Poemas | Marcos Prado

Que botijão a pariu?

1

gorda
dizem que me chamou de vagabundo
pela enésima vez
saiu banha dos meus olhos quando
soube
como escorre sua menstruação oleosa
e seu corrimento
meus olhos derreteram nesta tarde
por sua causa, porca máter
obesa
você me chama de vagabundo
de inútil e aproveitador
me conte uma história boa, suína
algo que justifique sua vida mesquinha
e que solte o seu rabo colesterolizado
gorducha
eu te conto uma história
que entra dentro de uma história
que explica uma história
que eu ainda não contei
como não conto com você, pelancuda

2

dragão
faço do teu nariz
tomada
do teu bafo
gasogênio
da tua bosta mole
metano
qual foi
o seu trabalho
neste mundo
javali fêmea?
onde estão os seus méritos?
fritando alguém?
refogando algo?
ensebando quem?

3

sou vagabundo
mas eu posso contar a sua história
bucho
placa de costela gorda
na boca de bebedor de cerveja
jogando truco
com o pessoal do almoxarifado
as estrias
a celulite
as cartucheirinhas
provam que você
trabalhou demais
coisa balofa



O dia em que o poeta descobriu que não estava morto entre uma pá de terra e outra

perdido, estou perdido / perdido o ritmo e a rima, perdido / nenhum achado, ideia, sentido / ando como se de nenhum lugar tenha saído por a lugar nenhum ter ido / se me aparecem símbolos, virgulo / se fatos, pontuo / não me sinto mais o coitado que bebeu o conteúdo / nem como o herói que não conseguiu se salvar, contudo / duvido de quem acredita na vida / detesto quem acha essa passagem um teste / falso quem acha tudo uma farsa e faz do mundo um pasto / estou entre quatro paredes em um universo infinito / cheio de verdades afasto a cortina e minto / conheço gente de todo o tipo / não sei o que é pobre, médio ou rico / alguns consideram caro serem ricos / outros uma graça serem pobres / dos médios, desisto / olhando para trás acho um desatino / ser ninguém meio a tanto destino / não modifiquei nada, nem mantive / sempre morri de rir de quem vive / a morte hoje comigo sobrevive / fugi de todos os compromissos com meus dois cérebros omissos / gostei de algumas pessoas de que esqueci o nome / odiei outras que desejaria além dele o sobrenome / quando passei bem, lembrei que deveria passar fome / é, eu não li a vida como você está vendo / não sou eu quem está escrevendo? / ainda bem que você não está lendo

cadela vira gata
alquimia
vira lata
(Roberto Prado e Marcos Prado

Marcos Prado nasceu e morreu em Curitiba (1961 — 1996). Foi poeta e compositor. Teve letras gravadas pelo grupo Beijo AA Força nos discos O que me quer o Brasil que me persegue (1987), Música ligeira nos países baixos (1993) e Sem suingue (1996). Parte de sua obra poética foi publicada na coletânea Ultralyrics (2006). Os poemas publicados pelo Cândido foram gentilmente cedidos por Roberto Prado, irmão do poeta.

Ilustração: Richard Biscof