Perfil do Leitor | Sérgio Bianchi

Antileitor

O diretor de Cronicamente inviável e Os inquilinos já adaptou para as telas contos de Julio Cortázar e Machado de Assis, mas não se  considera um intelectual 


Omar Godoy


Quando foi procurado pela reportagem do Cândido, o cineasta Sérgio Bianchi, de 68 anos, apressou-se em dizer que não é um leitor intelectualizado. “Serei o primeiro analfabeto a participar dessa seção. Não tenho nenhuma erudição, sou completamente oco e óbvio”, afirmou, com seu humor sarcástico, que alguns podem confundir com grosseria.

É claro que ele estava exagerando. Durante a conversa, o autor de filmes como Cronicamente inviável (2000), Quanto vale ou é por quilo? (2005), Os inquilinos (2009) e Jogo das decapitações (2013) — todos marcados por altas doses de inquietação e niilismo — mostrou- se um leitor comum, do tipo que lê “o que cai na mão”, mas dono de um repertório consistente. “Sou de uma geração que ainda tem aquela cultura de ler a Folha e o Estadão de cabo a rabo todos os dias. E, antes de dormir, não consigo ficar sem ler pelo menos um pouco. Já me vi desesperado em quartos de hotéis, sem um livro na mala, apelando para a Bíblia ou o catálogo telefônico”, conta.

Nascido em Ponta Grossa (PR), filho e neto de fotógrafos, Bianchi não lembra de ver livros espalhados por sua casa. Durante a infância e adolescência, leu apenas o que a escola obrigava — e, mesmo assim, só se recorda de O pequeno príncipe e algumas obras de Monteiro Lobato. Só aos 18 anos, já vivendo em Curitiba, conheceu o primeiro autor que fez sua cabeça de verdade: Julio Cortázar. “Acho que li tudo dele na época. Aquilo me passava uma sensação de intimidade, como se eu já tivesse pensado naquelas histórias absurdas antes”, diz o diretor que em 1968 se transferiu para São Paulo, onde cursou Cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Não à toa, seus dois primeiros curtas-metragens foram baseados na obra do argentino. Tanto Omnibus (1972) quanto A segunda besta (1977) são inspirados em histórias de Bestiário, clássico livro de contos de Cortázar lançado em 1951. “Em seguida, procurei outros latino- americanos correlatos, como Gabriel García Márquez, mas não achei tão interessantes. Na verdade, eu ia seguindo as tendências do momento. Naquele tempo todo mundo gostava de Sartre, Huxley, etc. Li todos eles e nenhum ‘bateu’. Achava entediante”, admite.

Livros sobre cinema, só os de Paulo Emílio Sales Gomes, o grande pensador da produção nacional — e que foi seu professor na ECA, ao lado de figuras igualmente importantes como Roberto Santos e Jean-Claude Bernardet. “Eles criaram uma escola de vitalidade, em que os alunos praticamente já começavam rodando seus primeiros filmes experimentais. Os mais retardados, que não sabiam filmar, depois viraram professores e ajudaram a implantar essa burocracia que existe hoje no cinema do País”.

Da literatura brasileira, Bianchi se interessa por poucos autores. O amigo Caio Fernando Abreu, co-roteirista de Romance (seu filme de 1988), é uma dessas exceções. “Os livros dele refletiam muita coisa que acontecia na época”, afirma. O mesmo vale para Luiz Alfredo García Roza. “Ele faz o gênero policial, de entretenimento, que eu gosto muito, junto com ficção científica. Mas o trabalho dele é muito bem escrito, além de retratar perfeitamente o clima dos bairros do Rio de Janeiro”.

Seu autor preferido, e não só entre os brasileiros, é Machado de Assis. “Na verdade, é o único que realmente leio com emoção e prazer enormes”, diz. A exemplo do que fez com Cortázar, o cineasta usou a prosa machadiana como matéria-prima em dois filmes, ambos de longa-metragem: A causa secreta (1994), baseado no conto homônimo, e Quanto vale ou é por quilo?, cujo ponto de partida é a história “Pai contra mãe”.  “Gosto do Machado porque ele expunha com ironia, e uma certa crueldade, as contradições da sociedade brasileira, muitas delas ainda atuais. Sem contar que cada frase dele tem 32 coisas que fazem a gente pensar.”

No momento, Bianchi revela estar interessado em textos dos filósofos Slavoj Žižek e Hanna Arendt (“Bastante pertinentes com o que eu penso”), mas também investe em leituras para seu próximo projeto no cinema. Por sugestão de um amigo, começou Anti-Nelson Rodrigues, penúltima peça do dramaturgo, encenada pela primeira vez em 1974. “Disseram que eu deveria filmar essa história, mas ainda não sei se estou gostando”, confessa.

Coincidência ou não, Anti-Nelson Rodrigues foi escrita numa fase em que o autor de A vida como ela é se sentia um tanto desprestigiado pelo meio cultural. Mais ou menos como Bianchi se vê agora, passados alguns meses da estreia de Jogo das decapitações. Centrado numa denúncia contra parte da esquerda que se favoreceu da ditadura no Brasil, o filme foi desprezado pela crítica e fez pouquíssimos espectadores. “Sei que não sou comercial, mas já levei 100, 200 mil pessoas ao cinema em outros lançamentos. Desta vez, talvez não tenha levado nem 200. Me sinto marginalizado”, diz, com a franqueza de sempre.