De Escritor para Escritor | Cíntia Moscovich
27/08/2020 - 11:51

1. Ler é ar. Sem leitura, a gente perde o chão, o teto, as paredes e toda a construção e estrutura. Para ter estofo para escrever e para viver. Há de se ler os clássicos e ler os contemporâneos: ler e, acima de tudo, ler.

 

2. Se, no entanto, um livro for chato e não lhe disser a que veio nas primeiras 30 páginas, abandone. Vasta é a literatura, pouco é o tempo que se tem no mundo.

 

3. Nem só de leitura se faz um autor. As demais artes são fontes riquíssimas para preencher a gente. Cinema, teatro, música, artes plásticas — todas as expressões nos dizem. Descobri uma coisa fantástica: Netflix, Amazon Prime e Now. Há séries e filmes que valem bons livros.

 

4. O ideal é que todo autor escreva todos os dias. O ideal é só o ideal, no entanto. A gente pode muito bem considerar que se está escrevendo ao mesmo tempo em que cozinha, cuida das plantas, bate prego. Tem escritor que o que menos faz é escrever quando senta e escreve — com o perdão devido pela maldade.

 

5. Na tal pandemia, tenho dado oficina online para gente que quer muito escrever. São ótimos alunos e me ensinam muito, principalmente sobre o valor daquele “tempo de gaveta” que eles, ansiosos, insistem em negar ao texto. A cada barbaridade que me apresentam lá está a falta de descanso e de reflexão que, mesquinhos, subtraem dos próprios trabalhos.

 

6. Um escritor tem que conhecer o idioma em que escreve. Não dá para ficar chutando concordância verbal, nominal ou ortografia. Sugiro sempre usar o corretor ortográfico do Word, que é uma mão na roda, embora seja bom desconfiar sempre.

 

7. Um dos melhores amigos do escritor ou do bom leitor é um dicionário. Eu uso o Houaiss, disponível no UOL. Assino o UOL só pra isso. Há, no entanto, bons dicionários na rede.

 

8. Lugares-comuns e clichês são os grandes inimigos da expressão literária. Quando está muito fácil escrever, quando o texto está fluindo sem obstáculo algum, é bom desconfiar: clichê à vista. De estrutura ou de linguagem, essas armadilhas da facilidade se impõem e tornam o texto nada mais do que um manual de autoajuda. Fica uma porcaria. O preço da liberdade é a eterna vigilância.

 

9. A simplicidade é dificílima. Lute muito para ser simples e não desista logo de início.

 

10. Sempre é melhor escrever menos do que mais. Sempre.

 

11. Tenha um altar no qual possa adorar seus autores do coração. Volte a eles sempre. Leia, releia, tresleia. E não se incomode de imitá-los. Assim, pela via da imitação, se aprende a fazer qualquer coisa.

 

12. Nunca dê atenção aos palpites das pessoas que você ama. Marido, mulher, mãe: todos esses são péssimos conselheiros literários. Acredite piamente em quem está acostumado a ler e se dispõe a apontar defeitos em seu texto.

 

CÍNTIA MOSCOVICH é autora dos livros Essa Coisa Brilhante que é a Chuva (2012), Anotações Durante o Incêndio (2000) e Reino das Cebolas (1996), entre outros. Venceu o Prêmio Açorianos de Literatura (duas vezes), Portugal Telecom (atual Oceanos) e Clarice Lispector, oferecido pela Fundação Biblioteca Nacional.

 

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