Perfil do leitor | Carlos Lopes

Metal Conceitual

O líder da lendária banda Dorsal Atlântica revela o repertório literário por trás de suas “óperas thrash”


Omar Godoy


                                                                       Divulgação



Para a comunidade do rock, ele sempre será o “Vândalo”. O Carlos “Vândalo” Lopes da Dorsal Atlântica, lendária formação carioca que é sinônimo de pioneirismo — em vários sentidos. Fundada em 1981, foi uma das primeiras bandas nacionais a se assumir como heavy metal (e a lançar um “álbum cheio” do gênero). Também abriu as portas do mercado internacional para outros grupos pesados do país, inclusive o Sepultura. E o mais importante: gravou discos conceituais que passam longe da temática fantástica ou demoníaca comum ao estilo. 

Em registros como Searching for the light (1989), Musical guide from stellium (1992) e Imperium (2014), a Dorsal — como o trio é chamado pelos fãs — usa a urgência metálica a favor de narrativas sobre o Brasil. Fatos históricos, corrupção na política, Carnaval, injustiças sociais e violência urbana são alguns dos assuntos abordados nas chamadas “óperas thrash” do grupo. “Desenvolvi esse conceito para criar uma linguagem de rock pesado que retomasse a linha evolutiva de óperasrock como Tommy e Quadrophenia, do The Who. Mas tudo dentro da realidade brasileira”, explica o artista de 53 anos, que também tocou nos projetos Usina Le Blond e Mustang. 

Além de músico, Carlos Lopes é produtor, jornalista, escritor, quadrinista e estudioso das áreas de História, filosofia e parapsicologia. Isso explica a complexidade do repertório da banda, que acaba de lançar um DVD duplo, com direito a um documentário incluso, para comemorar os 35 anos de atividade. “Sofri bullying no colégio e me dividi entre me achar o ‘estranho’ ou ‘melhor do que os colegas que praticavam bullying’. Esse entendimento me levou a outras escolhas, como cinema de arte, política, quadrinhos e rock and roll. Isso foi me afastando da maioria dos colegas”, diz. 

A literatura também fez parte desse pacote de escolhas. Lopes conta que os pais não tinham o hábito da leitura, mas nunca deixavam de comprar um livro, se ele pedisse. “Li toda a série do Sítio do Pica-pau Amarelo, do Monteiro Lobato, comprada de um vendedor daqueles que batiam na porta de casa. Também lembro de pedir para um tio, e ganhar, três volumes da enciclopédia Tesouro da juventude, em que conheci o Barão de Münchhausen [personagem do escritor Rudolf Erich Raspe cujas aventuras exageradas foram baseadas em relatos de um militar e nobre alemão].” 

Ainda na infância, envolveu-se, como quase toda criança dos anos 1970, com os livros da coleção Vagalume, da editora Ática. Especialmente O escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, e Menino de asas, de Homero Homem — de quem foi vizinho de prédio. “Ele, por acaso, morava no andar embaixo do meu. Uma vez, candidatou-se a um cargo político em uma eleição e colocava as caixas de som na janela, tocando o jingle da campanha bem alto. Não era mole, não...”, diverte- se o artista, que ainda cita a série em fascículos Grandes personagens da nossa História como parte fundamental de sua formação. 

Um pouco mais velho, passou a se interessar por Machado de Assis. Lopes conta que odiava o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas na época do colégio, quando era obrigado a ler seus livros. Só compreendeu sua grandeza anos depois, e hoje o considera seu escritor favorito. Herman Hesse, do clássico o Lobo da estepe, é outro nome marcante em suas leituras. “Li na extinta revista de música Bizz que o Renato Russo, meu contemporâneo, também havia começado com o Hesse. Mas passou a ter um certo desprezo por ele depois de ter lido uma ‘literatura melhor’. Acho isso bobagem, uma coisa não exclui a outra”, afirma. 

No início dos anos 1980, já na faculdade de Jornalismo, o músico mergulhou em obras “de esquerda”, como As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano) e Para ler o Pato Donald: Comunicação de massa e colonialismo (Ariel Dorfman e Armand Mattelart). Segundo ele, foram “os livros certos para a época certa” — no caso, o final do regime militar do Brasil, que coincidiu com a criação da Dorsal Atlântica. Não à toa, Lopes é um dos primeiros entrevistados do conhecido documentário canadense Global Metal (2008), sobre a popularização da música pesada em países periféricos. Seu depoimento trata justamente da relação entre a ditadura e o surgimento do heavy metal no país. 

“Vi o Brasil ser modernizado com TV em cores, rádio FM, iogurte, frango desossado, leite longa vida... No entanto, nada mudou para melhor. Até já tentei desistir do formato de ‘ópera thrash’. Mas não dá, porque o país não progride desde a Guerra do Paraguai”, provoca. O próximo disco da banda, ele avisa, vai traçar paralelos entre o fim do período imperial, em 1889, e o impeachment da presidente Dilma Rousseff (processo que o artista classifica como “golpe de estado”). 

Enquanto compõe para o décimo álbum de estúdio da Dorsal, Carlos Lopes prepara o lançamento de um livro de quadrinhos com a história banda. Mas a graphic novel, produzida com recursos de uma campanha de financiamento coletivo pela internet, não será sua primeira incursão no mercado editorial. Além de trabalhar como subeditor da revista Rock Press no fim dos anos 1990, ele publicou os livros Guerrilha! (biografia oficial do grupo), Mágica vida mágica (relato de suas experiências com fenômenos parapsicológicos) e O Segredo J (ficção produzida a partir de um estudo sobre política e teorias conspiratórias). Sua “gaveta” ainda tem três romances inéditos, além de contos que costuma inscrever em concursos literários. 

Ou seja: não inclua Lopes no rol dos músicos brasileiros que se aventuraram pelas letras nos últimos anos (Dado Villa-Lobos, Marina Lima, Humberto Gessinger, Lobão, etc.). Para ele, a tendência pode ser apenas uma estratégia de marketing para lucrar em cima de quem já está em evidência na mídia. “Não sei se é genuíno. No meio musical há muita superficialidade, e isso explica o pouco aprofundamento das biografias nacionais. A obra é o reflexo do artista. Artista vazio, obra vazia.” 

Se for para ler autores contemporâneos, ele prefere Maria Valéria Rezende, Luiz Ruffato, Thomas Pynchon, David Foster Wallace, Michael Cunninghan e Chico Buarque — o único músico da lista, porém acima de qualquer suspeita. “Um livro do Chico Buarque é uma coisa, um da Maitê Proença é outra”, faz questão de frisar.