Making Of | O Ateneu

Uma surpreendente alegoria do Império

Rodado em gráficas francesas ao longo de várias edições, O Ateneu, romance que faz uma metáfora da época a partir de um internato, marca a ascensão de seu autor, cujo suicídio aos 32 anos interrompeu uma carreira promissora na literatura.


Mellissa R. Pitta


Ser escritor no Brasil de Machado de Assis certamente não era tarefa fácil. Além do grande índice de analfabetos entre a população dos anos 1800 — portanto, de não leitores —, a figura do Bruxo do Cosme Velho e sua obra trataram de eclipsar carreiras em um país de literatura ainda incipiente.

Raul Pompeia foi um dos poucos escritores que conseguiu sobreviver à figura e influência de Machado. Em grande parte por conta de O Ateneu, romance considerado sua obra-prima que, mais de 120 anos depois de sua publicação, continua sendo uma das principais obras de nossa história literária. O próprio Machado se rendeu ao talento de Pompeia em uma de suas crônicas, dizendo que O Ateneu “era um eco do colégio, um feixe de reminiscências, que ele [Pompeia] soubera evocar e traduzir na língua que lhe era familiar, tão vibrante e colorida, língua em que compôs os números escritos na  imprensa diária, nos quais o estilo respondia aos pensamentos.”

Assim como muitos romances de sua época, O Ateneu foi publicado de forma seriada, em folhetins do jornal carioca Gazeta de Notícias. Mas a obra teve um caminho dificultoso até ser acolhida pelos leitores.

Raul Pompeia tinha 25 anos quando publicou os folhetins na Gazeta, entre janeiro e março de 1888. Na época, escrevia uma coluna de crítica de arte no periódico e mantinha alguns contatos do meio intelectual, a exemplo das amizades com Luiz Gama e Aluísio Azevedo.

De acordo com José Mário dos Santos, presidente da Associação Cultural Raul Pompeia e estudioso da obra do escritor, após diversas modificações no texto, os folhetins foram reunidos em livro no mesmo ano da publicação na imprensa. Depois da bem-sucedida primeira edição, publicada pela própria Gazeta, a editora Alves & Cia, do Rio de Janeiro, comprou, em junho de 1894, os direitos autorais de O Ateneu. Porém, só em 1905, dez anos após o suicídio de Pompeia, aos 32 anos, o romance ganha uma segunda tiragem que, de acordo com a editora, tratava-se da “edição definitiva”, impressa em Paris, em parceria com a editora Tipografia Aillaud & Cie, trazendo os desenhos deixados pelo autor, com gravuras em crayon.

Posteriormente, a editora parisiense publicaria edições (em português) em 1912, 1921, 1923 e 1926, com os desenhos de Pompeia já em sépia. Da quinta edição em diante, o livro passou a ser impresso no Rio de Janeiro, com gravuras em preto. Em 1954, um ano antes da obra cair em domínio público, a Câmara Brasileira do Livro, devidamente autorizada, lança uma edição de luxo, convidando Mário de Andrade para escrever o prefácio e Clóvis Graciano para ilustrar.

História

No livro, de subtítulo Crônica de saudades, o escritor recorre às próprias memórias a fim de costurar e tramar uma história de ficção entorno de um internato para meninos, o Ateneu. Resgata algumas de suas lembranças de sua infância difícil, dividida entre a vida na fazenda onde morou com os pais, em Jacuecanga, e o dia em que foi levado pelo pai para estudar e morar no colégio interno Abílio, dirigido pelo Barão de Macaúbas, fomentando a discussão sobre o drama da solidão e o desajuste do indivíduo em relação ao meio.


Narrado em primeira pessoa, quando o protagonista Sérgio já é um adulto, o livro se constrói por meio das impressões que o personagem tem da escola, dos professores, dos colegas e do diretor, Aristarco Argolo de Ramos. Aristarco, ridicularizado ao longo da narrativa, representa uma figura autoritária e caricatural que alguns críticos entendem como uma alegoria do Império, que vigorava à época. O Ateneu, seria, no fundo, a representação do status quo político e social do período em que Pompeia viveu.

Sérgio reconta seus anos vividos no internato de uma forma irônica, descrevendo os personagens da história de forma caricatural. Pompeia utiliza um ritmo mais agressivo em sua escrita, introspectivo, e se faz valer de uma aguçada análise psicológica para provar a teoria naturalista de que o meio influencia as pessoas.

Pompeia publicou seu primeiro romance, Uma tragédia no Amazonas (1880), aos 17 anos. Um ano depois, entrou para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, período em que militou avidamente pela abolição da escravatura, juntando-se ao movimento republicano. Sua ideologia antimonarquista está bastante presente em sua segunda publicação, As joias da coroa (1883). Porém, apesar dos dois livros e de seus textos jornalísticos em diversos periódicos, é com O Ateneu que o escritor ganha relevância no meio literário.

Sucesso

Entre o público e a elite literária do Rio de Janeiro, o romance foi logo de cara muito exaltado por seu caráter inovador. José Mário dos Santos explica que havia grande furor em torno do livro por parte de intelectuais da época. O historiador Capistrano de Abreu, em carta a João Lúcio de Azevedo, chegou a dizer que O Ateneu era o livro mais forte de nossa literatura até então. “O crítico cearense, Araripe Junior, também viria a publicar um extenso estudo no jornal Novidades, destacando a genialidade de Pompeia ao deslocar-se da corrente naturalista em razão de seus dotes de poeta pensador, oscilando entre um subjetivismo inato e o compromisso realista de um escritor profundamente racional”, diz Santos.



Cronologicamente, a obra está inserida no Realismo, trazendo algumas características essenciais do movimento, como a análise psicológica dos personagens, a forte crítica às instituições sociais e um alto grau de ceticismo em relação à sociedade. Entretanto, com uma aguçada licença poética, Pompeia consegue superar essa divisão, podendo ser considerado um dos precursores do Modernismo ao incorporar à narrativa, características como, por exemplo, a descrição do instinto de seus personagens, sempre impulsionados a atitudes bestiais. Além disso, a abordagem da temática homossexual, tão chocante para a época, também contribuiu para a fama do romance. O Ateneu também se distanciou das obras de sua época ao tra-zer uma narrativa em primeira pessoa, utilizando-se de um tom amargo e pessimista.