ENTREVISTA | Natalia Timerman
28/04/2021 - 15:13

Feitos para acabar 

A autora paulista fala de seu primeiro romance, Copo Vazio, que investiga como as mulheres de hoje lidam com o desamparo amoroso

Luiz Felipe Leprevost

Mirela, mulher inteligente e bem-sucedida, protagonista de Copo Vazio (Todavia, 2021), conhece Pedro em um aplicativo de relacionamentos. Eles se envolvem, se apaixonam e vivem meses de um romance intenso e feliz. Pedro, porém, em um belo dia, do nada, sem explicações, desaparece. Angustiada e sofrendo de ansiedade, Mirela se vê obrigada a lidar com a falta de sentido do abandono. Não houve término, apenas um corte seco. E um abismo se abre entre ela e o seu amado.

Em Copo Vazio, Natalia Timerman escreve sobre esse relacionamento malfadado, com características típicas dos nossos tempos, de intensidade e brevidade. O romance permeia o imaginário feminino, coloca em cena a dependência das relações amorosas e se propõe a investigar como as mulheres de hoje lidam com o abandono.

Natalia nasceu em 1981, em São Paulo. É médica psiquiatra, mestre em Psicologia e doutoranda em Literatura pela USP. Também publicou Desterros: Histórias de um Hospital-Prisão (Elefante, 2017), em que relata complexidades e sofrimentos vivenciados por personagens dentro do sistema carcerário, e a coletânea de contos Rachaduras (Quelônio, 2019), finalista do prêmio Jabuti. Na entrevista a seguir, ela fala sobre a jornada da personagem Mirela.

Você transita entre a poesia e a prosa, passando pelo ensaio, pelos contos e agora publicou um romance. Também é médica psiquiatra e psicoterapeuta. Como equilibra todas essas atividades?

Sem falar dos filhos e do doutorado… A sensação é justamente de falta de equilíbrio, de sempre estar devendo em algum canto ou em todos. E de insuficiência, porque talvez nem uma dessas coisas sozinha me baste. Procuro não pensar muito sobre isso. Mas, se penso, não demoro a chegar a um núcleo caótico que me constitui e do qual tudo o que faço é uma tentativa frustrada de fuga. Mas, na prática, para conseguir fazer caber tudo nas horas do dia e nos dias da semana, abro mão de séries, filmes e de muitos momentos de lazer. Meus amigos que o digam.

Você tenta separar sua experiência como psiquiatra do trabalho como escritora? Ou as duas coisas inevitavelmente se entranham? Se sim, o que você trouxe da psiquiatra e da psicoterapeuta para a construção do romance Copo Vazio?

Para escrever, me parece, não conseguimos deixar de lado nada do que somos, está tudo ali, de um jeito ou de outro. Então sim, a psiquiatria e a literatura se entranham. Copo Vazio tem ecos de muita coisa que tive o privilégio de escutar na clínica. As ruminações, as palavras que tentam dizer a angústia, a incompreensão diante da própria dor, do próprio absurdo. E a ideia do livro ganhou corpo diante da percepção, também oferecida por muitos pacientes, da recorrência do desamparo descomunal diante da aparente simplicidade de um abandono. Sentir-se abandonado nunca é fácil, nunca é simples.

O seu livro fala de amor. Mas, se olhamos atentamente, percebemos que trata mais da falta de amor. De carências, de medos, de projeções. Você acha que é possível fazer uma diferenciação da doença do amor e da saúde do amor? Ou o amor é sempre esse grande imbróglio?

Talvez seja impossível falar de amor, talvez só se consiga alcançar com a linguagem a falta dele. A própria linguagem nasce de uma falta, a necessidade de simbolização surge de um vazio, nosso vazio primeiro. O amor, enquanto atual, enquanto concreto, realizado, não tem a menor necessidade de ser dito. Mas ele dura pouco, sua característica maior é se fazer de instantes apenas, ainda que, juntos, esses instantes possam durar anos. A doença do amor e a saúde do amor, se não andam juntas, estão muito próximas uma da outra, porque o amor pelo outro, sendo por outro, não tem garantia nenhuma, nunca pode ter.

A tecnologia está bastante presente em Copo Vazio. Atualmente as relações amorosas são, em grande parte, mediadas pelo WhatsApp e pelo Instagram. Muitas vezes o tempo da comunicação, das conversas, se dá mais pelas redes do que presencialmente. Ainda mais durante a pandemia. Dá para amar assim? O que significa amar nos dias de hoje, quando estamos acoplados a toda essa aparelhagem?

Ainda não temos a dimensão de como toda essa mediação tecnológica está nos transformando. Ou talvez tenhamos e, assim como a catástrofe climática que se anuncia, não conseguimos encará-la sem eufemismos. A hipercomunicação muda nossa relação com o tempo e, então, com o nada de que somos feitos. E vamos perdendo pouco a pouco a nossa ínfima possibilidade de vislumbrá-lo. Porque as redes, onipresentes no nosso cotidiano, nos dão a impressão de que esse vazio não existe. O que parece resultar, e que impacta também nas nossas relações, é a exacerbação da ansiedade, uma das manifestações da nossa incapacidade de estar aqui e agora.

O seu romance tem o ritmo intenso da paixão e da ansiedade causada pela rejeição, pela dúvida imposta pelo sumiço da pessoa amada. A vida emocional de Mirela fica em suspenso, nada se resolve, é uma eterna espera intercalada por projeções quase delirantes. Mirela teve a mente atropelada por uma ausência, tomada por um fantasma. Nos nossos dias, somos rápidos para amar e abandonar, porém lentos para compreender, para conhecer. O que você acha que nos falta compreender para que possamos ter um pouco de paz?

Falta-nos compreender a nossa falta. Somos feitos de vazio, somos feitos para acabar, somos feitos de um futuro que nunca chega. Mas o paradoxo é que essa compreensão, se é que há paz do outro lado ― se é que há outro lado ―, só se dá por meio de uma assunção muito primordial de estreitamento (ou angústia), só se dá quando conseguimos olhar, com a ponta dos pés no limite, para o abismo. A literatura, já disse Elena Ferrante, já disseram tantos outros, é um desses penhascos onde podemos pisar para vislumbrar isso que não tem fundo. Temos marcas inscritas em nossos corpos, físicas e psíquicas, que estão sempre sob o olhar do outro. De um jeito ou de outro, estamos expostos.

A partir do que a narração em terceira pessoa oferece, o leitor se identifica com a entrega de Mirela. Com suas dores, seu apego, sua necessidade de ter um relacionamento para seguir aquilo que parece ser o “roteiro da vida”. Mas, além de tudo isso, o que há em Mirela, que nem ela mesma conhece direito, que a faz se deixar levar tão intensamente pelos efeitos tóxicos de uma rejeição?

Mirela é a exacerbação de nossa precariedade, a convergência de nossas contradições. Ela poderia ter tudo, mas na ausência de Pedro não tem nada. Mirela encarna o eco de nosso abandono primeiro, atualiza-o na banalidade do desamparo amoroso porque é ferida e precária, e toda a construção de sua vida, suas “pilastras de vida”, parecem ser uma tentativa de encobrimento dessa verdade detestável.

O que existe nela é um traço comum de boa parte das mulheres (é diferente para os homens?) ou é algo singular da personagem? Pergunto porque, até onde o romance mostra, a irmã de Mirela, Marieta, lida de forma diferente, mais desencanada, com os afetos. Esta é uma diferença sutil, porém significativa no livro.

O abandono é dor universal, mas tem inúmeras maneiras de manifestação e contorno. Marieta parece ter mais recursos para lidar com o afeto, ou talvez tenha pavimentado melhor suas pilastras e elas pareçam menos frágeis, ou até menos estruturais, para manter de pé a estrutura de sua vida. Isso não é generalizável, como a própria irmã de Mirela exemplifica, mas talvez, por um aspecto social e historicamente construído, para as mulheres o fim de um relacionamento tenha um peso maior. Pelo fato de Mirela ser uma personagem de formação intelectual sólida, progressista, independente, bem estruturada financeiramente, haveria talvez um certo anacronismo em relação ao seu sofrimento pelo abandono.

Leitores apressados poderiam achar que tal sofrimento de amor doído seria mais verossímil em personagens femininas de romances dos séculos anteriores. Porém, é comovente o modo explícito e até vertiginoso que a incompletude e a vulnerabilidade de Mirela afloram. O quanto a sua prática de escrita é influenciada pelas demandas do nosso tempo? Tais demandas se cruzam em algum ponto com estruturas antiquíssimas e enraizadas na prática de constranger, ferir, descartar mulheres?

Escrevo hoje, mas quem pode dizer se minha escrita converge com as demandas de nosso tempo é o leitor. A recepção de um livro sempre surpreende, porque um escritor nunca é dono da própria obra; talvez ainda seja cedo para dizer ― talvez seja sempre cedo para dizer ― mas, pela reverberação inicial de Copo Vazio, parece que a dor de Mirela, o absurdo e anacronismo dessa dor, não são só dela. Essas estruturas antiquíssimas, como você bem disse, enraizadas na prática de constranger, ferir e descartar mulheres, e também explorá-las e silenciá-las, estão até na nossa linguagem, a ponto de ser difícil discernir o que é natural e o que é construído. A literatura, de novo, é uma maneira privilegiada de investigação.

Pensando na superação de tais traumas, o que pode e como pode abandonar em si a pessoa que foi abandonada por alguém? Como esse abandono nos transforma? Como podemos sair da recusa de nós mesmos? É possível fazer as pazes e conviver com os nossos fantasmas?

A superação de traumas parece se dar pela conciliação com a própria história, com o movimento narrativo desencadeado pelo abandono. Conviver com os fantasmas talvez seja, paradoxalmente, a única maneira de fazê-los sumir.

Não pretendo dar spoiler. Mas gostaria de fazer uma pergunta específica sobre a cena final do romance. Do encontro de Mirela e Pedro, surge uma responsabilidade que recai sobre ela. E mais uma vez isso que tanto inquieta na história de Copo Vazio se coloca: por que uma mulher jovem, com conhecimento, com condições privilegiadas, sabedora de si, ainda se vê abalada e hesitante diante de uma situação em que poderia se colocar e convocar o homem para assumir a parte que eticamente lhe cabe, sem que ele possa ignorar o seu compromisso?

Mirela fez a única escolha que poderia ter feito: sempre fazemos a única escolha que podemos fazer. Talvez ela tenha chegado a saber que Pedro tem algo de inacessível, de terrível; talvez ela mesma não soubesse, ao menos não com certeza, o que o leitor quase chega a saber; talvez ela tenha optado até por privar Pedro dessa responsabilidade que, para ele, poderia ser profundamente reparadora. Não podemos saber. Mas o fato de que o livro levanta essas questões e as sustenta enquanto perguntas é tudo o que eu poderia querer dele.

Copo Vazio aborda a efemeridade das histórias de amor de hoje. Por que você decidiu escrever sobre isso?

Decidi escrever sobre como a efemeridade do amor, que é mítica, se atualiza na contemporaneidade porque a escrita é, para mim, uma forma de investigação. Havia coisas que eu queria entender; ainda há, na verdade, porque a literatura costuma, em vez de as responder, reforçar ou inverter nossas perguntas.

Apesar de tantos avanços femininos e feministas, o amor romântico ainda pega de jeito tanto mulheres quanto homens. É possível superá-lo ou ao menos equilibrar suas equações?

A ideia de que temos que superar o amor romântico é, de alguma forma, a ideia de que somos ou seremos capazes de superar nossa precariedade, o que não me parece possível. Os avanços feministas são importantíssimos, e não passam necessariamente por cima da complexidade de uma mulher, com o vigor de seu desejo, sua fragilidade, suas contradições. Isso vale também para os homens.

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