Memória literária | 100 anos de Manoel de Barros

Retrato do artista quando poesia

Autor de temática e linguagem peculiares, o poeta Manoel de Barros tem a obra reeditada pela Alfaguara no centenário de seu nascimento e será homenageado em 2017 pela escola de samba carioca Império Serrano



Marcio Renato dos Santos

                                                                     Arquivo da família do autor

Manoel de Barros: poesia que proporciona retorno ao frescor original do discurso, próximo à infância.


Nas primeiras horas do dia 26 de fevereiro de 2017, a Império Serrano vai apresentar na Marquês de Sapucaí uma homenagem ao poeta Manoel de Barros (1916-2014). O enredo se chama “Meu quintal é maior do que o mundo”, título de uma antologia do autor, de 2015, organizada pela sua filha, Martha Barros. 

O carnavalesco da Império Serrano, Marcus Ferreira, afirma que os integrantes da escola de samba se entusiasmaram com a proposta, apesar de que amigos e conhecidos de Ferreira desconheciam o nome e a obra do poeta. “Vamos mostrar características da poesia dele, incluindo referências ao Pantanal”, diz Ferreira, em seu primeiro Carnaval na Império Serrano. 

A filha do poeta, Martha, aprova a homenagem e acredita que a iniciativa da escola de samba carioca deve se traduzir em mais visibilidade para o legado de seu pai. Este ano, se estivesse vivo, Barros completaria 100 anos no dia 19 de dezembro, data que já está sendo celebrada: os Correios lançaram um selo comemorativo e a Alfaguara reedita a obra do autor [mais informações na página 9]. 

A professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Leila de Aguiar Costa diz que o legado do poeta se caracteriza, entre outras nuances, por uma “dicção bastante rompedora”. “Barros entende que a linguagem, tomada em seu aparato canônico, gramaticalizado, não é mais capaz de dar conta do necessário contato com o mundo. O artista, então, põe em cena uma poética que se dará como tarefa escapar à maldição de uma linguagem que distorce o laço entre os três polos do signo, abolindo a relação entre significante/significado de um lado, e referente de outro”, analisa Leila. 

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luís Augusto Fischer acredita que Barros tem um lugar particular na literatura brasileira — por causa do “bom manejo da linguagem”, que estabelece pequenos e delicados paradoxos, o que resulta em um “pequeno e delicado deslumbramento do leitor”. De acordo com Fischer, Barros estaria entre os 40 pré-convocados para uma seleção brasileira de poetas, mas não conquistaria vaga entre os 11 titulares.

“É possível dizer que um autor é de primeiro plano quando impacta a língua em que escreve de modo irreversível por haver produzido obra ampla, abrangente, com alguma vocação para falar a todos, e isso eu creio que o Manoel de Barros não tem, ao menos em um sentido importante: sendo um poeta marcante, ele o é em apenas uma dimensão. O lirismo dele tem algo de regressivo, de negador da razão, mas com uma temática relativamente acanhada”, argumenta o estudioso gaúcho. 


Miséria crítica 
Leila de Aguiar Costa, ao contrário de Luís Augusto Fischer, faz uma avaliação extremamente positiva da poesia de Barros. “Seria uma aberração — e uma injustiça — deixar de considerar a relevância da poesia de Manoel de Barros no cenário poético contemporâneo. Para além de sua recusa em trabalhar com um discurso já instituído, seus textos propõem o que mais parece ser a chave para a compreensão de sua obra como um todo orgânico: o retorno ao frescor original do discurso, próximo à infância — que é infância das palavras”, comenta Leila. 

A professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lucia Castello Branco afirma que a obra de Barros ainda não foi devidamente lida e avaliada pela crítica literária. “Ele recebeu mais atenção da crítica jornalística, que o lê apressadamente, muitas vezes rotulando-o, apenas, como o poeta do pantanal”, diz a estudiosa. No início da década de 1980, ela escreveu um ensaio a respeito da obra do poeta, publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais. Barros leu o texto e enviou uma carta para Lucia — que receberia dezenas de outras cartas do autor.

 “Ele era tímido. Não frequentava o circuito de badalação literária e isso contribuiu, um pouco, para que a sua obra não fosse mais divulgada e ‘abençoada’ pela academia. O Manoel dizia, brincando, que, ao invés de fortuna crítica, tinha miséria crítica”, diz Lucia, que conheceu o poeta — inclusive, em parceria com Gabriel Sanna, realizou um longa-metragem, Língua de brincar, sobre a trajetória do artista. 

Infância, pedra e desrazão
A professora Leila de Aguiar Costa lamenta que o “panteão” dos poetas brasileiros, onde figuram, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, seja tão “seletivo” e tenha as portas fechadas para Manoel de Barros — apesar de que o autor já foi reconhecido, por exemplo, com o Prêmio Jabuti em 1990, na categoria poesia, pelo livro O guardador de águas (1989), e em 2002, na categoria livro de ficção, com O fazedor de amanhecer (2001), além de ter conquistado prêmios da Academia Brasileira de Letras (ABL), da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), entre outras instituições. 

A poesia de Barros, enfatiza a pesquisadora da Unifesp, apresenta características que comprovam a sua qualidade, seja a desconstrução da lógica, a recorrente imagem da pedra — que no entendimento de Leila representa o fundamento, o solo, o lugar da poesia, e a imagem da criança — para a estudiosa, esta questão diz respeito à “cena da escrita”: “cena de um antes-da-linguagem que é a língua das/de crianças, antes de toda nominação, de toda atribuição de signos arbitrários, antes de toda tagarelice.” 

Doutoranda em Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Renata Lisbôa analisa que o artista tem como marca registrada a invenção e a imaginação. Em diálogo com Leila de Aguiar Costa, Renata destaca a temática da infância na poesia do autor. “Ele reimagina a sua infância convidando o leitor a fazer o mesmo, fornecendo a chave para abrir essa porta dentro de si, do seu ser. A infância é essa fonte que renova o ser, que revitaliza o psiquismo e permite que o mundo de cada um possa ser maior do que já é”, diz Renata, que ainda observa: “Barros concilia o inconciliável. Ele dispensa a razão. O que ele quer é a força mágica das palavras, essa que o atrai irresistivelmente, porque o enriquece.”





Bernardo e companhia
Luciene Lemos de Campos observa que a poesia de Barros recria, reconfigura e ressignifica figuras populares da região fronteiriça de Corumbá (MS), principalmente andarilhos, desvalidos, trastes e maltrapilhos, a exemplo do que se lê no poema “Joaquim Sapé”, do livro Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001): “Os ornamentos de trapo de Joaquim Sapé já estavam/ criando cabelo de tão sujos./ Joaquim atravessava as ruelas da Aldeia como se fosse/ um Príncipe/ Com aqueles ornamentos de trapo./ Quando entrava na Aldeia com o saco de lata às/ costas/ Crianças o arrodeavam./ Um dia me falou, esse andarilho (eu era criança):/ — Quando chove nos braços de uma formiga, o/ horizonte diminui.” 

Ela estudou o assunto em sua dissertação de mestrado “A mendiga e o andarilho: a representação poética de figuras populares nas fronteiras de Manoel de Barros”, defendida na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). A pesquisadora, atualmente lecionando Língua Portuguesa no Ensino Médio em Três Lagoas (MS), também destaca Bernardo, personagem presente na obra do poeta, recriação de um sujeito com quem o autor conviveu. Um dos poemas do livro O guardador de águas (1989) traz uma síntese do personagem que, segundo autor, era capaz de “esticar o horizonte”: “Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento./ Ele faz encurtamento de águas./ Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros/ Até que as águas se ajoelhem/ Do tamanho de uma lagarta nos vidros.”

                                                                        Arquivo da família do autor
 

Erudito popular
Lucia Castello Branco chama atenção para o fato de que, por ser considerado um poeta popular, “muita gente” se esquece ou omite o repertório sofisticado de Barros, que provocou impacto em sua obra. A professora da UFMG lembra de ter conversado com Barros a respeito de alguns autores, dos quais ele conhecia a obra em profundidade, como Fernando Pessoa, Francis Ponge, Padre Vieira, Martin Heidegger e, principalmente, Máriode Andrade — “de quem ele admirava a poesia”, acrescenta. 

Leila de Aguiar Costa analisa que Barros dialogou não apenas com autores, poetas e ficcionistas, mas também com artista como Van Gogh. “Um Van Gogh dodelírio, do delírio da imagem, do delírio da visão, do delírio da representação”, diz a professora da Unifesp — e, de fato, poemas do autor mencionam pintores, como Picasso e Modigliani. 

De acordo com Leila, o tema “inutilidade da poesia”, uma questão para Barros, o aproxima, entre outros, de Paulo Leminski, que definiu a poesia como “inutensílio”. O poeta Arthur Rimbaud também é, de acordo com especialista da Unifesp, outro autor com quem Barros dialogou artisticamente: “aquele Rimbaud que se recusa a aceitar ‘as velhas fanfarras do heroísmo’.” Já Luís Augusto Fischer tem a impressão de que, em sentido mais geral, Barros é da mesma “família” do Mário Quintana: “pela singeleza, pelo apelo à desrazão, pela busca de um afastamento do mundo racional e adulto em favor de um mundo pré ou anti-racional, encantador, mágico.