Memória | O moderno Romeu

O engenheiro que projetou o atual prédio da Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba, faleceu no último mês de maio, aos 90 anos. Ele foi um dos pioneiros do estilo arquitetônico modernista que marcou a paisagem curitibana

Thiago Lavado

Curitiba perdeu um dos nomes mais relevantes da arquitetura local. Romeu Paulo da Costa, que faleceu no último dia 3 de maio, projetou o atual prédio da Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba. O engenheiro foi um expoente do modernismo na arquitetura do Paraná, ajudando a introduzir o movimento na paisagem da capital em uma época em que as ideias modernistas eram bastante incipientes na arquitetura brasileira.



“O Bento Munhoz da Rocha Neto, governador do Paraná nos anos 1950, utilizou a arquitetura para mostrar o bom momento do Estado. O Romeu, junto com seu parceiro profissional, Rubens Meister, estava na hora certa  e no lugar certo. Os dois souberam ser aproveitados e usar o conhecimento que tinham”, diz o historiador Marcelo Sutil, autor da biografia Romeu Paulo  da Costa: vida e obra.

Romeu foi o criador de projetos que hoje estão fortemente integrados na paisagem da cidade e no imaginário dos curitibanos, como o Edifício Marumby, na Praça Santos  Andrade. Mas foi com as obras públicas que projetou que Romeu deixou seu nome marcado na  arquitetura da cidade. Ele foi responsável pelos projetos do Teatro Guaíra (junto com Meister) e do  Grupo Escolar Barão do Rio Branco, entre muitos outros.

Mas é a Biblioteca Publica do Paraná sua  maior obra e a que mais evoca o modernismo da década de 1950. Construída em apenas oito  meses, foi o único prédio a ficar pronto para as comemorações  do centenário em 1953. “Ele trabalhava praticamente ao lado do canteiro de obras. Assim que um desenho era finalizado, passava para a mesa seguinte para os detalhes e dali para o canteiro de obras. Tudo a toque de caixa”, explica Sutil. Para melhorar o projeto, Romeu viajou até o Rio de Janeiro, onde entrevistou bibliotecárias, como Lydia de Queiroz Sambaqui, autoridade nacional na área de biblioteconomia, que o ajudou a estabelecer diversos detalhes da estrutura e do funcionamento da futura BPP, que seria a primeira biblioteca do país em que o usuário escolhia pessoalmente os livros nas estantes, como em livrarias.

 

Formação profissional

Nascido em 25 de janeiro de 1924, Romeu Paulo da Costa era formado em Engenharia Civil desde 1948. Romeu demostrou interesse e talento para o desenho desde muito jovem. No colégio Bom Jesus, ainda menino, conheceu o amigo Rubens Meister, de quem se tornaria companheiro de profissão.

O primeiro emprego de Romeu foi em uma chapelaria, onde o jovem aprendiz fazia entregas e desenhava preços. Da chapelaria foi para uma loja de tinta e, de lá, para uma oficina de arte mobiliária. Ali foi designado como um dos responsáveis pela fabricação dos móveis. Já nessa época, a carreira estava definida.

Em um tempo em que o curso de arquitetura ainda não existia em Curitiba, a engenharia era o meio mais promissor para quem queria desenvolver grandes projetos. Foi então o caminho que Romeu seguiu a partir da década de 1940, quando o movimento da arquitetura moderna começou a aparecer mais na cidade. A amizade com Rubens Meister se mostrou frutífera, pois o processo de aprendizado era menos acadêmico e mais prático na época. “Foi algo [a aprendizagem] muito autodidata. Eles corriam muito atrás de informação, principalmente por meio de periódicos de arquitetura que vinham da Argentina, Europa, Alemanha e Estados Unidos. Essas revistas eram muito importantes para a formação desses profissionais”, relata o biógrafo Marcelo Sutil. O próprio Romeu afirmava que “se aprendia arquitetura no dia a dia, ao vivo, fazendo. Estudo era só livro e revistas. Professores não”.



Na década de 1960, Romeu viajou à França, onde obteve bolsa de estudos e uma oportunidade de estágio. Lá, pôde aprender mais sobre a concepção de novos espaços, com ênfase na construção de escolas. Essas novas ideias o ajudaram na criação e inovação de várias escolas enquanto  trabalhava na Secretaria de Obras Públicas do Estado, onde concebeu uma de suas obras mais célebres, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco.“Ele conseguiu reformular o conceito de projetos  arquitetônicos escolares nessa época em que trabalhou para o Estado”, explica Sutil.

Junto do amigo  Rubens Meister, Romeu também foi professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, que ele ajudou a fundar em 1962. Deu aulas de arquitetura durante 35 anos. Era ainda aficionado  por fotografia: sempre com uma máquina a tira-colo, pronto para fazer cliques da família durante as  viagens. Também se mostrou artista plástico, angariando para si o título de “expressionista abstrato”.  Romeu chegou, inclusive, a expor sua produção artística na BPP.

Fotos: Acervo/Romeu Paulo da Costa