Um Escritor na Biblioteca

Muitas vozes

A seguir, confira trechos das entrevistas que fazem parte do terceiro volume da série “Um Escritor na Biblioteca”.


Fernando Morais


Os temas e personagens de seus livros costumam gerar polêmica, despertar paixão e ódio. Como autor, quais os cuidados que tem diante dos assuntos com os quais trabalha?
O que são os Evangelhos? Não são nem versões, são visões diferentes do mesmo fato. Não há nada mais subjetivo do que a objetividade. O simples fato de você ter escolhido determinado tema já é algo subjetivo. Por que eu escrevi um livro sobre Cuba 40 anos atrás e não sobre o Vietnã? Já tem uma subjetividade aí. E isso vale para rigorosamente tudo. Eu abro o Olga, na apresentação do livro, falando que aquela é a minha história. Se você, na mesma época que eu, estivesse fazendo um livro sobre Olga Benário, provavelmente sairia uma história diferente. Isso porque você é diferente de mim, seu olho é diferente do meu. Sua formação é diferente da minha, e isso vai se refletindo na sua vida inteira, em todas as suas escolhas.

Rubens Figueiredo


A prática da tradução influenciou em sua maneira de escrever literatura?
Comecei a traduzir literatura russa por acidente, não foi nada premeditado. O primeiro autor que traduzi foi Tchekhov. Comecei esse trabalho sem ter uma visão crítica ou histórica consolidada do que eram esses autores e esses livros. Na medida em que ia traduzindo, tinha que pesquisar, e o assunto é fascinante. Aí me dei conta, a certa altura, que eu estava desenvolvendo uma visão muito pessoal daquilo e que era o oposto da visão que predomina em nossa tradição crítica. Comecei a formar uma convicção fundamentada em dados de que aquilo estava sendo mal entendido. Parece pretensioso, ainda mais sendo um ponto de vista de um sujeito que não é pesquisador, mas tive contato com algumas informações. Tenho 56 anos [em 2012], de modo que já tinha uma certa insegurança a respeito de como tudo é falível. Comecei, enfim, a formar uma convicção muito pessoal a respeito dessas obras, que é o seguinte: a literatura russa tem esse alcance, essa força, causa toda essa impressão, não porque os escritores fossem gênios ou tivessem um talento espetacular. Nem porque caiu um disco voador lá, nada disso. Acontece que a relação entre literatura e sociedade lá, na Rússia, era completamente diferente do que se passava no resto da Europa, nos Estados Unidos ou até mesmo no Brasil no final do século XIX.


Lourenço Mutarelli


Você só se tornou um autor de literatura após ser conhecido como autor de quadrinhos. Como você começou a se expressar artisticamente?

Por desenhar desde a infância, o quadrinho nunca me intimidou. O quadrinho é um laboratório, onde é possível experimentar e, acredito, não há um olhar tão crítico quanto na literatura. A literatura era, para mim, algo sagrado, inatingível até. Entrei na literatura acidentalmente. Quando pensei em escrever O cheiro do ralo, eu estava terminando a trilogia do personagem Diomedes e tinha uma série de outros trabalhos de ilustração e quadrinhos. Tive a ideia de escrever uma história e achava que a imagem iria denunciar demais, por isso tentei escrever um texto.

 

João Gilberto Noll


Ao começar a escrever você abandonou a música, desistiu de ser ator, mas se voltou à leitura. Um garoto leitor, o que seus pais achavam?

Meus pais eram indiferentes às minhas leituras. Mas tive um amigo no colégio, um cara mais velho, que me introduziu a muitas coisas, como, por exemplo, a livros. Ele me emprestou O apanhador no campo de centeio e Trópico de câncer, que é até hoje um dos grandes livros da minha vida. E coisas assim como Françoise Sagan. Comecei a conhecer Sartre através dele. Ele me mostrou a bossa nova, o jazz, etc. Realmente devo muitíssimo a ele. Uma figura muito importante, que ainda mora em Porto Alegre. Esse mesmo amigo me apresentou também a obra de T. S. Eliot. Fiquei encantado com aquela tradução do nosso poeta Ivan Junqueira, dos quatro quartetos. Dos livros que ele me encaminhou, foi o que mais gostei. Eu queria uma coisa assim, que não precisasse falar tanto de enredo, quer dizer, sou um ficcionista um tanto desnaturado, de linguagem, não cultivo tanto o enredo, e o Eliot dava só tópicos, daquelas ruínas, daquela coisa desértica, uma certa decadência muito interessante, muito atrativa para um jovem que vinha criticando ferozmente as coisas institucionais como a família, o colégio e outras coisas que comecei a execrar naquela época. Na minha literatura tem um cara inconstitucional, sem família, desfamiliarizado. Parece que isso foi gestado já ali. E através, principalmente, da grandiosidade obra de T.S. Eliot.


Ignácio de Loyola Brandão


Você é um escritor consagrado. De onde vem a motivação para continuar escrevendo?

Literatura é, acima de tudo, prazer, sem isso é bobagem. A literatura tem que ser também um divertimento. Claro que tem que ser uma obra bem construída, bem feita, com estilo e tudo mais. Porém, ela tem que tocar as pessoas. Literatura é emoção e sentimentos. A literatura, ao longo de sua imensa trajetória, sempre falou do homem e sempre falou de emoção. Desde Shakespeare, falando de ciúme e dúvida, Dom Quixote, que foi o primeiro romance estruturado da história, até Jorge Luis Borges, passando por Vidas secas, tudo isso é a condição humana colocada no papel. E eu me alegro muito em fazer parte desses bravos e humildes lutadores, que tentam definir o homem brasileiro, entender o que é a vida, o que é o país, o que é a morte, enfim, entender por que estamos aqui. Como nunca se consegue, vou escrever até o final, até completar 104 anos e ir visitar o Niemeyer.

 

Roberto Gomes

 

Você escolheu ser escritor ou simplesmente aconteceu?

Ninguém escolhe ser escritor. Acho que não existe essa escolha. Um fato que para mim foi decisivo, e que também não entendi até hoje, que marca essa escolha, é que eu lia muito e fui ter o meu primeiro emprego como auxiliar de desenhista na Prefeitura de Blumenau. Ganhei meu primeiro salário e acabei comprando uma máquina de escrever. Ela era tcheca, chamava-se Zeta e era gigantesca, enorme, pesada, de ferro. Comprei a máquina, voltei com ela nas costas para casa. Quando minha mãe me indagou o motivo que me levou a comprar a máquina, respondi-lhe que iria ser escritor. Aí disparei a escrever, e claro, fiz plágios descarados do Nelson Rodrigues, do Fernando Sabino, plagiava todo mundo, mas tinha o bom senso de uma semana depois jogar fora. Até que chegou um dia que escrevi uma história que achei que não era plágio de ninguém, não tinha a cara do Nelson Rodrigues, nem do Fernando Sabino. Então, escolher escrever, não sei, talvez seja uma imaturidade. Agora, se eu não tivesse sido bem-sucedido como escritor, não sei se teria outra alternativa.

 

Bernardo Carvalho

 

Qual é o impacto da literatura em sua vida?

É o que me dá um sentido diferente de vida. Posso dizer que quase existo pela ficção. Ao mesmo tempo, acho que há um movimento natural do mundo que está fazendo com que as pessoas percam o interesse pela ficção. As pessoas estão tendo cada vez mais coragem de declarar que não leem mais ficção, que leem ensaios, por exemplo. Apesar disso, tenho uma militância contra esse movimento natural do mundo em preferir ensaios à ficção. Naturalmente, nos últimos anos, tomei mais gosto pelos ensaios, embora eu ache isso horrível, não queria que fosse assim. Acredito que a ficção demande um esforço e, sobretudo, uma espécie de pacto entre leitor e história, que é um pacto que foi meio deixado de lado depois de tanto sermos envolvidos por uma tradição realista. Mesmo a própria ficção, a gente tende a lê-la de uma forma mais realista. De toda forma, me considero um militante da ficção.

 

Michel Laub


Em sua opinião, a literatura pode influenciar a realidade?
Os livros têm impacto na vida pessoal sim. No início da carreira, como todo escritor que quer impressionar, sempre dizia que “literatura não serve pra nada, ninguém se importa e tal”. Mas, no mínimo, ela muda a vida de quem se propõe a ler. Se você passa a vida inteira escrevendo um livro, participando de debates, isso gera um efeito sobre o mundo, um mundo possível, o seu mundo. Claro que eu não estou interferindo na economia brasileira, mas estou mudando algo na minha vida, na vida de um leitor, de dez leitores, etc. Isso é mudar a realidade dentro de uma esfera possível.


Ronaldo Correia de Brito

 

Quando começou a escrever, qual era a sua expectativa?

O que eu mais queria na vida era ter leitores. É o que todo escritor deseja: ter leitores. Agora, um escritor precisa escrever aquilo que acredita. Tem que ter seu ritmo, seus experimentos com a linguagem, essa liberdade de escritor. Existe um desejo e existe uma exigência. Então, o desejo de ter leitores e a exigência de ser o escritor que você quer ser, que você deseja vir a ser. Imagine como foi difícil para o Guimarães Rosa fazer aquela escolha de construir uma língua. Também penso hoje como deve ser difícil de as pessoas lerem as obras de Guimarães Rosa em outros países: ele é intraduzível. Ao mesmo tempo, admiro e considero pertinente a existência de um escritor como o Luis Fernando Verissimo, que conquista tantos leitores e é tão agradável de ler. Hoje, há um grande impasse porque o escritor brasileiro está flertando com o mercado internacional e, nesse contexto, como um autor como Guimarães Rosa vai sobreviver se quiser inventar um idioma que é intraduzível?


Luiz Vilela


Por que você escreve?
Uai. Às vezes, penso comigo mesmo: por que comecei a escrever? Ligo isso também à questão da minha infância, porque eu brincava muito com uns bonequinhos. Acho que todo menino brincou com essas coisas. Mas, no meu caso, eu criava um mundo, fazia uma cidade, tentava reproduzir filmes que via no cinema da minha cidade. As histórias em quadrinho, lia pilhas de histórias em quadrinho. Assim que a adolescência foi chegando, naturalmente fui deixando aqueles brinquedos, e a literatura foi, de certa forma, o substituto dessas brincadeiras. Costumo dizer ainda que a literatura é o meu brinquedo de adulto.


Joca Terron


Você é leitor de autores pouco convencionais?

Gosto de uma literatura não muito certinha. Embora o Brasil tenha grande tradição literária, percebo que no período da ditadura, de 1967 até o começo da década de 1990, a literatura ficou em segundo, terceiro, quarto plano, sem condições de competir com outras expressões artísticas. A literatura brasileira não podia competir com o poder de mobilização política que, por exemplo, o teatro teve nos anos 1960, nem com a Tropicália. Quem realmente produziu obras que me atraíram, que me deixaram impressionado, foram autores como Manoel Carlos Karam, Valêncio Xavier, Paulo Leminski e o Jamil Snege, o mais desconhecido de todos, que ficou restrito a Curitiba por causa de sua recusa em ser publicado por uma grande editora. Apesar de ter surgido dessa literatura pós-modernista, sobretudo a francesa, na qual um dos destaques é o escritor Georges Perec, o Karam conseguiu desenvolver uma linguagem muito pessoal, com grande sentido de humor e um jeito de enxergar o absurdo da vida quase filosoficamente, engraçadíssimo. Dificilmente você fecha um livro do Karam e não fica pensando, e o grande autor é justamente o que consegue provocar esse efeito no leitor, a reflexão.

Marcelo Backes


Consegue encontrar pontos de contato entre a sua literatura e as obras dos autores alemães que leu?

Meu livro Estilhaços, de 2006, é de aforismos e epigramas, e tem muito a ver com a minha formação em literatura alemã. Mas, se você conferir o que há efetivamente de lirismo nesse livro, vai perceber que é uma lírica de índole mais filosófica, até mesmo combativa em certo sentido. Isso mostra que não sou um lírico de verdade, algo que nunca fui. Estudei muito e sei fazer versos, inclusive com rima e metro, mas sei que não sou um poeta essencial. Sempre tive uma índole mais narrativa. Já A arte do combate, de 2003, não é essencialmente um livro de escritor, por ser uma espécie de história subjetiva da literatura alemã sob o ponto de vista da briga, da agressão e do combate. No entanto, aquele livro já apresenta alguns indícios de vontade narrativa, uma noção minha de querer meter o bedelho e contar algumas coisas pessoais. Em 2006, publico então Estilhaços que, mesmo não sendo completamente ficcional, aponta para um caminho em direção à ficção. Maisquememória, de 2007, é ainda mais ficcionalizado. E, o livro mais recente, O último minuto, de 2013, é ainda mais ficcional do que Três traidores e uns outros, de 2010. Consigo fazer essa leitura hoje e não enquanto estava escrevendo. As interpretações sobre os meus livros são sempre feitas, por mim, posteriormente.

 

Fotos: Guilherme Pupo