Perfil do Leitor: Dico Kremer

Ler antes de clicar

Um dos mais requisitados fotógrafos do mercado, Dico Kremer é defensor da leitura como base para toda atividade profissional

Por Marcio Renato dos Santos

Dico Kremer acredita que um bom fotógrafo é, necessariamente, um leitor. Desde 1971 no mercado de fotografia profissional, o curitibano de 64 anos lê todos os dias. No sábado e no domingo, reserva mais de 12 horas para leitura. Tem cinco mil obras em uma sala do segundo andar de sua casa-estúdio, em Santa Felicidade, tradicional bairro de Curitiba. “Sou curioso”, define-se. E a curiosidade o faz se envolver com cinco, seis títulos ao mesmo tempo.

Dico lê sentado em uma poltrona e, se é surpreendido por alguma palavra ou expressão que desconhece, interrompe o fluxo da leitura, seja um romance de Enrique Vila-Matas ou um ensaio de Edmund Wilson. Levanta-se, caminha até uma das estantes e consulta os exemplares das enciclopédias que faz questão de conservar. Pesquisa na internet apenas se a Britânica e a Larousse forem insuficientes, o que, comenta o fotógrafo-leitor, não costuma acontecer.

Kremer lê e escreve em inglês, francês, italiano, japonês e espanhol — além do português. Coleciona dicionários desses seis idiomas e até de línguas que ainda não é fluente, como chinês e alemão.

Em janeiro deste ano, Dico recebeu a visita de um dos mais renomados fotógrafos do Leste Europeu, Antanas Sutkus. A conversa foi mediada por uma tradutora, mas Dico conseguiu captar uma e outra nuance do discurso do interlocutor, que se comunica em lituano e russo. Sutkus elogiou a sutileza e a elegância do trabalho do curitibano. Ele sorri ao lembrar as palavras do fotógrafo lituano, e admite que sua sensibilidade foi, e é, continuamente estimulada pela imersão no mundo
das palavras, aventura que teve início na primeira metade do século XX.

De bachianas e lobatianas
A infância do fotógrafo teve como trilha sonora Bach e obras de outros autores eruditos. O pai dele, Togo Kremer, um representante comercial, atravessava os fins de semana ao lado do toca-discos com livros e revistas nas mãos. A atitude paterna iria se repetir no filho: além da leitura, Dico é apreciador de música, em especial, da chamada clássica e de jazz.

O pequeno Kremer também escutava, a partir da voz de sua mãe, Maria Emília, hoje com 87 anos, enredos de livros que alimentavam o seu imaginário. Formou frases, começou a transitar pelo universo da palavra escrita. Alfabetizado, aos 6, 7 anos, leu a obra completa de Monteiro Lobato. E seguiu a ler, ininterruptamente.

A partir de agosto de 2012, Dico vai ministrar aulas em uma escola de fotografia, e pretende recomendar aos alunos a leitura de poesia e prosa. “A técnica fotográfica qualquer pessoa pode aprender em poucas horas. Mas o olhar, que faz toda a diferença, depende de outras questões. A leitura de ficção ajuda nesse aprimoramento”, diz.

Cineclubismo é para sempre
Durante a década de 1960, Kremer ouvia Beatles, Chico Buarque, Jimi Hendrix e canções da Bossa Nova, mas foi o cinema que o seduziu. Em um primeiro momento, os filmes norte-americanos exibidos nos Cine Ópera, Ritz e Avenida, todos em Curitiba. Os horizontes iriam se ampliar a partir do momento em que foi matriculado no Colégio Santa Maria. No Cine Clube Pró Arte, o futuro fotógrafo teve acesso a filmes europeus e a sua visão de mundo se transformou.

“Ler é importante por apresentar novas possibilidades de pensar. A literatura me transformou. E o cinema também. Eu não seria quem sou se não fossem os livros que li e os filmes que vi”, afirma.

Os cinéfilos e leitores críticos
Cláudio Lacerda, Luiz Geraldo Mazza, Carlos Alberto Pessôa, Lélio Sotto Maior e Aristides Vinholes eram garantia de reflexão nas sessões que tinham início quando os filmes terminavam. Naquele tempo, mais do que ver, era necessário discutir o que se via. Kremer conta que a sua formação se deve, e muito, àqueles bate-papos pós-filmes. Foi naquele contexto que ele conheceu um sujeito que viria a ser grande amigo e até hoje uma referência na literatura, com ressonância
em todo o Brasil: Paulo Leminski.

Janelas da alma
A década de 1970 seguia. Kremer entrou e saiu da universidade sem concluir o curso de Direito. Leminski escreveu e publicou Catatau (1976), longa narrativa em prosa. Os dois trocavam ideias e acenos, mas foi a publicidade que os aproximou. No intervalo entre um e outro job, o fotógrafo observou que o poeta ainda não tinha um livro de poesia, apesar da intensa e contínua produção. A partir de um acordo entre a agência de propaganda ZAP e uma gráfica, foi publicado Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase (1980), o primeiro livro de poemas de Leminski, editado por Kremer.

Ele gesticula ao comentar os livros de que mais gosta e relê, por exemplo, os 17 volumes da Comédia Humana, de Honoré de Balzac. Aponta com as duas mãos para um mapa que está uma das paredes de sua biblioteca. É de Dublin, cidade-cenário de Ulisses, de James Joyce. Dico leu o romance em inglês e as traduções de Antônio Houaiss e de Bernardina Pinheiro, e pretende conferir a mais recente, assinada por Caetano Galindo. “Gosto de cotejar o texto original com as traduções. Estou fazendo isso, agora, com Em busca do tempo perdido, de Cândido 31 Marcel Proust. A tradução feita por Mario Quintana é excelente”, diz.

De 1990 a 1997, viveu em Portugal e, apesar das solicitações profissionais, encontrou tempo para conhecer a literatura de José Saramago, António Lobo Antunes, Helder Macedo, Miguel Torga e outros nomes da ficção lusitana contemporânea. Também realizou um ensaio fotográfico sobre janelas portuguesas, que pode se transformar em livro e em exposição ainda em 2012.

A fotografia é profissão, e representa prazer, para Dico Kremer. Mas, se pudesse, passaria o tempo todo em meio a livros, com intervalos para música, filmes e, no máximo, algum outro enredo.