Para gostar de ler: Primeiras Leituras

Escritores e artistas contam como foram fisgados pela literatura e ensinam, na medida do possível, o caminho das pedras para se tornar um bom leitor


Omar Godoy

Ilustrações: Samuel Casal


São muitos os caminhos que levam um indivíduo a se envolver com os livros — e nenhum deles pode ser considerado correto ou infalível. Dos gibis da Turma da Mônica às histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, da crônica de Luís Fernando Verissimo ao livro-porrada do Bukowski, as portas de entrada para o universo literário estão sempre prontas para ser abertas. Há até quem diga que os títulos esotéricos e de autoajuda podem ir além do alento existencial que prometem ao público (e incentivar o hábito da leitura).

“O que não se deve fazer é demonizar o entretenimento como valor na literatura. Isso afasta, ainda mais, as pessoas dos livros”, afirma Felipe Pena, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de obras como Fábrica de diplomas e O marido perfeito mora ao lado, ele também é o organizador da recém-publicada coletânea de contos Geração subzero, que ressalta justamente a importância de uma produção literária mais popular e acessível.

Alfabetizado pelo avô, um imigrante espanhol que foi pedreiro no subúrbio carioca do Encantado, Pena lembra do primeiro livro que o capturou: O gênio do crime, cult infantil de João Carlos Marinho sobre um grupo de garotos em busca de uma figurinha difícil para completar um álbum. “Por outro lado, meu avô me proibia de ler Machado de Assis, dizia que era uma leitura muito difícil para crianças. Mas eu li assim mesmo, pouco tempo depois, o que prova que a proibição também pode ser um método pedagógico”, brinca.

Apesar de ter cursado doutorado e pós-doutorado em literatura, Pena diz que a grande lição aprendida na academia é a de não escrever de forma hermética. E cita o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov para expressar sua preocupação com a formação de leitores na contemporaneidade: “Ele disse que o perigo que ronda a literatura hoje em dia é o de não participar mais da formação afetiva das pessoas”.

Nesse sentido, é ponto pacífico que a escola não contribui efetivamente para que os alunos desenvolvam uma relação de afeto com os livros. “A verdade é que as crianças e os jovens passam a vida escolar inteira sendo afastados da literatura, que acaba se tornando uma disciplina tão aborrecida quanto química ou matemática”,diz Marcelo Mirisola, responsável por obras como Joana a contragosto, Proibidão e Memórias da sauna finlandesa, entre outras.

Para Mirisola, ninguém jamais deveria ser obrigado a ler os parnasianos e simbolistas — muito menos no período colegial. “A primeira experiência literária que me marcou profundamente aconteceu com Meninos da rua Paulo [clássica novela juvenil de Ferenc Molnár], que li aos 12 anos por causa da escola e nunca mais reli para não me decepcionar. Mas só fui me interessar por livros de novo lá pelos 20 anos, quando meu irmão apareceu em casa com o Pergunte ao pó (John Fante).”

Conhecido por livros como como Mãos de cavalo e Cordilheira, o escritor e tradutor Daniel Galera relata uma passagem de sua adolescência que exemplifica perfeitamente esse abismo entre o que se estuda no colégio e o que se lê por prazer. “Lembro de ler Cidade de Deus [Paulo Lins] meio escondido na parte de baixo da carteira enquanto a professora falava de literatura brasileira para o resto da turma”, diz Galera, que inclui os gibis da Disney e da Turma da Mônica entre suas leituras iniciais.

Galera ainda cita uma edição ilustrada de Pé de pilão, de Mário Quintana, como o primeiro livro que realmente o marcou. “É uma história de retorno para casa, protagonizada por um menino que é transformado em pato por uma bruxa. É cheio de acontecimentos bizarros e momentos de forte poesia. Não lembro bem por que emocionou, mas certamente havia um componente mítico na historinha, o tipo de estrutura narrativa que parece programada na consciência humana desde a infância.”

A poeta e crítica Mariana Ianelli também conta que, apesar das leituras obrigatórias da escola, só passou a ter prazer pela leitura quando descobriu a biblioteca da própria casa. Aos 14 anos, ficou balançada com obras de Cecília Meirelles e Mário de Andrade que encontrou na coleção da mãe. No entanto, um fato que nada tinha a ver com a literatura foi determinante em sua relação com os livros.
“Uma menina que era minha colega de escola, chamada Cassiana, morreu de uma crise de asma, e esse contato de perto com a morte de uma garota que tinha a minha idade acabou influenciando no meu recolhimento e me abrindo para esse caminho da leitura. A escrita também surgiu mais ou menos nessa época”, lembra.

Ou seja: as descobertas pessoais valem muito mais do que as indicações/imposições do currículo escolar. O problema é quando não se tem leitores na família, muito menos uma biblioteca por perto. É o caso de Paulo Lins, autor do já citado Cidade de deus e, mais recentemente, de Desde que o samba é samba.

Criado e educado em comunidades carentes no Rio de Janeiro, ele foi “salvo” por uma professora do ginásio que lhe emprestou Papillon, do francês Henri Charrière. “Eu tinha 13 anos e era o xodó dessa professora, que trouxe o livro da casa dela só para mim. Claro que adorei, era uma possibilidade de viajar para outros lugares sem sair do quarto”.

Lins, que também lecionou antes de se dedicar exclusivamente à carreira de autor, acredita que a principal função do professor de português não é ensinar gramática, e sim fazer o aluno ler. “Leitura precisa de incentivo, que nem esporte. Primeiro o garoto tenta, sai machucado do jogo, vai se desenvolvendo...”

Best-sellers
Mas e os títulos de autoajuda e esoterismo, que ficam dispostos na linha de frente das livrarias? Podem funcionar como portas de entrada para uma literatura mais consistente? “Quem lê esse tipo de livro não está interessado em literatura, e sim em resolver seus problemas. Nunca vi alguém partir desse tipo de leitura para outras mais profundas”, diz Paulo Lins.

Mirisola é radical. Para ele, os padres, gurus e espiritualistas roubam leitores dos grandes autores. “Nem por milagre, já que estamos falando do sobrenatural, um livro religioso abre portas para a literatura. Mesmo porque Dostoiéviski não vai salvar a vida de ninguém. O livro do Padre Marcelo vendeu mais de 7 milhões de cópias? Então são menos 7 milhões de pessoas que vão ler os meus livros.”

Mais moderado, Daniel Galera acredita que esses gêneros, digamos, “funcionais” podem facilitar o hábito da leitura, mas não a transição para uma produção literária de “critérios estéticos mais sofisticados”. “Algumas pessoas simplesmente não estão interessadas em literatura, e isso não vai mudar”, afirma.

Já a literatura fantasiosa, voltada para o público infantojuvenil e simbolizada pelo fenômeno global da série Harry Potter, é vista com simpatia pelos escritores entrevistados pelo Cândido. “Conheço muitos jovens leitores da produção contemporânea que começaram a ler justamente com Harry Potter e outras séries do gênero”, diz Galera.

Rodrigo Pena acredita que J.K. Rowling (criadora do bruxo de óculos) deu uma grande contribuição para formação de leitores mundo afora, enquanto Mariana Ianelli problematiza a questão. “No caso dos fenômenos de mercado, a pergunta que se coloca é: o que essa literatura pede do nosso esforço pessoal, da nossa própria fantasia? O que nesses livros tão populares pode se tornar o nosso livro, aquele livro que ninguém lê senão nós, com a nossa perspectiva íntima?”.

Problemática à parte, Paulo Lins prefere encerrar a discussão de modo prático. “Ao que parece, Harry Potter tem uma trama que envolve os jovens, que dá prazer em ler. Por isso está tendo essa vida longa. Literatura, antes de tudo, é entretenimento. Nós, os leitores mais críticos, que a complicamos.”