Memória Literária | Mario Quintana

Mais moderno que os modernos

Publicado há 40 anos, A vaca e o hipogrifo marca a volta de Mario Quintana aos poemas inéditos e o momento a partir do qual a sua poesia passa a ser reconhecida em âmbito nacional

Marcio Renato dos Santos

Após a publicação da antologia Poesias, em 1962, pela editora Globo de Porto Alegre, Mario Quintana (1906-1994) passou a republicar poemas — ele já contava com seis obras autorais. Os inéditos reaparecem em A vaca e o hipogrifo (1977), livro por meio do qual o poeta retoma a sua carreira literária. O professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Altair Martins comenta que A vaca e o hipogrifo reúne um conjunto de textos “mais leves”, deslocado de seu tempo para o nosso. Ele diz admirar, entre outros, o poema “Do estilo”: “Se alguém acha que está escrevendo muito bem, desconfia.../ O crime perfeito não deixa vestígios.”

Para Martins, o texto poético tem a cara dos dias atuais, “quando encurtar parece favorecer a comunicação”. “Na época, Quintana já havia conquistado o poder de ponta de agulha. O livro, maduro como veio, acabou comprovando isso”, completa Martins, também escritor, vencedor dos prêmios São Paulo de Literatura e Moacyr Scliar — o seu romance mais recente é Terra avulsa (2014).

A vaca e o hipogrifo traz, a exemplo do texto citado por Altair Martins, outros poemas breves, com “a cara dos dias atuais”, inclusive pelo fato de que eles podem vir a ser postados em redes sociais — alguns deles de fato repercutem no Facebook e no Twitter. Um exemplo é “De leve”: “Será que uma verdadeira sociedade precisa mesmo de cronista social?”. Ou “Lazer”: “Um bom lazer, mesmo, é não assistir a esses cursos sobre lazer”. A ironia e o humor presentes nos poemas já citados se repetem ao longo da obra, como em “Verbete”: “Autodidata. — Ignorante por conta própria”. E ainda em “Clarividência”: “O poema é uma bola de cristal. Se apenas enxergares nele o teu nariz, não culpes o mágico.”

A vaca e o hipogrifo também tem poemas longos e, de acordo com a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Regina Zilberman, o livro marca o momento a partir do qual Quintana passa — de fato — a ser festejado, inclusive em âmbito nacional. Em 1980, ele recebe o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Dois anos depois, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) concede ao poeta o título de Doutor Honoris Causa. Em 1986, é escolhido patrono da Feira do Livro de Porto Alegre.

“Em Porto Alegre, ele assistiu à própria glorificação, guardadas às proporções, como se fosse um Justin Bieber. Mas Quintana tinha humor, ironia e evidentemente inteligência para entender que o sucesso é fugaz”, afirma Regina Zilberman.

                                                                                                                               Eneida Serrano


Soneto é um barato!
Quintana estreou como poeta em 1940, com o livro A rua dos cataventos. Regina Zilberman salienta que o livro não teve ressonância, a não ser em um círculo de escritores e amigos. Naquele contexto, o poeta trabalhava na editora Globo e fazia traduções, entre outros, de Giovanni Papini (Palavras e sangue), Fred Masyat (O navio fantasma), Alessandro Varaldo (Gata persa) e Joseph Conrad (Lord Jim) — Quintana ainda iria traduzir, entre outros autores e obras, Guy de Maupassant (Contos), Virgínia Woolf (Mrs. Dalloway) e Marcel Proust (A sombra das raparigas em flor e O caminho de Guermantes — ambos da série de sete romances “Em busca do tempo perdido”).

“Ele estreou com sonetos por ter um apreço pelos simbolistas”, explica a professora da UFRGS, acrescentando que Quintana é um dos principais sonetistas brasileiros do século XX: “O Quintana usou o soneto, tido como refinado, para recriar sons da rua e do cotidiano. Qualquer leitor curte um soneto dele.”

O professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Pedro Marques também é um entusiasta do Quintana sonetista. Para comentar o assunto, o especialista pede para que o segundo poema de A rua dos Cataventos, “II”, seja reproduzido na reportagem:

Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...

De acordo com Marques, a versificação do poema “II” repercute como música, não como cárcere. “Os decassílabos correm entre sáficos e heroicos. A leitura flui”, comenta. O soneto, lembra o professor da Unifesp, é das formas líricas mais racionais, sobretudo na maneira de dispor a matéria: exposição maior (primeiro quarteto), específica (segundo quarteto), conclusão (tercetos) e chave de ouro (último verso como arremate). “Nisso, Quintana é clássico. A parte acústica, no entanto, prepara uma festa de assonâncias, aliterações, refrão (‘dorme ruazinha’) e paralelismos. Diminutivos são pedais carregados de infantilização e familiaridade. O contorno musical harmoniza-se à matéria”, analisa.

Lançando mão do carrancudo soneto, na definição de Marques, “bicho papão dos iniciantes”, o poeta planta na forma um estranho acalanto. “Primeiro, embala um ser inanimado: a rua. Segundo, ela é a própria área do medo, do inesperado, do perigo. Ou seja, nina-se a ameaça e não a criança, como esperado”, diz, acrescentando que são as pessoas quem põem em risco a rua (ladrões e guarda).

Já o poeta, pondera o pesquisador, trata a rua como ente querido: “Feita parente, diz que a visitará como ‘futura assombração’.” Para Marques, a rua — enfim — lida bem com o sobrenatural criado pelos adultos para assustar a meninada: “Recriar a musicalidade da métrica tradicional é um dos gestos modernistas. Ou seja, a renovação ocorre por fora, com o verso livre, mas também por dentro.”

Dom de estilo
No texto de apresentação de Apontamentos de história sobrenatural (1976), livro que reúne poemas publicados anteriormente, Quintana afirma: “O fato é que nunca evoluí. Fui sempre eu mesmo.” Apesar de a frase sugerir uma brincadeira, não poucas vozes da crítica levaram o enunciado a sério — com uma conotação negativa. Altair Martins reconhece que Quintana sempre foi o mesmo. “Mas ele evoluiu, com certeza”, completa. 

O professor da PUCRS observa que Quintana surge com os sonetos de A rua dos Cataventos (1940), segue com Canções (1946), “o livro de que menos gosto, musical mas enjoativo” e, em 1948, publica Sapato florido — “uma imagem que já estava num dos sonetos do primeiro livro”. “Neste livro (Sapato florido), os poemas ficam curtos, e ele passa a explorar o que a liberdade lhe permite — epigramas, haicais, poemas em prosa. Ele foi o mesmo, mas soube descobrir-se de formas diversas. Olhe o livro Velório sem defunto (1990) e perceba os poemas deitados na horizontal, como mortos. É espetacular!”, comenta Martins.

O professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) Leo Cunha tem a convicção de que a maioria dos autores se repetem — e não apenas Mario Quintana. Cunha cita Manoel de Barros: “Repetir repetir — até ficar diferente./ Repetir é um dom do estilo.” “A exemplo do que o poema de Barros sugere, em Mario Quintana a repetição é um recurso de estilo. Mais que repetir, ele retoma e recria as ideias em torno dos mesmos temas, cada vez com uma luz bem diferente”, analisa.

Dialogando com a argumentação de Leo Cunha, Pedro Marques diz que todo escritor, visto muito de perto, é repetitivo — até quando a sua sede por inovação se faz constante e acaba deixando de surpreender, uma vez que o leitor passa a antecipar os rumos da obra. “A crítica brasileira tendeu a valorizar rupturas e não continuidades. Hoje, os estudos literários já sabem lidar melhor com o valor de ambas”, observa o professor da Unifesp.

Para Marques, Quintana é um excelente continuador de tradições, de poetas anteriores e contemporâneos. “Ele não inaugura linguagens, ele as desenvolve. Isso não é pouco. Não quer dizer, inclusive, que repita os outros, mas que os atualiza ao seu modo, com autoridade de quem sabe o que faz”, afirma.

Altair Martins lembra que, além das repetição, a crítica aponta como fragilidade na obra de Quintana certa indiferença às questões político-sociais. “Acusado de ausentar-se do social, o poeta rebateu: o que havia de mais social do que o homem? É, pois, sobre o ser humano, aquele que vai ao mercado, que sofre e que ri, que Quintana escreveu”, argumenta o professor da PUCRS. 
 
                     Eneida Serrano


Tempo cotidiano
Leo Cunha aponta o tempo como o grande tema dos 16 livros que Quintana publicou, incluindo ainda o póstumo Água: os últimos textos de Mario Quintana (2001). O tempo, enfatiza o professor do UniBH, que inclui questões como envelhecimento, saudade, infância, pressa e preguiça. Cunha acrescenta que o fazer poético também está presente no legado do autor gaúcho.

Altair Martins também ressalta que Quintana foi um poeta obcecado pela própria poesia, “pela mística que as palavras nos proporcionam de nos permitir ver o que só a linguagem mostra”. Mas, continua o professor da PUCRS, Quintana também foi o poeta do cotidiano e, por causa disso, era andarilho. “Costumava colecionar cenas, frases, de longos passeios, sobretudo a pé. Daí emerge seu paradoxo de manusear a ironia e a ternura. Sempre foi visto pela crítica como um poeta voltado para as questões da subjetividade”, afirma Martins, sem deixar de apontar que, junto com Manuel Bandeira, Quintana foi um dos poetas que mais soube eliminar o equívoco entre poesia e povo.

Pedro Marques apresenta poemas de Quintana aos seus alunos da Unifesp, principalmente quando é necessário conhecer o panorama literário do século XX. De acordo com o professor, os estudantes gostam dos textos poéticos do autor. “Sobretudo porque não os coajo a hierarquizar os poetas em ‘grupos de elite’ ou ‘grupos de acesso’ do modernismos brasileiro”, comenta. Marques conta que a poesia de Quintana mobiliza os alunos, menos ou mais até do que a dos autores que a crítica tradicional impõe como centrais, como Bandeira ou João Cabral de Melo Neto: “São os alunos quem decidem aqueles que mais os tocam.”

A relação de Quintana com o cânone da poesia brasileira não é mero detalhe. “Sempre há um nariz torto a exigir do Quintana que ele fosse Carlos Drummond de Andrade ou que tivesse alguma coisa do João Cabral de Melo Neto. Mas Quintana é único e natural”, analisa Altair Martins. Para ele, talvez a naturalidade e a espontaneidade da poesia do autor sejam alguns dos fatores conquistam leitores até hoje. “É estranho: o que Quintana ajudou a construir — essa poesia que religa leitor e poema — parece ser justamente o que o barra muitas vezes dos estudos acadêmicos. Mas a poesia dele, sempre ela, é vingadora: bate para entrar por várias portas”, analisa.  

Regina Zilberman comenta que, principalmente no Rio Grande do Sul, há uma admiração pela obra de Quintana que beira a idolatria. Ela tem a impressão de que se fosse realizada uma consulta popular, entre os leitores gaúchos, para saber quem é o autor mais popular, Quintana seria o vencedor. “Por muitos motivos. Ele era mais moderno que os modernos. Estreou com sonetos e, quando quis, escreveu poemas modernistas. Quintana fez poema em prosa com melodia, mas sem rima, como se aquele texto não tivesse cara de poesia”, explica a estudiosa.

Esconderijos do tempo

Ainda não foi escrita uma biografia do Mario Quintana. A professora da UFRGS Regina Zilberman afirma que o legado do poeta está por ser mapeado. Ele nasce em Alegrete (RS) no dia 30 de julho de 1906. Termina os estudos no Colégio Militar de Porto Alegre e, aos 18 anos, começa a trabalhar na Livraria do Globo.

Perde a mãe, Virgínia, em 1926 e, no ano seguinte, o seu pai, Celso de Oliveira Quintana, morre. Trabalha como tradutor assalariado na Editora Globo. Estreia como poeta em 1940 com A rua dos cataventos, livro de sonetos publicado pela empresa onde atua.

Em 1943, inicia a publicação de Do caderno H na Revista Província de São Pedro — dez anos depois se transfere para o jornal Correio do Povo. Em 1973, publica o livro Caderno H, reunindo textos veiculados na imprensa. O professor da PUCRS e escritor Altair Martins observa que a poesia de Quintana flerta com a crônica, “o que a torna poderosamente comunicável”.

Martins não deixa de afirmar que Quintana viveu como poeta e precisava sobreviver como ser humano. “Por isso as dificuldades financeiras (precisou de auxílio, sobretudo da sobrinha Helena), porque — a rigor — ‘não trabalhou’ senão como tradutor e colunista de jornal. Isso gerou algo politicamente importante: de que vivem os poetas? Vivem dos leitores, da memória que conquistam”, comenta o pesquisador da PUCRS.

Quintana recebe homenagens, entre as quais o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre (1967), uma placa de bronze (em Alegrete no ano de 1968) em que estão inscritas palavras do autor: “Um engano em bronze é um engano eterno”.

O Hotel Majestic, onde o poeta viveu entre 1968 a 1980, torna-se em 1983 a Casa de Cultura Mario Quintana.

Publica outros livros, entre eles Esconderijos do tempo (1980) e Velório sem defunto (1990). Também produz títulos voltados ao público infantojuvenil, como Pé de pilão (1975) e Sapato furado (1994). 

O professor da Unifesp Pedro Marques analisa que, colocando-se como criança ou como adulto saudoso da infância, as vozes poéticas de Quintana conseguem certo olhar inaugural de quem descobre ao enxergar: “Tais vozes, não raro, trazem certo ludismo na língua, experimentando sons como se esquecendo os significados.”

Morre no dia 5 de maio de 1994, com 87 anos, em Porto Alegre, solteiro e sem deixar filhos.