Perfil do Leitor: Marcio Abreu

Das páginas para os palcos

Leitor precoce, o diretor Marcio Abreu tem em seu cânone pessoal escritores como Paulo Leminski e Julio Cortázar, autores cujas obras reverberaram em seu trabalho no teatro


Luiz Rebinski Junior

Em 2010, Marcio Abreu e sua Companhia Brasileira de Teatro cravaram definitivamente seus nomes na cena teatral nacional com a peça Vida. Escrita a partir da experiência de leitura de Abreu da obra de Paulo Leminski, a peça insere o rico universo de referências do poeta curitibano em um texto original, em que a cidade de Curitiba também é personagem. Além do reconhecimento nacional — a peça ganhou, entre outros, o Prêmio Bravo! de Melhor Espetáculo Teatral —, Vida é uma espécie de homenagem a um dos escritores que acompanharam o diretor a partir da adolescência. Mas, diferentemente da maioria dos leitores de Leminski, não foi a poesia do curitibano que seduziu o futuro dramaturgo e diretor. “Leminski é um marco. Aos 16 anos me deparei com as biografias que ele escreveu para a série Vida. A primeira que li foi a do Trotski. É engraçado, mas a poesia é o que menos me mobiliza no Leminski. Gosto mais da sua multiplicidade, o pensamento, a prosa, etc.”, diz o diretor, atualmente em temporada com a peça Esta criança, com Renata Sorrah reforçando o elenco da Companhia.

A descoberta de Leminski, ainda que impactante, não representou uma iniciação no mundo das letras. Aos 16 anos, Abreu já era leitor de longa data. Nascido no Rio de Janeiro, o diretor fez seu debute na leitura de ficção aos 5 anos, com os Os patins de prata, um clássico da literatura infantojuvenil escrito pela norte-americana Mary Mapes Dodge, em 1876. Ainda na infância, Abreu herdou a coleção de livros de Monteiro Lobato que havia sido de seu pai, um leitor compulsivo. 


Superada a fase infantojuvenil, de histórias amenas, o diretor se depara com a obra de Franz Kafka. Assim como Gregor Samsa, o personagem que de repente se vê transformado em um inseto, Abreu foi pego de assalto pela prosa cerebral e temas delirantes do escritor tcheco. “Não sei exatamente como cheguei ao Kafka. Li primeiramente A metamorfose e depois parti para os outros romances, como O castelo. O que também me marcou nessa fase foi a leitura dos latinoamericanos. Com 18 anos, lembro de ter lido Ficções, do Jorge Luis Borges, que me fez enxergar outros mundos.”


Borges seria então o elo para que outro argentino, Julio Cortázar, fizesse, para Abreu, a ponte entre a literatura e outras expressões artísticas. “Com o Cortázar, comecei a apreciar artes plásticas, o surrealismo, ouvir jazz.” 


A influência de Cortázar foi tamanha, que Abreu, a exemplo do que faria com Leminski em Vida, levou a sua experiência de leitura da obra do contista argentino para os palcos. Volta ao dia foi a primeira encenação da Companhia Brasileira de Teatro, em 2002, e discute temas recorrentes na obra de Cortázar, como liberdade e sonho. O título da peça faz referência a Volta ao dia em 80 mundos, um livro inclassificável do escritor argentino. “Um dia li uma frase no conto 'O perseguidor', que é uma homenagem libertária que o Cortázar faz ao pássaro do jazz Charlie Parker, e achei que devesse insistir na leitura da sua obra. Era 1999, e não foi nada difícil. Eu estava justamente encenando Adeus, Robinson!, um texto radiofônico do próprio Julio Cortázar. O ensejo da montagem foi um estímulo e, desde então, quase que diariamente, convivo com o imaginário torto, livre e assustadoramente real dos seus textos.”


Figuras influentes e cânones
Aluno do Colégio Bom Jesus, em Curitiba, Abreu encontrou em alguns professores, muitos deles padres, interlocutores cultos que o apresentaram a vários autores importantes. João Batista, um professor de religião afeito à filosofia, foi uma das pessoas que ajudaram Abreu a abrir o seu leque de referências, partindo então para a leitura dos filósofos existencialistas Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Abreu também cita o diretor e dramaturgo curitibano Raul Cruz, morto em 1993, como um interlocutor importante. “Apesar de não ter deixado nada publicado em livro, a leitura das peças dele foram marcantes para mim. Assim que cheguei a Curitiba, a primeira peça que vi foi Grato Maria Bueno. Curitiba, aliás, foi fundamental para mim, uma cidade muito literária, não só pela quantidade de escritores.”


Leitor caótico, o diretor diz que sempre foi pautado pelas referências que encontrava nos autores prediletos. Assim como Borges o levou a Cortázar, o autor de O jogo da amarelinha o levou a Clarice Lispector, William Faulkner e Anton Tchecov, que se mostrou uma descoberta tão fascinante quanto foi a de Cortázar. Além da obra em prosa, que Abreu considera “uma fonte inesgotável de sabedoria literária”, o autor russo, célebre pelos seus contos, leva vantagem no cânone pessoal de Abreu por ser também um dramaturgo cuja obra ainda ainda representa um desafio tanto para o público como para atores e diretores.


Junto com o autor de Tio Vânia, outros dramaturgos essenciais do teatro moderno, como Beckett, figuram entres os preferidos de Marcio Abreu. No Brasil, “não há como escapar de Nelson Rodrigues, ele é o nosso clássico”, diz. Igualmente como aconteceu com Leminski, de quem Abreu se diz mais admirador da prosa, foi o cronista Nelson Rodrigues que lhe despertou interesse. 


Entre os paranaenses, gosta do trabalho de Luci Collin e Manoel Carlos Karam, romancista que também produziu para o teatro no início de sua carreira. “É um escritor que admiro. A sua fase teatral me foi apresentada pela Nadja Naira, minha parceira na Companhia. Ela inclusive montou uma peça inspirada nos escritos dele.” 


Com uma rotina de leituras profissionais bastante intensa, Abreu admite que não consegue acompanhar tudo que o mercado editorial brasileiro produz hoje, mas que está sempre “ligado”. Mas diz que segue alguns escritores, como o angolano Gonçalo M. Tavares. “Tenho hoje uma quantidade muito grande de leitura profissional, então o deleite fica sempre comprometido. Não consigo ler tudo o que sai assim, no calor da hora, mas a literatura está em 100 % do que faço no teatro, e sou muito grato a ela por isso.”