Making Of

Memórias de uma alma sedenta


Trópico de Câncer, primeiro romance de Henry Miller, é um relato libertário e radical sobre as andanças do autor pela Paris dos anos 1930

Omar Godoy


Se as bibliotecas dedicassem uma seção exclusiva aos grandes clássicos censurados da literatura universal, Trópico de câncer certamente seria um dos destaques da coleção. Considerado um dos livros mais importantes do século XX, o “proibidão” do americano Henry Miller (1891–1980) foi publicado pela primeira vez em 1934, na França, mas só saiu na terra natal do autor quase 30 anos depois, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos o absolveu das acusações de obscenidade.

No Brasil, chegou ao mercado em 1963, junto com outra obra importante de Miller, Trópico de capricórnio (publicado originalmente em 1939). Três anos depois, já em plena ditadura militar, os dois livros foram recolhidos por conter linguagem “inadequada” para o público jovem. A editora Ibrasa recebeu o lote de volta semanas depois, porém com um desfalque de milhares de cópias.




Henry Miller e Eve McClure em uma praia espanhola, em 1953, ano em que se casaram.

É claro que a proibição por si só não justifica tamanha reverência a Trópico de câncer, elogiado por figurões como T.S. Eliot, Ezra Pound e Samuel Beckett. Seus motes são a liberdade individual, a importância da experiência, a fome de viver, o sexo sem tabus, a expressão radical dos sentimentos. Elementos que as gerações seguintes, especialmente a da contracultura da década de 1960, abraçou e absorveu sem reservas.

Com fortes tintas autobiográficas, o livro narra “a aventura que levou o autor aos confins espirituais da Terra”, como escreveu no prefácio do romance a escritora Anaïs Nin, amante de Miller e financiadora da primeira edição. São episódios esparsos, sem muita ligação, baseados nas andanças de Miller pelo lado marginal da Paris dos anos 1930.

De origem humilde, Henry Miller trabalhou em inúmeros subempregos antes de decidir ganhar a vida escrevendo. Criado nas ruas de Nova York, foi lavador de pratos, estivador, açougueiro, vendedor, motorista de ônibus e até assistente de um pastor evangélico. Aos 21 anos, mudou-se para San Diego, na Califórnia, onde se casou duas vezes (com Beatrice Wickens, mãe de sua primeira filha, e June Smith, ambas posteriormente imortalizadas em sua obra) e conseguiu vender seus primeiros textos para jornais e revistas.

Com esse dinheiro, partiu para a França em 1930 e lá ficou até o início da Segunda Guerra Mundial, perambulando por pensões vagabundas, bares suspeitos e prostíbulos, entre outros ambientes nada familiares. Mas também conviveu com artistas e intelectuais como Lawrence Durrel, Alfred Perles, André Breton (o surrealismo foi uma de suas influências confessas) e a já citada Anaïs Nin (que relatou seu romance com Miller em livro).

Trópico de câncer é uma espécie de compilação de memórias delirantes dessa época, com direito a relatos sexuais explícitos, observações sarcásticas sobre uma sociedade cada vez mais robotizada e insights filosóficos de tirar o fôlego. “É preciso enfiar-se na vida outra vez para ter carne. O verbo tem que se fazer carne, a alma está sedenta. Toda migalha que meus olhos virem, vou pegar e devorar. Se o que está acima de tudo é viver, então vou viver, mesmo se tiver de virar canibal”, afirma, numa passagem nitidamente influenciada por Nietzsche (um de seus maiores gurus conceituais, ao lado de Céline, Dostoiévski, Joyce, Thoreau, Whitman, Rabelais).

O ritmo é ágil e a linguagem crua e direta. Como bem definiu o ensaísta Kenneth Rexroth, “Hans Christian Andersen falou a respeito do menino e as roupas novas do imperador. Miller é o próprio menino. Fala sobre o imperador, as espinhas de suas nádegas, as verrugas de suas partes pudendas e a sujeira entre os dedos de seu pé. Outros escritores, no passado, fizeram isso, sem dúvida, e foram os grandes, os verdadeiros clássicos. Fizeram-no, porém, dentro das convenções da literatura. Usaram as formas da Grande Mentira para por a nu a verdade”.



Dois Trópicos: edições brasileiras
do livro de Miller.




Lançado com sucesso na França, Trópico de câncer teve uma carreira comercial ainda melhor nos Estados Unidos após a liberação — em apenas um ano, foram vendidos mais de 1 milhão de exemplares do romance de estreia de Miller. Nada mal para uma obra que, segundo seu autor, não era exatamente um livro, mas “um insulto sem fim, uma cusparada na face das artes, um pontapé em Deus, no amor e na beleza”. Sobre o título, ele diria, anos mais tarde: “O câncer simboliza a doença da civilização, o ponto final do caminho errado, a necessidade de mudar de rumo radicalmente, para começar tudo de novo a partir do zero”.

O escritor voltou para a América em 1940, onde refinou sua prosa e seguiu produzindo obras como O colosso de Marússia (1941), Pesadelo refrigerado (1945) e a trilogia A cruficação encarnada — composta por Sexus (1949), Plexus (1953) e Nexus (1960). Casou-se mais três vezes: com Janina Lepska (com quem teve dois filhos), Eve McClure e Hiroko Tokuda (quase 50 anos mais nova do que ele). Morreu em Los Angeles, aos 88 anos, de complicações circulatórias.

Mas o mulherengo Miller ainda deixaria uma surpresa para seus leitores. Durante os quatro últimos anos de sua vida, ele se correspondeu de forma apaixonada com a jovem Brenda Venus, dançarina, atriz e modelo da revista Playboy. Foram mais de 1.500 cartas enviadas, que acabaram virando um livro (Dear, Dear Brenda, lançado em 1986) e são a prova definitiva de que a alma de Miller se manteve sedenta até o final.