Making of | Vidas Secas

Da crise à glória

Como Graciliano Ramos transformou um momento de instabilidade financeira no mais bem-sucedido romance do regionalismo brasileiro dos anos 1930

Luiz Rebinski

Um acidente editorial desencadeado por uma crise financeira foi determinante para Graciliano Ramos dar vida a um dos livros mais emblemáticos da literatura brasileira. Vidas secas nasceu de um aperto financeiro que acometia o escritor alagoano no final dos anos 1930, quando morava em uma pensão na Rua Corrêa Dutra, no Rio de Janeiro, com a mulher, Heloísa, e as filhas.

Ex-preso político da ditadura Vargas, Graciliano estava reconstruindo sua vida na então Capital Federal nas condições mais adversas. Cem dias depois de ter sido posto em liberdade, começou a escrever um novo projeto literário. Rememorando a infância em Pernambuco, Graciliano escreveu um conto baseado no sacrifício de um cachorro.

Naquele momento, já era autor de uma obra esplêndida, ainda que pouco lida e valorizada para além de um seleto grupo de intelectuais. Conhecido pelo severo espírito crítico, o escritor, mesmo tendo já publicado Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936), livros que no futuro entrariam para o cânone nacional, não estava convencido com o texto que acabara de escrever. Em carta enviada à esposa, demostrava receio em relação à história que publicaria no suplemento literário de O Jornal, vendida a cem mil-réis: “O conto que terminei ontem é uma estopada que nem um leitor normal aguenta”. Avesso a qualquer tipo de pieguismo, Graciliano avaliou mal o que havia produzido.

O conto “Baleia” foi recebido com entusiamo pelos escritores que, assim como Graciliano, frequentavam a Livraria José Olympio, entre eles Afonso Arinos e José Lins do Rego.

A partir daí, duas coisas o incentivaram a escrever mais histórias sobre Baleia e seus donos: as dificuldades financeiras e as opiniões entusiasmadas dos amigos próximos. “A conta da pensão e as despesas duplicadas com a vinda da família de Maceió o obrigaram a escrever os capítulos como se fossem contos. Era um artifício para ganhar dinheiro”, diz Dênis de Moraes, autor de O velho Graça — uma biografia de Graciliano Ramos. O livro ganhou recentemente reedição pela Boitempo Editorial depois de anos fora de circulação.

Moraes lembra também que Graciliano chegou a publicar o mesmo conto, com título alterado, em outros periódicos. Dos 13 capítulos, oito saíram nas páginas de O Cruzeiro, O Jornal, Diário de Notícias, Folha de Minas e Lanterna Verde, além de La Prensa, de Buenos Aires. As etapas do livro, portanto, não obedeceram a um esquema preestabelecido. A prática de “testar” sua literatura em periódicos era recorrente na trajetória de Graça, como o autor era conhecido entre os amigos. Thiago Mio Salla, professor da Universidade de São Paulo que garimpou 81 textos inéditos do escritor e os compilou no livro Garranchos, diz que, além de crônicas, artigos de crítica literária e ensaios, Graciliano publicou boa parte de sua produção literária (seja memória ou ficção), primeiramente, na grande imprensa. “Por exemplo, dos 39 capítulos de Infância, 30 saíram antes em jornais e revistas”, diz.

Baleia 

A penúria econômica de Graciliano iria influenciar também na composição final do livro, que ganharia “uma estrutura ao mesmo tempo cerrada e aberta”, segundo Wander Melo Miranda, professor de teoria da literatura e literatura comparada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ou seja, as circunstâncias adversas teriam transformado Vidas secas em um “romance desmontável”, como definiu Rubem Braga.

As opiniões favoráveis fizeram com que Graciliano mudasse de ideia e começasse a esboçar o perfil dos donos de Baleia: uma família de retirantes — Fabiano, a mulher, Sinhá Vitória, e os dois filhos — que, acossada pela seca, se lança no sertão nordestino em busca de uma vida melhor na cidade grande. Tal enredo, que poderia ganhar um apelo emocional raso e piegas, nas mãos de Graciliano recebeu um tratamento literário único, em que o retrato cru do drama familiar emociona sem, no entanto, descambar ao sentimentalismo.

“O que me interessa é o homem, o homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece na literatura. Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior”, disse o escritor sobre aquele que seria seu livro mais conhecido e aclamado.

Diante da obra-prima que os amigos viam surgir, as reações foram exaltadas. O escritor José Maria Belo saiu-se com esta: “Graça, você acredita que eu chorei com o sacrifício da Baleia?”. Já para o crítico Álvaro Lins, naqueles escritos, o autor se mostrava “mais humano, sentimental e compreensivo, acompanhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua família com uma simpatia e uma compaixão indisfarçáveis”.

O mundo coberto de penas

Dada a natureza pouco comum em que o livro foi concebido, o título era uma incógnita para o escritor. A gráfica chegou a compor o romance com o nome de O mundo coberto de penas, título do penúltimo capítulo do livro. Graciliano também pensou em Fuga, mas seria a sugestão de Augusto Frederico Schmidt que vingaria. “Graciliano, esse título, O mundo coberto de penas, não tem nada a ver com seu romance. Tinha que ser alguma coisa que retratasse melhor seus personagens, que tem vidas secas”, disse o editor e poeta modernista.

Wander Melo Miranda lembra que Graciliano ainda teria pensado em outro nome, que seria o título original do romance. “Numa carta escrita para Octavio Dias Leite, hoje no acervo do Centro de Estudos Literários e Culturais da UFMG, Graciliano nomeia pela primeira e, pelo que sei, única vez, o título original do livro: Cardinheiras. Cardinheiras são aves de arribação. Veja- se, pois, a importância que tinha para Graciliano O mundo coberto de penas — no duplo sentido da última palavra. O título vai, pois, de Cardinheiras para O mundo coberto de penas e Vidas secas. Há aí uma forte linha ‘narrativa’”.

Repercussão

pós a boa repercussão das histórias, o amigo e editor José Olympio pede a Graciliano que ordene os textos e envie para publicação. Lançado em 1938, Vidas secas causaria furor entre os críticos. “A grande força do autor é sua capacidade de fazer sentir a condição humana inatingível e presente na criatura mais embrutecida”, disse Lúcia Miguel Pereira. Já a cearense Rachel de Queiroz, autora de O quinze, um dos marcos do modernismo regionalista, passou um sermão no amigo: “Quando recebi o livro já editado, fiquei uma fera e disse-lhe todos os palavrões possíveis. Perguntei-lhe: ‘Então, seu cachorro, você joga uma obra-prima em cima de nossos pobres livrinhos?’”

Mais de 70 anos depois da publicação de Vidas secas, o livro continua a empolgar. A opção pela terceira pessoa, até então um recurso narrativo inédito na literatura do escritor, é citada como fundamental para que o livro tenha alcançado êxito.

“É uma mudança significativa, sem dúvida. Se o livro fosse escrito na primeira pessoa, seria uma incoerência narrativa, já que Fabiano pertence à categoria dos humilhados e ofendidos, que não têm voz. Escrever na terceira pessoa clássica seria outro equívoco, pois marcaria uma distância extrema do narrador em relação à matéria narrada”, explica Wander Melo Miranda, autor de, entre outros, Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago, estudo pioneiro na reavaliação da importância de Memórias do cárcere dentro da obra do autor alagoano.

Já para Thiago Mio Salla, Vidas secas materializa “a conjunção entre rigor formal, introspecção e problematização de diferentes temas de caráter social”.

Mesmo com o sucesso de crítica, Vidas secas, assim como os outros títulos do escritor, rendeu quase nada a Graciliano em termos financeiros. O inventário dos bens de Graciliano, datado de 19 de outubro de 1953, constata que seus livros tiveram, até sua morte, modesta ressonância de vendas. A primeira edição de Vidas secas, de mil exemplares, levaria quase dez anos para zerar o estoque.

“Graciliano Ramos morreu pobre. Afora os direitos autorais de seus livros, deixou Cr$ 2.800 a receber do Ministério da Educação, correspondentes a 20 dias do vencimento do mês de março de 1953, do cargo de inspetor de ensino”, diz o biógrafo Dênis de Moraes. Foi só a partir de fins dos anos 1950 e começo dos anos 1960, período de revalorização da literatura brasileira e do incremento do mercado editorial local, que a obra de Graciliano Ramos teve maior ressonância e começou a ser rentável. Vidas secas, hoje editado pela Record, passou da centésima edição. Além disso, qualquer lançamento que envolva o nome do escritor gera imediato interesse.