Literatura em cena | Brasília

A escrita que vem da margem


Poética de contestação social, herdada da produção marginal dos anos 1970, dá frutos e forma parte da identidade do cenário de Brasília


Ruy Barata Neto


Nicolas Behr, autor de Braxília, tem na capital federal a matéria-prima de sua poesia.

Síntese do movimento modernista da arquitetura brasileira, Brasília tem hoje duas faces: a do Plano Piloto, onde a organização do espaço separa e abafa as pobrezas urbanas, e a das chamadas “regiões administrativas”, onde estão localizados os bairros e municípios que formam a cara da periferia da capital federal. É em parte por conta desta dicotomia entre o “dentro” e o “fora” do desenho urbanístico de Lúcio Costa e pela própria relação com o centro burocrático do país, que a cena literária brasiliense vem se desenvolvendo com forte contestação social e hoje abre espaço para novos atores, responsáveis por ajudar a firmar a identidade de uma nascente literatura local — já que nem sequer chegou aos 60 anos de idade.

Por conta da “juventude” da capital, a questão da classificação de uma literatura dita de Brasília ainda rende debates entre os críticos literários e intelectuais da cidade. Alguns questionam esta marca porque muitos dos expoentes da produção literária local são de outras regiões do país e que migraram após a sua inauguração na década de 1960. Por outro lado, boa parte da academia concorda que mesmo a produção de autores de fora da cidade é considerada como brasiliense, já que eles tiveram boa parte da formação psico-social adquirida na cidade e usaram os elementos do seu espaço para escrever as obras.

Segundo a professora Maxçuny Alves Neves da Silva, mestre em literatura pela Universidade de Brasília (UnB) com pesquisa a respeito da influência do espaço na poética de Brasília, há vários estudos que já definem como produção literária brasiliense obras de autores que viveram e produziram na cidade por pelo menos vinte anos. “Com isso, temos que aceitar nomes como o do poeta Nicolas Behr e até mesmo Renato Russo e Oswaldo Montenegro”, afirma.

Discussões à parte, o fato é que a produção literária que vem sendo feita em Brasília ao longo dos anos desenvolveu linhas comuns que delimitam uma identidade poética local, hoje impulsionada por um mais recente movimento: o da poesia periférica. “É uma literatura de denúncia, de contestação política que não deixa de ter ligação com o fato de a cidade ser a capital federal, e centro da administração pública do país”, diz Maxçuny.

É neste escopo que aparece o nome do rapper Genival Oliveira Gonçalves (o GOG), que começou sua carreira na década de 1990, no Guará, cidade do entorno de Brasília, ganhou palcos do país e hoje ganha relevância como expoente da cena literária local. Em 2010, a Global Editora lançou seu primeiro livro A rima denuncia, que transporta as letras, verdadeiros poemas do artista, do ambiente musical para o campo literário. Uma de suas letras, “Brasil com P”, já foi adotada como parte do Programa de Avaliação Seriada (o chamado PAS), da UnB.

Segundo GOG (foto), o livro trilhou duas vias distintas. Foi parar nas comunidades mais pobres e ao mesmo tempo nas mãos de quem fez o vestibular 2011-2012 na UnB. “Esse foi o maior prêmio que pude receber com a publicação do livro”, diz GOG, que busca ocupar espaços aumentando o diálogo de uma poética da periferia com o mundo acadêmico. “O território do hip hop foi rompido. A pausa, agora é a vírgula, a mudança do tema é o parágrafo e o final da música é ponto final”. GOG também é um dos novos poetas incontestavelmente do Distrito Federal, já que nasceu em Sobradinho, uma das cidades satélites.

Apesar de trilhar o caminho da música para a literatura, a poética de GOG pode ser vista como herdeira da poesia marginal do final dos anos 1970 na cidade. Na avaliação de Maxçuny, a poesia periférica do novo cenário literário brasiliense já é capaz de demarcar uma característica da produção da cidade que tem forte peso na temática da crítica social. “O próprio rock de Brasília é mais um exemplo e que difere bastante do rock de outras regiões que não priorizavam a bandeira da contestação social”, diz Maxçuny.

Dentre os nomes que se destacam do movimento anterior da poesia marginal estão Francisco Alvim, Eudoro Augusto e Luis Turiba, além de Nicolas Behr, que chegou a ser preso, acusado de subversão pela ditadura militar durante seus anos de chumbo. A carência de editoras na nova capital recém-construída levava os poetas marginais a buscar caminho independente da distribuição comercial. O próprio Behr vendia seus livros nos bares e inclusive no transporte público, algo que também acontece hoje com a produção do movimento periférico. “Nossa literatura nasce à margem de editoras, rejeitando circulação”, diz GOG. “A nossa livraria é a nossa mochila.”

Trata-se de uma solução que cabe bem para o limitado mercado de distribuição e divulgação literária que persiste ainda hoje em Brasília. Segundo Maxçuny, vários dos autores da cidade precisam recorrer às editoras de Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro para publicar suas obras de forma convencional e com uma distribuição mais ampla. A lacuna força editoras de universidades e outras, especializadas em várias áreas de conhecimento, a abrirem espaço para edições esporádicas de literatura. É o caso da Thesaurus, que é principal editora da cidade, especializada em biblioteconomia, mas que acaba contribuindo muito para a divulgação da cultura local.
Soma-se a isso o problema da divulgação da literatura local. Na capital federal há poucas revistas especializadas em literatura, sendo que a maioria trabalha em meios eletrônicos. Fora desse universo, a imprensa tradicional dá pouco espaço para a divulgação dos autores locais, nas palavras de Maxçuny.

Outra similaridade entre as duas gerações é o diálogo com diferentes linguagens artísticas. Segundo o trabalho de dissertação para o mestrado de Bernadete Aparecida de Carvalho, do departamento de teoria literária e literaturas da UnB, “o período do final da década de 1970 pode ser classificado como o período de maior ebulição da cena cultural de Brasília. Pois poetas marginais estreitaram os laços com músicos, autores e pintores”.

“Nossa literatura nasce à margem de editoras, rejeitando circulação”

GOG, poeta.

POESIA CULTA
Mas nem só de periferia vive a cena local brasiliense. Há vários autores com outros estilos que enriquecem a cena literária da capital federal. Antes mesmo do surgimento da literatura marginal — que se pautava eminentemente pelo uso de linguagem coloquial —, apareceu o grupo da chamada “poesia culta”, segundo classificação de José Roberto de Almeida Pinto no livro Poesia de Brasília: duas tendências. A divisão dessas duas correntes não deixa de representar a dialética entre “centro” e “periferia”, que caracteriza a produção local. Entre os nomes da poesia culta, analisados por Almeida Pinto, estão Anderson Braga Horta, Domingos Carvalho da Silva, Marly de Oliveira e Cassiano Nunes, que tiveram importante papel como incentivadores e divulgadores da produção literária de Brasília.

Horta, por exemplo, foi co-fundador da Associação Nacional de Escritores e do Clube de Poesia e Crítica, entidades que deram impulso para a publicação de livros da literatura brasiliense a partir da década de 1980. As entidades promovem encontros dos poetas e eventos de divulgação. A maioria desses autores não é nascida em Brasília e tem alguma ligação com a administração pública, principalmente na área da diplomacia. É considerável o número de jornalistas e professores, e principalmente funcionários públicos, que passaram a publicar suas primeiras obras de forma coletiva, por conta da carência de uma estrutura editorial da cidade.

Segundo Maxçuny, é depois do surgimento dos sindicatos que cresce o apoio à produção literária. “Sindicatos dos escritores e dos professores, vão incentivar vastamente a produção. e bancar os custos da produção. Assim vamos ter o surgimento de novos nomes”, afirma. Com a base, os nomes foram aparecendo. Agora só o tempo tornará grande e consistente a jovem literatura brasiliense.