Cândido 103 Indica
05/03/2020 - 15:14

Histórias Mínimas
Jonatan Silva, Kafka Edições, 2019 
Por meio de diferentes vozes, e sob óticas inusitadas, as breves narrativas do segundo livro de Jonatan Silva suscitam reflexões sobre o lado obscuro da espécie humana. Para dar corpo aos contos, o autor vai de referências literárias a personagens bíblicas, passando por obsessões comportamentais e descrições de cenas banais que guardam significados maiores. Entre outras situações, há um diálogo inusitado entre Robert Walser e André Breton, possivelmente espelhando o surrealismo que é ligado ao nome do segundo, e as impressões de uma flor em meio ao lixo, cujas ponderações podem se aplicar à condição humana — como quando ela constata que é possível se acostumar até com o cheiro de merda, por exemplo, já que isso faz parte “daquilo que chamam vida”.

Monstruário de Fomes
Ruy Proença, Patuá, 2019 
Em seu sexto livro, o paulistano Ruy Proença revisita o poema em prosa — uma forma híbrida que ele não praticava desde sua estreia, em 1985, com Pequenos Séculos — e segue flertando com o extraordinário, andando na corda bamba entre o registro seco e o devaneio. Dividida em duas partes, “Estetoscópio” e “Papelcarbono”, a obra trabalha tanto com os impulsos subjetivos que movem o homem quanto com a incorporação de vozes alheias. Assim, como conjunto, Monstruário de Fomes parece investigar duas facetas da espécie humana — as particularidades de cada um e o esforço de se tentar enxergar com os olhos dos outros.

Histórias Mínimas
Monstruário de Fomes
Prisioneiras
O Imperador de Todos os Males, a Solução Óbvia e Tudo que Há Entre Eles

 

Prisioneiras
Drauzio Varella, Companhia das Letras, 2017 
O último volume de uma trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro traz o olhar de quem foi médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo. Nessa trajetória iniciada em 2006, o autor de Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012) ouviu muitas das mais de 2 mil detentas, conhecendo suas trajetórias e aprendendo sobre a dinâmica e especificidades do ambiente — a solidão (“De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas”), a hierarquia, o consumo de álcool, maconha e cocaína (“Ainda está para ser criada a cadeia livre de drogas ilícitas”) e a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC), entre outros temas e situações.

O Imperador de Todos os Males, a Solução Óbvia e Tudo que Há Entre Eles
Guilherme Campos, Arte & Letra, 2019 
Em 19 contos, o curitibano Guilherme Campos passeia por várias questões que pesam na contemporaneidade, dando atenção especial ao uso da linguagem — flertes com o concretismo, onomatopeias, perguntas que ficam somente subentendidas, diferentes vozes em primeira pessoa. A narrativa de abertura, “O Imperador de Todos os Males”, trata da ascensão social questionável de Ângelo Emanuel dos Santos. Por meios escusos, o homem fica bem financeiramente, mas perde sua capacidade de “enxergar poesia nas relações humanas”. Esse processo de desumanização trabalhado já no início antecipa temas que são abordados em outros textos, como a vaidade, a desigualdade social e o tédio. 

 

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