Para se preparar para essa história de mais de mil páginas, nas quais aparecem terroristas cadeirantes, viciados lutando contra seus demônios e os Estados Unidos se juntaram ao Canadá para formar a Organização das Nações da América do Norte (ONAN), Wallace passou centenas de horas em três casas de recuperação. “No fim das contas você pode simplesmente ficar sentado na sala de estar — ninguém é tão gregário quanto alguém que parou de usar drogas recentemente”, foi o que também contou a Lipsky.

Apesar dos temas pesados, que ainda envolvem severas críticas à epidemia do entretenimento, e de toda a fabulação fantástica da narrativa, o objetivo era criar um romance que pudesse ser desafiador e aprazível na mesma medida. O velho tom da literatura de vanguarda que o precedeu, afinal, com exibicionismos que se encerravam em si mesmos, não lhe interessavam em nada. Além disso, havia algo bem certo em sua mente: “Eu queria fazer um livro que fosse triste. Na verdade, era a única ideia que estava na minha cabeça”, disse em entrevista de 1996 a Mark Caro, do Chicago Tribune.

A jornada é longa e pode assustar — são 1.141 páginas na edição da Companhia das Letras, traduzida por Caetano W. Galindo, com 388 notas de rodapé. Mas DFW garante que há uma recompensa no final da leitura, ou pelo menos é o que ele gostaria que houvesse. “É um livro estranho. Ele não caminha como os livros normais. Tem uma porrada de personagens”, explica em entrevista de 1996 a Laura Miller. “Eu acho que o livro pelo menos tenta, do fundo do coração, ser divertido e fascinante o suficiente a cada página para não parecer que estou te marretando a cabeça, sabe, ‘Ei, olha aqui esse treco difícil pacas e inteligente demais. Vá se foder. Tenta ler isso aqui se puder’. Eu conheço livros que são assim, e eles me deixam puto.”

Os comentários do autor deixam claro as preocupações já mencionadas. E um outro episódio, também retirado do livro Um Antídoto Contra a Solidão, mostra que toda a energia gasta na composição do calhamaço fez que com Dave não admitisse ser confrontado quanto à organização da narrativa. “Pode ser uma zona, mas é uma zona para lá de cuidadosa”, disse a Anne Marie Donahue, do Boston Phoenix, em 1996. “Deu muito trabalho fazer o livro ter aquela aparência. Isso pode parecer uma mentira patética, mas não é. Agora, como você já percebeu, estou perdendo a linha.”

 

Seção Trivia
 

Trinta informações sérias e curiosidades mórbidas da trajetória de David Foster Wallace


O livro Um Antídoto Contra a Solidão, além de ser uma oportunidade de conhecer mais a fundo o funcionamento da mente de David Foster Wallace, é também um prato cheio para aqueles que gostam de recolher informações biográficas sérias e ter acesso às curiosidades mórbidas da vida do escritor norte-americano.

Para saciar a sede dos devotos, o Cândido separou 30 itens que vão desde suas muitas passagens como professor por universidades de prestígio até o fato de que ele tinha uma tatuagem das mais bregas no braço — um coração com o nome de uma de suas ex-namoradas, Mary. Sobre esse gesto, em entrevista concedida a David Streitfeld em 1996, Wallace comenta: “Uma relação baseada em tatuagens provavelmente tem problemas de base”. Vivendo e aprendendo.

Há, também, alguns dados sobre seu último ano de vida. Depois de se casar com a pintora Karen Green, em 2004, ele se sentiu forte o bastante para tentar interromper o tratamento que vinha fazendo com o antidepressivo Nardil há quase duas décadas. O objetivo era buscar novas alternativas, e a decisão foi tomada depois de uma dor estomacal severa, em decorrência de uma má interação entre o remédio e alguma comida, os médicos acreditam.

A interrupção se mostrou catastrófica. Toda a história é bem contada na reportagem de David Lipsky, “Os Anos Perdidos e os Últimos Dias de David Foster Wallace”, que foi ponto de partida para um trabalho de maior fôlego, o livro de memórias Although of Course You End Up Becoming Yourself (2010). A obra, na qual Lipsky narra uma viagem de cinco dias que fez ao lado de DFW à época do lançamento de Graça Infinita, serviu como base para o filme O fim da turnê (2015) — o longa, dirigido por James Ponsoldt, traz Jason Segel no papel de Wallace e Jesse Eisenberg interpretando o repórter da Rolling Stone.

O resumo da ópera, voltando à história do remédio, é que nenhum dos outros antidepressivos experimentados surtiram efeito e Dave, cada vez mais para baixo, tentou voltar ao Nardil. Também não funcionou. Do conhecido fim trágico dessa jornada (suicídio), há uma fala de sua irmã, Amy, que é de partir o coração: “Não consigo tirar a imagem da minha cabeça. David com os cachorros, e está escuro. Tenho certeza de que ele deu um beijo na boca de cada um e disse a eles que sentia muito”.

 

filme
Foto: Reprodução. Filme The End of Tour ( O Fim da Turnê).

 

  • Nasceu em Ithaca, Nova York, em 1962
     
  • Foi criado em Champaign-Urbana, no estado de Illinois
     
  • Filho do professor de filosofia James Donald Wallace e da professora de inglês Sally Foster
     
  • Jogou futebol americano, na posição de quarterback, até os 12 ou 13 anos
     
  • Passou a fumar muita maconha por volta dos 15 ou 16
     
  • Jogou tênis a sério por cinco anos
     
  • “O Balão”, conto de Donald Barthelme, o fez querer ser escritor
     
  • Começou a escrever literatura aos 21 anos
     
  • Completou a escrita de The Broom of the System em 1985, aos 23 anos, como uma monografia para obter um diploma em Letras pelo Amherst College, onde também se formou em Filosofia
     
  • Mascava tabaco
     
  • Trabalhou como motorista de ônibus e segurança da Lotus Software
     
  • Fez mestrado em Escrita Criativa na Universidade do Arizona
     
  • Passou a falar com Jonathan Franzen, que se tornaria um de seus melhores amigos, em 1988
     
  • Ficou seis meses na casa de recuperação Granada House, de Brighton
     
  • Iniciou doutorado em Harvard, sem completá-lo
     
  • Passou oito dias em observação no Hospital McLean, em um período que temia fazer mal a si mesmo
     
  • Começou a falar com DeLillo, um de seus ídolos, em 1992
     
  • Tornou-se professor na Illinois State University, na cidade de Normal, em 1993
     
  • No auge de sua produção não ficcional, foi convidado a entrevistar David Bowie. Recusou: “Não sei nada sobre David Bowie”
     
  • O manuscrito de Graça Infinita (1996), feito à mão e depois passado para o computador, foi entregue à editora com 1.700 páginas
     
  • O primeiro título do romance era Um Entretenimento Fracassado
     
  • O longa-metragem O Fim da Turnê (2015), de James Ponsoldt, narra um período de cinco dias em que o repórter David Lipsky (Jesse Eisenberg) passou ao lado de David Foster Wallace (Jason Segel)
     
  • Em entrevistas de 1996 de 98, afirmou nunca ter entrado na internet
     
  • Tinha uma tatuagem de coração no braço, escrito MARY nele, de quando se relacionou com Mary Karr
     
  • Começou a lecionar Literatura Inglesa e Escrita Criativa na Illinois State University em 1993
     
  • Em 2001, ocupou uma cátedra de Escrita Criativa no Pomona College
     
  • Casa-se com a pintora Karen Green em dezembro de 2004
     
  • Teve quatro cachorros: Jeeves e Drone, quando solteiro; depois, casado, Warner e Bella
     
  • Ao parar de tomar o antidepressivo Nardil, que usou por quase 20 anos, entrou em crise e perdeu 30 quilos em um ano
     
  • Suicidou-se em 2008, aos 46 anos, num momento em que sua esposa estava fora de casa

 


João Lucas Dusi é redator do jornal de literatura Rascunho e do portal Bienal 360º. Publicou o livro de contos O Grito da Borboleta (2019). Vive em Curitiba (PR).

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