Para gostar de ler: Cantadas, vaga-lumes e outros passos

Coleções e séries já foram responsáveis pelo momento inicial de leitura de várias gerações de brasileiros


Marcio Renato dos Santos

Marcelo Rubens Paiva fez uma obra de ficção a partir de seu percurso.

Angelita Martens tinha entre 6 e 7 anos quando começou a ler, e o início desse hábito, que segue até hoje, foi por meio de uma coleção. Na realidade, a partir dos livros da “Série Vaga-lume”. A curitibana, hoje com 37 anos, era aluna na Escola Estadual Euzébio da Mota, no bairro do Xaxim, na capital paranaense, e uma professora de língua portuguesa costumava premiar quem fazia as tarefas de casa e os que obtinham as melhores notas. Para esses, havia acesso ao armário de livros, onde era possível encontrar O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, entre outros títulos da “Série Vaga-lume”.

O percurso de Angelina não é exceção. A “Série Vaga-lume” foi — e ainda é — porta de entrada para a leitura. O assunto, inclusive, é estudado na academia. Catia Toledo Mendonça defendeu, em 2006, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a tese de doutorado À sombra da Vagalume: análise e recepção da série. Ela aplicou 240 questionários em alunos do curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e as respostas apontaram que muitos aprenderam a gostar de ler, sobretudo literatura, com os livros da série.

Inaugurada com O mistério do cinco estrelas, de Marcos Rey, a “Vaga-lume” se consolidou durante os anos 1980. Catia explica que a série foi bem-sucedida porque reuniu livros que flertaram com o entretenimento, deixando de lado o viés pedagógico — característica de coleções produzidas anteriormente. “Essa mudança, do pedagógico rumo ao entretenimento, fez toda a diferença, e conquistou leitores. A heterogeneidade dos autores também foi responsável pelo sucesso da série. As obras da “Vaga-lume”, de fato, levam ao deleite”, afirma Catia, hoje com 57 anos, professora da Universidade Estadual do Paraná.

A especialista em leitura Marta Morais da Costa analisa que a “Série Vaga-lume” foi importante para dois públicos, o leitor inicial e os professores. “Até hoje, no século XXI, muitos citam a 'Vaga-lume' como ponto inicial de leitura. E a série ainda resolvia um dos maiores problemas para os professores, a seleção de textos de qualidade”, comenta Marta, professora na Universidade Federal do Paraná e integrante da cátedra Unesco de leitura PUC-Rio.

Caminhos
Uma das primeiras iniciativas para conquistar leitores no Brasil, ainda na primeira metade do século XX, foi da Livraria José Olympio Editora com as coleções “Documentos Brasileiros” e a “Série Brasiliana”. Monteiro Lobato, à frente da Companhia Editora Nacional, também viabilizou obras com a finalidade de fomentar a leitura.

Mas foi na década de 1980, mesmo período no qual a “Vaga-lume” vingou, que outras duas coleções repercutiram no imaginário dos leitores brasileiros. A coleção “Primeiros Passos”, da Editora Brasiliense — que retorna reformulada ao mercado em agosto —, apresentou a universitários e pré-universitários assuntos complexos de maneira didática. “Naquela época, a literatura teórica era um tanto inacessível, e a 'Primeiros Passos' surgiu oferecendo conteúdos relevantes com preços acessíveis”, comenta a professora Marta Morais da Costa.

Títulos como O que é cultura, de José Luiz dos Santos, O que é arte, de Jorge Coli, e O que é pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos, todos hits da “Primeiros Passos”, foram — e ainda são — usados em cursos da área de humanas. Autores que produziram para a coleção, como Marilena Chauí (O que é ideologia) e Teixeira Coelho (O que é indústria cultural) se tornaram referência em suas áreas de atuação.

Reinaldo Moraes: autor de Tanto faz, livro que se tornou símbolo da coleção “Cantadas Literárias”.

A “Cantadas Literárias”, outra coleção da Brasiliense, também seduziu corações e mentes. A proposta, na opinião de Marcelo Rubens Paiva, chacoalhou o mercado editorial brasileiro, até então amortecido pela ditadura militar. “Naquele momento, os escritores não se sentiam motivados a escrever obras que poderiam ser censuradas. As editoras enfrentavam um drama porque, se um censor vetasse um livro, todo investimento naquele projeto iria por água abaixo”, comenta Paiva.

Porcos com Asas (1981), de Marco Lombardo Radice e Lidia Ravera, e Tanto faz (1981), de Reinaldo Moraes, duas das primeiras obras da coleção, mostraram o propósito da “Cantadas Literárias”: sintonia com a realidade, meio beatnik, meio rock and roll, um tanto despojada e coloquial.

Caio Graco Prado, então editor da Brasiliense, encomendou a Marcelo Rubens Paiva um livro afinado com aquele zeitgeist. O resultado foi Feliz ano velho (1982), obra em que o autor faz uma releitura de sua trajetória e do acidente que o deixou tetraplégico. O livro teria dezenas de reedições, foi encenado, adaptado para o cinema e abriu caminho para Rubens Paiva no mercado editorial brasileiro.

À moda antiga

Apesar dos títulos da “Vaga-lume” continuarem disponíveis, as coleções já não provocam mais impacto como foram aqueles tremores de terra dos anos 1980. Faz tempo que não surgem séries arrasa-quarteirão. O que acontece no mercado editorial, a exemplo do que foi mencionado na matéria Vampiros e Malditos, são fenômenos cíclicos.

A professora Catia Toledo Mendonça observa que, nas mudanças de século, costumam acontecer, repetidamente, ondas místicas — e isso pode explicar a boa recepção de obras como Harry Potter, de J. K. Rowling, a reedição de O Senhor dos Anéis, escrito na primeira metade do século XX por J.R.R. Tolkien, e a saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer. “É uma tendência, que está durando 12 anos, uma vez que esse ciclo começou junto com o século XXI”, comenta Catia, que leu alguns desses títulos e não os considera literatura de qualidade. “Mas, como sempre digo, é melhor ler livros de vampiro do que ver o Domingão do Faustão. São obras de entretenimento e, numa dessas, podem despertar o interesse para a leitura de outros gêneros”, opina a professora doutora.

Angelina Martens entrou no universo da leitura a partir das obras da série “Vaga-lume”, graduou-se em Letras e fez especialização em Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e leitura na PUCPR. Ela não reclama da ausência de coleções que, de fato, seduzam leitores no tempo presente. Professora no Colégio Estadual Inêz Vicente Borocz, em Curitiba, recorre a uma prática que fez muita gente gostar de ler. Angelina seleciona textos e, uma vez por semana, lê — em voz alta — para os seus alunos, de 6 a 15 anos. “Hoje as famílias já não têm mais momentos de conversa. Por isso, procuro retomar, dentro da sala de aula, aquele tipo de diálogo no qual avó contava histórias para filhos e netos”, diz Angelina, a respeito das performances semanais que, ressalta, são bem recebidas pelos alunos — o que, para ela, pode ser um trampolim para uma vida de e com leitura.

Ilumina até a madrugada

Teixeira Coelho, autor de O que é indúsrtria cultural
Durante as aulas que leciona para os alunos do curso de Jornalismo, na Universidade Federal do Paraná (ufpr) e na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (puc-pr), Fernandes costuma citar Terezina Nicola Hubie como exemplo de alguém que se potencializou para a vida por meio da leitura. “Um leitor tende a desenvolver uma relação rica com a realidade, passando a emitir opiniões e se desviando, por exemplo, da ideia-força do fatalismo

E da alienação”, teoriza o jornalista. De fato, a paranaense nascida em Porto Amazonas nunca se contentou apenas com o que estava pronto diante de seu campo de visão, como o trecho navegável do Rio Iguaçu e a mata de Araucaria angustifolia. No Grupo Escolar Rocha Pombo, onde estudou até os 13 anos, ela começou a perceber que os livros podem viabilizar algo parecido com super-poderes. A professora de geografia falava sobre a escravidão no Brasil, citava Gabriel García Márquez e comentava clássicos do cinema norte-americano, como o longa-metragem Casablanca. Terezinha também sentia vontade de conhecer aqueles assuntos, e falar a respeito de tudo aquilo. “Aquela Professora estudava, lia, procurava saber. Segui o exemplo”, conta. Nascia, naquele momento, uma leitora. A roda-viva gira. Até os 19 anos, ela — após deixar a escola — trabalha em uma loja e depois no escritório de uma serraria. Então, casa com Arthur Hubie e, a partir de 1952, atua na área do turismo. São 60 anos na capital paranaense e, apesar dos compromissos do dia a dia, encontra tempo para ler. “A leitura é a melhor hora do dia”, confessa. A leitora de 81 anos diz reparar que as crianças deveriam ler mais, incluindo os seus dez netos. “Quem lê, percebe tudo com mais clareza e não se deixa enganar facilmente”, afirma a mulher que acompanha o Programa do Jô,

Lê jornais, livros de Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade e tem repertório para comentar a crise europeia, a pertinência da lanchonete popular do Aeroporto Afonso Pena e a sina do Coritiba em ser vice-campeão. Fernandes faz os últimos ajustes no texto da tese e, um tanto aliviado, diz que cumpriu o seu objetivo inicial, de apresentar o perfil de 12 leitores — conteúdo que pode dar pistas de como é possível, apesar de pedras no caminho, se tornar leitor. “Sem o aval da escola, eles prosseguiram na leitura, têm vida pública, são reconhecidos e respeitados em seus grupos, e agem sobre o mundo”, reflete o jornalista e futuro doutor.


 
O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida.
Clássico da literatura infantojuvenil no Brasil, marco da “Série Vaga-lume” e obra responsável pelo início da atividade de leitura como hábito existencial, O escaravelho do diabo tem na primeira camada uma trama policial. Em uma pacata cidade, inocentes são vítimas fatais de um assassino misterioso que, não satisfeito em matar, envia a seus alvos embrulhos que contêm um escaravelho — daí o título do best-seller. “Dentro da caixinha não havia besouro algum, mas, sim, um pedaço de papelão, de uns três centímetros mais ou menos, no qual se achava pintado, em aquarela, um escaravelho com dois chifres.” Eis um trecho, mínimo, mas suficiente para entender a pegada irresistível do texto de Lúcia Machado de Almeida.




O que é industria cultural, de Teixeira Coelho.
A coleção “Primeiros Passos”, da Editora Brasiliense, poderia se chamar Tudo o que você queria saber sobre determinado assunto, mas de forma clara. Afinal, os livros traziam, de maneira didática, informações básicas, por exemplo, sobre rock, ideologia, recessão, semiótica, umbanda e, no caso do livro assinado por Teixeira Coelho, indústria cultural — publicado originalmente em 1980. “Antes mesmo de iniciar-se qualquer processo de descrição do que vem a ser a indústria cultural, a primeira grande indagação que se quer ver respondida de imediato é: a indústria cultural é boa ou má para o homem, é adequada ou não ao desenvolvimento das potencialidades e projetos humanos?”. Com essa pergunta, abre-se uma obra que coloca todos os pingos nos is no assunto proposto.


Tanto faz, de Reinaldo Moraes.
Reinaldão, como o autor é conhecido, é um dos autores brasileiros que produz uma linguagem ágil, fluida e leve que beira o que pode ser chamado de liberdade. Em sua estreia, em 1981, com Tanto faz, ele consegue dar forma ao espírito daquele tempo, no qual havia expectativa pelo fim da ditadura militar, e o início de um tempo novo. “A cidade me excita todos os dias, como uma nova namorada”. Eis uma frase de seu livro, hoje um clássico da literatura brasileira contemporânea. Na obra original, publicada pela Editora Brasiliense, na coleção “Cantadas Literárias”, até a biografia do autor é leve, solta e provocante, como sua ficção: “Reinaldo Moraes é paulista da capital desde 1950. Tem verdadeira adoração por Fellini, pizza de muzzarella e vadiagem.”