Crônica | Hernán Casciari
30/11/2020 - 16:48

10,6 segundos

Crônica do escritor argentino Hernán Casciari — traduzida por Mariana Sanchez — sobre um dos gols mais icônicos da história do futebol, marcado por Diego Maradona (1960-2020) na Copa de 1986

maradona
Diego Maradona, morto no último dia 25, marcou um dos gols mais icônicos da história das Copas. Foto: Reprodução

 

Menos de onze segundos antes, quando o jogador argentino recebe o passe de um colega, o relógio no México marca treze horas, doze minutos e vinte segundos. No centro da cena também estão dois britânicos e um homem um pouco mais velho, de origem tunisiana. O esporte que estão jogando, futebol, não é lá muito popular na Tunísia, por isso o africano parece ser o único que não está chocado com o lance.

Seu nome é Ali Bin Nasser e, enquanto os outros correm, ele caminha devagar. Tem quarenta e dois anos e está envergonhado: sabe que nunca mais será chamado para apitar uma partida oficial entre nações.

Também sabe que, doze anos antes, quando se contundiu jogando na liga tunisiana, se alguém lhe dissesse que estaria numa Copa do Mundo, ele não teria acreditado. Muito menos que se tornaria juiz: na Tunísia, para chegar ao posto basta ter o mesmo número de pernas que de pulmões.

Quando apitou sua primeira partida, descobriu que seria um juiz correto. Foi mais do que isso: conseguiu ser o primeiro árbitro de futebol reconhecido nas ruas de Túnis. Convocado para as eliminatórias africanas de 1984, mostrou-se tão competente em sua atuação que, um ano depois, foi chamado para dirigir uma Copa do Mundo.

No México lhe pediam autógrafos, tiravam fotos ao seu lado e ele dormia no hotel mais luxuoso. Havia arbitrado com sucesso o Polônia x Portugal da primeira fase e vigiado a lateral esquerda num Dinamarca x Espanha onde os dinamarqueses jogaram todo o segundo tempo em linha de impedimento. Não errou nenhuma vez ao levantar a bandeirinha.

Quando os organizadores lhe informaram que conduziria uma quarta de final — nunca um juiz tunisiano chegara tão longe —, Ali telefonou a cobrar do hotel para casa, contou a notícia ao seu pai e os dois choraram.

Naquela noite, teve o sono agitado e sonhou duas vezes que fazia fiasco. No primeiro sonho, torcia o tornozelo e precisava ser substituído pelo quarto árbitro — no sonho, o quarto árbitro era sua mãe. No segundo sonho, um maluco pulava no campo, baixava suas calças e Ali ficava com os genitais de fora diante das TVs do mundo todo.

Acordou dos sonhos sentindo palpitações. Mas nunca sonhou, na véspera, com validar um gol de mão. Não sonhou que, na gíria popular da Tunísia, seu sobrenome viraria uma metáfora jocosa da cegueira. É por isso que agora apita o segundo tempo da partida querendo que tudo acabe logo.

*

Agora o jogador argentino toca a bola com seu pé esquerdo e a afasta meio metro da sombra. O calor supera os trinta graus e essa sombra, em forma de aranha, é a única num raio de muitos metros.

Ao redor do campo, suadas e exaltadas, cento e quinze mil pessoas acompanham os movimentos do jogador, mas apenas duas, as mais próximas da cena, podem impedir o ataque.

Chamam-se Peter: um Reid, o outro Beardsley; nasceram no norte da Inglaterra, o primeiro às margens do rio Mersey, o segundo no estuário do rio Tyne; ambos tiveram filhos um pouco antes, que batizaram de Peter; ambos se divorciaram da primeira mulher antes de viajarem para o México; e ambos têm certeza, às treze horas, doze minutos e vinte e um segundos, que será fácil roubar a bola do jogador argentino, porque ele recebeu o passe no contrapé e porque eles são dois: um na frente, o outro atrás.

Não sabem que, dali a uma década, Peter Reid filho e Peter Beardsley filho serão amigos, terão quinze e dezesseis anos e estarão dançando numa rave em Londres.

Um escocês de sobrenome O’Connor — que mais tarde será roteirista do comediante Sacha Baron Cohen — irá reconhecê-los e, no meio da pista, desviará deles fazendo uma finta e um drible: uma, duas, três vezes repetirão o gesto, imitando o baile que agora, dez anos antes, o jogador argentino dá em seus pais.

Como Reid filho e Beardsley filho não entenderão a piada, outras pessoas na rave se juntarão à chacota de O’Connor e se formará uma espiral de dançarinos que, em forma de trenzinho humano, desviará dos garotos com um drible em dois tempos.

Peter Reid filho será o primeiro a entender a troça, e dirá ao amigo: “É por causa do vídeo dos nossos pais, aquele do México de oitenta e seis”. Peter Beardsley filho fará uma cara de humilhação e os dois amigos fugirão da festa perseguidos por uma multidão de garotos gritando em coro o sobrenome do jogador que, dez anos antes, agora mesmo, escapa dos seus pais com um jogo de cintura.

Reid pai e Beardsley pai logo deixarão de perseguir o jogador: tentar detê-lo será um trabalho para outros de seus colegas. Eles agora permanecem congelados num vídeo que o tempo converte, em câmera lenta, do VHS para o YouTube.

Nesse momento seus filhos têm cinco e seis anos e não se lembrarão de ter visto ao vivo o primeiro drible do jogador, mas no começo da adolescência eles o verão mil vezes em vídeo e perderão todo o respeito por seus pais.

Imóveis no centro do campo, Peter Reid e Peter Beardsley ainda não sabem exatamente o que aconteceu em suas vidas para que tudo desmoronasse.

*

Veloz e com passos curtos, o jogador argentino desloca a cena para o terreno adversário. Só tocou na bola três vezes em seu próprio campo: uma para recebê-la e engambelar o primeiro Peter, a segunda para pisar nela levemente e confundir o segundo Peter, e uma terceira para chutar a bola até a linha do meio-campo.

Quando a redonda cruza a linha de cal, o jogador já percorreu dez dos cinquenta e dois metros que irá percorrer, e deu onze dos quarenta e quatro passos que precisará dar.

Às treze horas, doze minutos e vinte e três segundos do meio-dia, um sonoro “oh” desce das arquibancadas e as nádegas dos locutores de rádio descolam dos bancos nas cabines de transmissão: o buraco na defesa que o jogador aproveita pela ala direita, depois do drible duplo e da passada larga, faz com que todos entendam o perigo.

Todos, menos Kenny Sansom, que aparece por trás dos dois Peters e persegue o jogador com uma parcimônia que parece própria de outro esporte. Sansom acompanha o argentino sem desespero, como se levasse um filho pequeno para dar sua primeira volta de bicicleta. “Parecia que você estava num treino, porra”, dirá a ele o treinador Bobby Robson duas horas depois, no vestiário. “Aquele não era você”, dirá seu meio-irmão Allan um ano depois, ambos bêbados, em um pub de Dublin.

Kenny Sansom rebobinará o vídeo mil vezes no futuro. Verá seu ritmo apático, quase letárgico, enquanto o jogador escapa dele.

Em novembro daquele ano, começará a ter problemas com jogo e bebida. Os tabloides sensacionalistas lhe darão o apelido de “White” Sansom, por sua predileção por vinho branco.

Seu único amigo dos tempos áureos será Terry Butcher, talvez porque ambos serão pivôs de um trauma semelhante.

Butcher é quem agora, quando os narradores nas cabines e os espectadores nas arquibancadas ainda estão se levantando, tenta dar um chute no argentino, que avança pela sua ala. Sem saber que seu sobrenome, no idioma do rival, significa açougueiro, Butcher perseguirá enlouquecido o jogador e lhe dará um segundo chute, dessa vez com intenção mortal, na quina da pequena área.

Terry Butcher jamais superará o fantasma daqueles dez segundos de um meio-dia mexicano. “O resto do time ele driblou uma única vez, já eu, aquele desgraçado driblou duas”, dirá aos jornais muitos anos depois, com olhos chorosos.

Kenny Sansom e Terry Butcher nunca mais voltarão ao México, nem mesmo às praias turísticas longe do Distrito Federal. No futuro, sem filhos nem relacionamentos estáveis, seu hobby (com quase sessenta anos cada um) será se reunir para tomar whisky nas noites de quinta-feira e inventar novos xingamentos para o jogador argentino que agora, sem marcação, entra na grande área com a bola colada nos pés.

*

Antes do início da jogada, um homem dá um passe errado. Com essa falha começa a história. Poderia ter chutado para trás ou para a direita, mas decide entregar a bola para o jogador menos livre. Esse homem se chama Héctor Enrique e fica parado depois do passe, com as mãos na cintura. Depois dessa partida, nunca mais poderá se separar daquele jogador, como se o fio invisível do passe vertical se transformasse, com o tempo, num campo magnético.

Enrique ainda não sabe, mas voltará a participar de uma Copa do Mundo vinte e quatro anos depois e em solo sul-africano. Fará parte da equipe técnica de um treinador que, mais gordo e mais velho, terá o mesmo rosto do jovem que agora corre em ziguezague. E terminará sua carreira ainda mais longe, nos Emirados Árabes, de novo à direita do jogador para quem ele acaba de dar, há dois segundos, um passe no contrapé. Durante muitas noites futuras, num país estranho onde as mulheres são obrigadas a andar no banco de trás dos carros, Enrique pensará o que teria acontecido se, em vez de passar aquela bola quadrada, tivesse tocado para Jorge Burruchaga, sua segunda opção.

Burruchaga é quem agora corre paralelo ao jogador no meio do campo. São treze horas, doze minutos e vinte e quatro segundos: ele tem certeza que o jogador vai lhe dar o passe antes de entrar na área, que só está se livrando da marcação para deixá-lo sozinho de cara para o gol.

Burruchaga corre e olha para o jogador. Em linguagem corporal, diz a ele “estou livre pelo meio”, e enquanto espera em vão, não imagina que um dia, anos depois, aceitará suborno na liga francesa e será punido pela Federação Internacional. Outra entrega frustrada. Mas agora, congelado no presente, ele ainda corre e espera pelo passe que nunca chega.

Dias mais tarde, fará o gol decisivo da final, mas o mundo só terá olhos e memória para outro gol. Ano após ano, homenagem após homenagem, o seu estará longe de ser o mais cultuado.

Uma noite, Burruchaga fará uma ligação à Arábia Saudita para conversar com seu amigo Héctor Enrique e lamentará, meio de brincadeira, meio a sério, aquele gol alheio que ofuscou o decisivo da final. Então, Enrique verá uma tempestade de areia pela janela e, sem querer, fará o amigo sorrir: “Também não foi para tanto, aquele gol. Quem deu o passe fui eu. Se ele não fizesse, tinha que matar”.

*

Dentro do campo, o vento sopra a doze quilômetros por hora. Se soprasse a sessenta, como aconteceu na Cidade do México seis dias depois, talvez a jogada não tivesse acabado bem.

O ataque parece veloz por uma ilusão de ótica, mas o jogador controla o ritmo, freia e engana. Há uma geometria secreta na precisão daquele ziguezague, um rigor que teria se perdido com uma simples mudança no vento ou o reflexo de um relógio de pulso das arquibancadas.

Debaixo do chuveiro, cabisbaixo após a derrota, Terry Fenwick pensa nas variáveis do acaso. Especialmente em uma, a menos absurda. Antes da partida, Fenwick aconselhou seu treinador Bobby Robson que o melhor seria fazer uma marcação homem a homem no adversário. Bobby respondeu que a marcação seria por zona, como nos jogos anteriores.

O que teria acontecido se Robson lhe dera ouvidos?, Terry Fenwick se perguntará, nu, na solidão do vestiário, com a água martelando nas têmporas.

Neste momento, às treze horas, doze minutos e vinte e seis segundos do meio-dia, é ele quem vê o jogador chegar com a bola dominada; é ele quem acredita que fará um lançamento para o meio da área. Fenwick pensa a mesma coisa que Burruchaga, apoia seu corpo na perna direita para bloquear o passe e deixa livre a lateral esquerda. O jogador, com um pulinho, entra então pelo espaço vazio, pisa na área e encontra o gol.

“Merda”, dirá Terry Fenwick aos jornais em 1989, “destruiu minha carreira em quatro segundos”. Em 1991, dois anos após essa explosão de raiva, Fenwick passará quatro meses na prisão por dirigir embriagado. Em meados da década seguinte, dirá que jamais apertaria a mão do jogador argentino se o visse novamente.

Naquela mesma época, uma de suas filhas fará dezoito anos. Durante a festa, Terry Fenwick irá flagrá-la beijando um argentino numa praia de Trinidad. Reconhecerá a nacionalidade do garoto pela camiseta azul-celeste e branca com o número dez nas costas. Fenwick ainda não sabe, mas na velhice dirigirá um time desconhecido chamado “San Juan Jabloteh” em Trinidad e Tobago, país que não costuma jogar em Copas do Mundo, mas que possui praias.

Fenwick irá se embebedar todos os dias na areia dessas praias. Na tarde do encontro de sua filha com o argentino, terá vontade de se aproximar para dar um soco no garoto. O argentino fará o gesto de sair para a esquerda e escapará pela direita. Fenwich, mais uma vez, terá que engolir o drible.

*

Oito passos, de um total de quarenta e quatro, o jogador dará dentro da área. O suficiente para ele entender que o panorama não é nada favorável.

À direita tem um rival fungando na sua nuca, Terry Butcher. À esquerda tem outro, Glenn Hoddle, impedindo seu lançamento para Burruchaga. Fenwick se recompôs da finta e agora bloqueia o possível passe atrás, enquanto, na frente, o goleiro Peter Shilton fecha a primeira trave.

O norte, o sul e o leste estão vedados para qualquer manobra. São treze horas, doze minutos e vinte e sete segundos do meio-dia. Três horas a menos que em Buenos Aires. Seis horas a menos que em Londres. Em qualquer cidade do mundo, a qualquer hora do dia ou da noite, tentar o chute a gol no meio daquele emaranhado de pernas é impossível, e quem sabe disso melhor do que ninguém é Jorge Valdano, que chega completamente sozinho pela esquerda.

Ninguém nota a presença de Valdano. Nem agora na grande área, nem durante a escola primária, na cidadezinha de Las Parejas, Santa Fe. Jorge Valdano ficava lendo livros de Emilio Salgari enquanto seus colegas jogavam futebol no recreio, alvoroçados atrás da bola. Aos nove anos, o futebol parecia um jogo banal, mas aos onze algo aconteceu: ele entendeu as regras e soube, sem surpresa, que os outros meninos não o praticavam com inteligência.

Começou a jogar com eles e, enquanto o resto perseguia a bola sem qualquer estratégia, ele se movimentava pelas laterais buscando a geometria do esporte.

E era bom. Integrou dois clubes do interior e logo o chamaram de Rosário para a base do Newell’s. Debutou no profissional antes dos dezoito. Aos vinte foi campeão mundial juvenil em Toulon. Aos vinte e dois já tinha jogado na seleção principal.

Mas, naqueles anos vertiginosos, nunca amou o jogo acima de tudo. Se pudesse escolher entre uma partida com os amigos ou um bom livro, escolhia o segundo.

Até aquele momento, aos trinta anos, Valdano não tinha certeza de ter escolhido sua verdadeira vocação. É por isso que agora, enquanto espera pelo passe, finalmente sente que esse pode ser o seu destino, que talvez tenha vindo ao mundo para mandar aquela bola pra rede.

Ele sabe que a única opção do jogador é o passe à esquerda. Não tem outra saída. Enquanto entra na área, pensa: “Se ele não passar pra mim, largo tudo e viro escritor”.

Mas o jogador entra na área sem olhar para ele. Nem Butcher, Fenwick, Hoddle ou Shilton notam sua presença. Nem sequer o cinegrafista, que segue a jogada em close, o distingue a tempo.

No vídeo, Valdano é um fantasma que só se materializa de corpo inteiro quando a bola já está na quina da pequena área. Jorge Valdano ainda não sabe, mas no final daquele campeonato começará a escrever contos.

*

Não há pior inimigo para um atacante do que o goleiro. Os outros adversários podem usar o carrinho ou a joelhada na coxa. Não importa, são armas lícitas num esporte de homens e a vítima pode revidar o gesto na próxima jogada.

Porém, o goleiro, o guarda-redes, o goalkeeper, o arqueiro (como Lúcifer, seus nomes são infinitos) pode tocar na bola com as mãos.

O goleiro é uma anomalia, uma exceção capaz de desfazer com as mãos as melhores acrobacias que outros homens fazem com os pés. E, até aquele dia, nenhum futebolista de campo tinha conseguido revidar aquela afronta numa Copa. É por isso que agora, quando o jogador entra na área e olha nos olhos de Peter Shilton (camisa cinza, luvas brancas), ele entende o ódio no olhar do inglês.

Meia hora antes, o argentino tinha vingado todos os atacantes da história do futebol: havia marcado um gol de mão. A palma do atacante chegara antes que o punho do goleiro. No regulamento do futebol essa ação é proibida, mas nas regras de outro jogo, mais desumano que o futebol, a justiça tinha sido feita.

Por isso, neste momento culminante da história, às treze horas, doze minutos e vinte e nove segundos, Peter Shilton sabe que pode vingar a vingança. Sabe muito bem que está em suas mãos impedir o melhor gol de todos os tempos. Precisa fazê-lo, aliás, para voltar ao seu país como herói.

Shilton havia nascido em Leicester trinta e seis anos antes daquele meio-dia mexicano. Já era uma lenda viva, não precisava chegar à sua primeira e tardia Copa do Mundo para prová-lo.

Ele ainda não sabe, mas jogará profissionalmente até os quarenta e oito anos. Protagonizará no futuro muitas defesas inesquecíveis que, somadas às do passado, farão dele o melhor goalkeeper da Inglaterra.

No entanto (e isso ele também não sabe), no futuro existirá uma enciclopédia, mais famosa do que a Britânica, que dirá a seu respeito: “Shilton, Peter: goleiro inglês que levou, no mesmo dia, os gols conhecidos como ‘a mão de Deus’ e ‘do Século’”.

Este será o seu karma, e é melhor que ele não saiba, pois continua olhando nos olhos do jogador argentino que se aproxima, e fecha a trave esquerda como seus mestres lhe ensinaram. Ele acha que Terry Butcher chegará a tempo para o último chute. “Talvez seja escanteio”, pensa. “Talvez eu possa tirar a bola com a ponta dos dedos.”

Ele também não sabe que dois anos mais tarde será lançado na Grã Bretanha um videogame com seu nome, intitulado Peter Shilton’s Handball, e que seus filhos o jogarão, escondido, nas férias de 1992.

É melhor que ele não saiba o futuro ainda, pois precisa decidir, agora mesmo, qual será o próximo movimento do jogador. E decide: Shilton se joga para a esquerda, se atira no chão esperando o canhotaço cruzado. O argentino, que sabe o futuro, decide seguir pela direita.

*

Antes de tocar na bola pela última vez com seu pé esquerdo, às treze horas, doze minutos e trinta segundos do meio-dia mexicano, o jogador argentino vê que deixou Peter Shilton para trás; vê que Jorge Valdano arrasta a marcação de Terry Fenwick; vê que Peter Reid, Peter Beardsley e Glenn Hoddle ficaram pelo caminho; vê Terry Butcher se jogando aos seus pés com as chuteiras afiadas; vê Jorge Burruchaga freando sua corrida, resignado; vê Héctor Enrique ainda plantado no meio do campo, fechando o punho da mão direita; vê seu treinador pulando do banco como que arremessado por uma mola e o treinador adversário baixando a cabeça para não ver o fim da jogada; vê um homem ruivo fumando cachimbo na primeira fila da arquibancada; vê a linha de cal do gol adversário e se lembra do rosto do funcionário que, durante o intervalo, a retocou com um rolinho; vê nitidamente seu irmão Hugo, el Turco, que, aos sete anos de idade, joga na sua cara um erro cometido em Wembley numa jogada parecida; vê os lábios sujos de doce de leite do irmão, dizendo: “Da próxima vez não bata cruzado, ô mané, melhor driblar o goleiro e seguir pela direita”.

Vê o rosto de seu irmão na luz da cozinha onde aconteceu essa cena, vê a malandragem no seu olhar; vê, atrás do gol, uma placa que diz Seiko em letras brancas sobre fundo vermelho; vê as unhas pintadas de verde da sua primeira namorada no dia em que a conheceu, e vê essa mesma garota, agora mulher, amamentando uma menininha; vê uma bola murcha e vê a si mesmo, aos nove anos, tentando dominá-la; vê sua mãe e seu pai arrastando com esforço um enorme galão de querosene por uma rua de terra depois da chuva; vê um armário num vestiário de La Paternal com seu nome e sobrenome em letras brilhantes; vê seu orgulho adolescente ao ler pela primeira vez seu nome e sobrenome naquele armário; vê um estádio, suas arquibancadas de madeira, e vê também que um dia o estádio inteiro, não só o armário, levará o seu nome.

O jogador argentino prendeu o ar nos pulmões por nove segundos e agora está prestes a soltar tudo de uma vez num sopro.

Ao contrário de todos os adversários e companheiros que deixou para trás, ele pode respirar com sua perna esquerda, e também pode intuir o futuro enquanto avança com a bola nos pés.

Vê, antes do tempo, que Shilton vai cair para a direita; vê a intenção assassina de Terry Butcher às suas costas, vê a si mesmo, muitos anos depois, com um neto nos braços, visitando a entrada do Estádio Azteca, onde se ergue uma estátua de bronze sem nome: apenas um jovem jogador de peito estufado, uma bola nos pés e uma data gravada na base: 22 de junho de 1986; vê uma rave em Londres onde dois garotos de quinze anos fogem de uma multidão que zomba deles; vê um apartamento na penumbra onde há apenas uma mesa, dois amigos e um espelho em cima da mesa; vê uma garota numa praia dos trópicos sendo beijada por um rapaz vestindo uma camiseta da Argentina; vê um enxame de jornalistas e fotógrafos na saída de todos os aeroportos, de todas as rodoviárias, estádios e centros comerciais do mundo;
vê um menino hipnotizado por um videogame na cidade de Leicester, enquanto seu irmão vigia a janela para que seu pai não apareça; vê o cadáver de um homem velho que morreu em Genebra oito dias antes daquele meio-dia, um homem que também viu todas as coisas do mundo num único instante.

Vê Villa Fiorito de dia. Vê Nápoles de tarde. Vê Barcelona de noite. Vê o estádio do Boca lotado e ele no meio do campo, mas não com uma bola nos pés e sim com um microfone nas mãos; vê um idoso no aeroporto de Túnis-Cartago esperando seu filho no último voo do México para abraçá-lo e consolá-lo; vê um tornozelo inflamado; vê uma enfermeira da Cruz Vermelha, rechonchuda e sorridente; vê todos os gols que fez e os que fará; vê todos os gols que gritou e os que gritará em toda sua vida; se vê aos cinquenta e três anos assistindo de camarote à
final da copa no Maracanã; vê o dia em que verá sua mãe pela última vez; vê a noite em que verá pela última vez seu pai; vê todos os filhos dos seus filhos crescerem; vê as dores do parto de uma mulher prestes a dar à luz um menino canhoto em Rosário, um ano e dois dias após aquele meio-dia mexicano; vê um espaço mínimo, impossível, entre a trave direita e a chuteira de Terry Butcher. Fecha os olhos. Deixa-se cair para frente, com o corpo inclinado, e o mundo inteiro fica em silêncio.

O jogador sabe que deu quarenta e quatro passos e doze toques na bola, todos de canhota. Sabe que a jogada durará dez segundos e seis décimos. Então, pensa que já é hora de contar para todo mundo quem ele é, quem foi e quem será até o fim dos tempos.

 

Mariana Sanchez é jornalista, especialista em cinema e tradutora. Já verteu para o português nomes como Sylvia Molloy, Lina Meruane, Alejandra Costamagna e Rosa Montero. Sua tradução mais recente é a coletânea Tô Fora (2020), do escritor argentino Hernán Casciari, da qual esta crônica publicada pelo Cândido faz parte.

Hernán Casciari nasceu em Mercedes, em 1971. É fundador da editora Orsai, pela qual lançou a antologia Tô Fora (no original: Renuncio), e dirige uma revista — dedicada à crônica jornalística — de mesmo nome. Lançou o romance O Garoto que Estragava as Fotos, os contos de Messi é Um Cachorro e a peça Uma Obra em Construção, entre outros livros. Vive em Buenos Aires.