CRÔNICA | Cidinha da Silva
30/03/2021 - 01:49

Crônica de um celular público no 02 de Julho

 

Olhe bem, eu não sou mulher desse mundo de hoje que beija toda boca que encontra pela frente. Entendeu? O quê? Você quer que eu me jogue? Me jogo, não, seu salafrário. Eu me amo, eu me amo, compreendeu?! Mas, menino, o quê? Você também me ama? Você saiu comigo uma vez, nós conversamos e eu deixei você me trazer na porta de casa. Olhe bem, da porta pra fora, que aqui você não entrou. Eu tenho filha de menor e zelo pela privacidade dela. Você também tem filha? Eu sei, você me disse e pelas notícias que correm você é um bom pai, mas isso não vai fazer que eu abra minha porta pra você. Agora, olhe bem, eu só me jogo com uma pessoa se eu tiver confiança, se eu tiver clareza de que vou ser respeitada e que a pessoa também vai respeitar meus filhos. Rafa, você sabe Rafa, meu filho? Pois é, eu não falo com o pai de Rafa porque ele me desrespeitou, foi uma vez só, isolei ele no contêiner do desprezo e joguei no mar. Despachei a chave no barquinho de Iemanjá e pedi a ela vida nova no Dois de Fevereiro. E ela me deu, que Iemanjá nem orixá nenhum me falta, eu tenho muita fé e muito crédito com eles. O que ele fez pra eu tomar atitude tão drástica? Me xingou na rua no dia da audiência, na saída do juiz, me expôs na rua como se eu fosse uma coisa desprezível. Foi só aquela vez, nunca mais falei com ele. Nem aqui na porta ele vinha pra pegar Rafa. A irmã dele, que é muito gente boa é que vinha. O quê? Você acha que eu sou fechada? Olhe bem, fechada nada, meu filho, eu sou precavida! Eu sou aberta, abertíssima, estou até conversando com você, falando sobre meus dramas existenciais, quer mais abertura do que isso? O que? Estou sendo infantil, imatura, só porque não abro minha porta pra você? Preste atenção, menino, cresça. Olhe bem, hoje eu cuido de mim, pode vir um príncipe encantado, que nem é seu caso, que eu não me jogo. Se eu não tiver clareza da intenção do homem, não me jogo, não. Ou se eu tiver clareza, como no seu caso, que só quer que eu abra as pernas, eu boto para correr, entendeu meu filho?  Eu não conheço sua família, não sei qual é a sua índole. O que? Tá dizendo que sou jovem ainda? Sim, com certeza, eu sou, sei disso. Tenho hormônios, desejo, mas não estou desesperada, não, e por isso não me jogo com qualquer um. Entendeu? Se eu estou te chamando de qualquer um? E como é que não chamaria, menino? Desculpe aí, mas você não chega a ser uma nuvenzinha no meu céu estrelado. Não peguei pesado, não. Eu só sou sincera demais, minha falecida mãe já dizia. O que? O sexo é o início do relacionamento e eu estou muito travada? Travada, não, meu amigo, eu sou resolvida, resolvidíssima. Não, não sou careta coisa nenhuma, eu apenas sei o que quero para a minha vida. O que? Estou me negando a chance de te conhecer melhor? Você se acha, né menino? É pela conversa que a gente conhece um homem. A gente já está há meia hora nesse telefone e tudo o que você faz é tentar me convencer a dar pra você. Acha que não deu pra te conhecer, não? Acha que não deu pra perceber que você não é um homem que caiba no meu projeto de relacionamento? Não para casar, não, porque eu não seria idiotada a ponto de querer casar com você, mas você não serve nem para uma coisinha, um Sex and the city. O que? Tá parecendo que eu gosto de mulher? Gosto muito mesmo, mas como amigas. De sexo eu gosto é com homem, mas homem mesmo, não esse tipo que na hora do aperto sem mulher pega galinha, cabra e cachorra. Até arraia pega no mar. Eles que não venham com esse pau sujo de bosta pra perto de mim que eu corto fora.  Sim, já experimentei mulher, o povo não precisa falar não, eu mesma falo porque não tenho problema nenhum com isso. Mulher é massa, mas sexo eu gosto é com homem. E tô ligada no seu movimento, conheço bem o seu tipo, meu filho: está pronto pra me foder no domingo à tarde, mas me fazer gozar que é bom, necas! 

 

Cidinha da Silva (MG) é escritora e editora na Kuanza Produções (www.kuanzaproducoes.com.br). Publicou 19 livros que contam com 225,4 mil exemplares em circulação. Um Exu em Nova York (Prêmio Biblioteca Nacional, 2019) Os nove pentes d’África (PNLD Literário 2020), e # Parem de nos matar! são os mais conhecidos. Tem publicações em alemão, catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. É curadora de Almanaque Exuzilhar (Youtube) e conselheira da Casa Sueli Carneiro.

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