Na biblioteca de José Carlos Fernandes

Uma biblioteca para o futuro




O cronista José Carlos Fernandes consome livros há quase três décadas. Ele mostra à reportagem do Cândido seu acervo, que revela a formação intelectual do jornalista que também estudou Filosofia, Literatura e História da Arte


Kaype Abreu

O jornalista José Carlos Fernandes começou a se interessar por livros ainda nos anos 1970. Hoje, aos 51 anos, estima ter perto de 2,5 mil títulos. O número, “chutado” por ele, pode parecer modesto para quem o conhece. Professor universitário, cronista e repórter especial do jornal Gazeta do Povo, Zeca, como também é conhecido, é aficionado por livros. É comum encontrá-lo na rua com uma sacola cheia deles, em geral usados como material de apoio às aulas que ministra na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Por isso mesmo, sua biblioteca pessoal é formada, em grande parte, por obras relacionadas ao seu interesse profissional. Com formação em Filosofia, Jornalismo, Literatura e História da Arte, Zeca é pródigo em “pensatas”. E tem uma sobre bibliotecas: “O acervo de livros revela muita coisa sobre a trajetória do dono.”

As primeiras lembranças de Zeca em relação aos livros são da infância, quando convivia com os clientes que frequentavam a banca de jornais da família, onde fascículos e enciclopédias eram artigos muito requisitados, uma espécie de febre editorial entre leitores no início dos anos 1970. A partir da adolescência, a ida ao seminário o colocou em contato com outras referências, mais ligadas às questões religiosas. Foi quando sentiu o desejo de ter seus próprios livros.

O Manual de redação do Estadão foi o primeiro livro que adquiriu após o período no seminário. É o marco-zero de sua biblioteca, que também conta com os exemplares que ganhou ainda na infância. “Mas a maior parte das obras eu comprei”, conta.

Apesar de a maioria do acervo estar ligada às demandas profissionais, de sala de aula, há muitos “livros afetivos”, como Zeca se refere aos chamados títulos de cabeceira. É o caso de A invenção do cotidiano, de Michel Certeau, que fala sobre a individualização na cultura de massa. Ou Chega de saudade, de Ruy Castro, que “conta a história da Bossa Nova de maneira íntima”.

Zeca ainda não leu todos os volumes que estão nas estantes. “Isso é um projeto para a velhice.” Quem sabe, no futuro, ele venha a usufruir de tudo o que está armazenando. Afinal, a leitura — o jornalista, professor e bibliófilo já falou em mais de uma ocasião — amplia os horizontes e, também, é um estímulo para a vida exterior e interior. “O escritor Alberto Manguel diz que em todo lugar tem um livro com uma página que foi escrita pra você.”


Declínio do homem público (1988), de Richard Sennett
Clássico da sociologia contemporânea, O declínio do homem público discorre sobre o desequilíbrio da civilização moderna e a relação entre vida pública e culto ao indivíduo e ao individualismo. “O Sennett é um autor que amo de paixão. Ele me ajuda a organizar a vida, a organizar valores. Compro tudo que sai dele. Volta e meia a gente ajuda um aluno a encontrar o seu autor. Tive um que encontrou o Sennet. Fiquei feliz”.

Questão de ênfase (2001), de Susan Sontag
Questão de ênfase é um livro de ensaios. Em um dos textos, Sontag fala da escrita como um mergulho num lago gelado”, conta José Carlos. A autora acreditava que reescrever e editar um texto era a parte ‘quente’, a mais prazerosa de todo o processo. “Ela rejeita essa ideia da escrita como sofrimento. Para ela, escrever é como provar do próprio pensamento. É o oposto do que eu faço — geralmente tenho uma relação mais sofrida com a escrita.”

O crepúsculo do macho (1980), de Fernando Gabeira
O crepúsculo do macho revelou um olhar diferente daquilo que a gente tinha sobre a luta armada até então. O Gabeira era um autor que não estava do lado que gente se acostumou a ouvir, o heróico, o da pessoa que havia ficado para enfrentar o regime ditatorial. Ele era alguém que havia repensado seu papel. E a gente estava repensando, no momento da anistia, o que tinha sido o exílio e a ditadura.

Manual do Peninha (1973)
“Esse é o culpado de tudo. O Manual do Peninha, que era o sobrinho jornalista do Tio Patinhas. Todo mundo lia e queria ser jornalista. Era aqui que a gente sabia da história do Império Romano e do Acta Diurna [primeiro jornal conhecido, criado por Júlio César em 69 a.C], por exemplo. Hoje, toda redação tem alguém que recebe o apelido de ‘Peninha’”.

PifPaf - Edição fac-símile (2005)
“Pifpaf foi o primeiro jornal alternativo do Brasil. E lançaram a edição fac-símile. Quando a gente achava que teria acesso a isso? Também tenho todas as edições da Bravo, Piauí e Vida Simples. Essa coisa do colecionismo é um clássico do nosso país. O brasileiro adora colecionar revista."

Menos que um (1986), de Joseph Brodsky
“Esse livro conta a história de um jovem na antiga União Soviética. O autor vai narrando a rotina dele nesse período. Uma família vivendo num quarto, sem cozinha e banheiro. Fui para a Rússia em 1997 para fazer um trabalho jornalístico. Queria conhecer melhor aquela sociedade e acabei lendo esse livro no avião, por indicação de um amigo.”

A invenção do cotidiano, de Michel de Certeau (1980)
“Se tivesse que levar um livro para uma ilha deserta, seria A invenção do cotidiano. Ele tem uma coisa parecida com a Bíblia. Há sempre uma nuance inesperada. O autor vai ajudando a gente a pensar naquilo que é real. O dia a dia, as relações com os objetos e com a vizinhança. Há uma matriz antropológica muito forte.”

Chega de saudade (1990), de Ruy Castro
“Nesse livro, que conta a história da Bossa Nova, o autor vai presenteando o leitor com a história que ele cultivou. Esse é o trabalho do jornalista: entregar tão bem uma história a ponto de o leitor poder contá-la como se fosse sua.”

Memórias de uma moça bem comportada (1958), de Simone de Beauvoir
“Na faculdade a gente estudava os filósofos, mas não sabia nada da vida deles. Para mim, talvez fosse mais fácil entendê-los a partir da intimidade. No caso da Simone, ela fala da relação com a mãe, da vida burguesa e de como se tornou sexualmente livre. Lembro da frase dela que marcou gerações: ‘É mais importante ser livre do que ser feliz.’"