Literatura Paranaense | Anos 1900

A marca simbolista

Movimento poético de repercussão nacional, o simbolismo ganhou características próprias no Paraná e se tornou hegemônico na cena literária local nas primeiras décadas do século XX

Luiz Rebinski
        Divulgação

Os poetas simbolistas Dario Vellozo, Antônio braga, Silveira Neto e Júlio Perneta.

Surgido no começo do século XX, o simbolismo marcou uma fase importante da literatura paranaense. Influenciados por escritores europeus como Mallarmé, Verlaine e Baudelaire, os simbolistas do Estado cultuavam valores aristocráticos e tinham, no plano temático, atração pelo oculto e pelo mistério. 

Essencialmente poético, o movimento teve adeptos em vários cantos do Brasil, mas se aclimatou e ganhou características próprias no Paraná, conforme explica a pesquisadora Cassiana Lacerda. “Pelo que produziram e, pelo efeito que suas atividades tiveram na sociedade, o caso paranaense chama a atenção dada a força assumida pela nova estética e sua projeção na sociedade, a ponto de tornar-se a literatura oficial”, diz. 

Professora aposentada da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Cassiana fala, entre outros assuntos, sobre a importância das revistas na difusão da produção dos simbolistas e como, em um período marcado pela precariedade na circulação de informações e pelo analfabetismo, uma geração de autores se fez notar no Paraná, principalmente em Curitiba.

É consenso entre os estudiosos que o simbolismo teve, em território brasileiro, maior ressonância no Paraná, especificamente em Curitiba. Quais foram as razões para que isso tenha acontecido? 
Cumpre lembrar que, antes de o simbolismo chegar ao Paraná, o movimento deu seus primeiros passos em São Paulo, mais especificamente em torno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde Emiliano Perneta, estudante daquela instituição, liderava um grupo interessado na literatura voltada para o sonho e para o mistério. Pelo que produziram e, pelo efeito que suas atividades tiveram na sociedade, o caso paranaense chama a atenção dada a força assumida pela nova estética e sua projeção na sociedade, a ponto de tornar-se a literatura oficial. Ganhando outros contornos em razão das origens e interesses, somados aos contatos e influências e transformações sociais, tudo concorreu para o surgimento de uma “geração de notáveis”. Tanto assim, que, com certa ironia, João do Rio disse: “A meu ver, só Curitiba deu-se até agora de centro literário independente e forte. Mas esses brilhantes rapazes fizeram-se esoteristas, simbolistas, kabalistas, impossibilistas”. Portanto, graças ao surgimento de uma geração mais forte de intelectuais, à duração e penetração do movimento e devido ao número de escritores e revistas, é que o simbolismose afirma entre nós.

Importado da França, o nosso simbolismo ganhou que tipo de características aqui? O que o difere da matriz? Quais os temas recorrentes? 
Não há dúvida de que a atração pelo “oculto” e pelo “mistério” é a marca de nossos simbolistas, especialmente a poesia de Dario Vellozo e a de seus seguidores. Por sua vez, a poesia de Emiliano Perneta é marcada por uma incessante busca do absoluto, pelo requinte, inadaptação de quem “ama a névoa que fugiu”, alto domínio da linguagem, o que imprime certo alquimismo na sua poesia, tornando-o capaz de transformar abismos em torres. Dario Vellozo caminha cada vez mais em direção a uma poesia erudita e de ideias comprometidas com o sonho e o ideal pitagórico que tanto defendeu e que tentou materializar com a fundação da Escola Brasil-Cívico.

Em Panorama do movimento simbolista brasileiro, Andrade Muricy cita o poeta francês Roger Bastide, que escreveu o seguinte sobre o poetas locais: “O simbolismo no Paraná é a primeira manifestação de um Brasil diferente contra o Brasil tropical, uma consciência literária daquilo que o Paraná tem de específico, e portanto de autenticamente brasileiro”. O simbolismo foi, além de literário, um movimento político de legitimação da cultura paranaense? Ele tem conexões com o paranismo?
Não creio que tenha havido esse determinismo climático para a ocorrência da temática dos luares de “hinverno”, da neblina, dos cavaleiros de luar, etc. Isso porque Alphonsus Guimaraens, Gustavo Santiago e Pedro Kilkerry (simbolistas de outros Estados) são a demonstração de que essa recorrência não é privilégio dos simbolistas do Paraná. O que houve aqui foram condições favoráveis para uma estética. E sua aceitação social culmina quando o movimento torna-se solar, panteísta e quando são realizadas as “Festas da Primavera”. É quando também surge a revista de uma segunda geração de autores, Fanal (1911), liderada por Tasso da Silveira, tendo no culto a Emiliano Perneta sua marca. A cidade é tomada pelos desfiles e Emiliano é coroado, no Passeio Público, como Príncipe dos Poetas Paranaenses. No período inicial, através da revista O Cenáculo, quando a liderança mais forte era Dario Vellozo, o movimento toma rumo acentuadamente maçônico e anticlerical. Na fase panteísta, com o predomínio da literatura solar, o pinheiro torna-se um ícone, mas sem ser uma bandeira paranista, movimento que terá mais força artística na linguagem das artes plásticas em torno de João Turin, Lange de Morretes e, no campo das ideias, com Romário Martins, Rodrigo Jr, entre outros.

O período em que o simbolismo surge, a virada do século XIX para o século XX, é marcado pela precariedade na circulação de informações. Ou seja, as bibliotecas eram escassas ou inacessíveis, a circulação de livros bastante restrita e a impressa limitada. Além disso, Curitiba estava longe dos principais centros literários do país. Diante de tantas adversidades, como o movimento simbolista se fez presente na vida cultural brasileira?
É preciso notar que no percurso da penetração do simbolismo no Brasil a presença dos paranaenses se faz em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de Curitiba. Sem contar que o grande crítico do período era Nestor Victor (um nome injustamente esquecido), que morava no Rio de Janeiro e colaborava em O Globo e se encarregou de divulgar a produção de seu Estado natal e a obra de Cruz e Sousa. Por sua vez, o empenho de Dario Vellozo em distribuir as revistas e livros aqui publicados foi notável, isso além de representar inúmeras revistas cariocas e paulistas.

As revistas foram muito importantes na difusão da obra dos poetas simbolistas. Eram os periódicos os meios mais eficazes para os escritores serem lidos? Aliás, em que condições essas revistas eram feitas e circulavam?
Sim, as revistas foram o principal meio de circulação da nova dicção, do ideário, enfim, da produção dos simbolistas locais. No Paraná, o interesse pelo símbolo e pelo esotérico circula mais nas reuniões e debates, ganhando força com o surgimento do grupo e da revista O Cenáculo (1895-1897), tendo à frente Dario Vellozo, Silveira Netto, Júlio Perneta e Antônio Braga. É preciso notar, que por longo período, a Revista Club Curitibano (1890-1912), mesmo sem ter um ideário definido, divulgará textos dos integrantes de O Cenáculo e acolherá novos nomes, permitindo traçar um longo período de duração e de evolução do grupo. Essas revistas eram artesanais, altamente requintadas, mas com tiragem pequena e distribuição dirigida. Convém notar que Dario Vellozo era tipógrafo e Silveira Neto artista plástico. Outro fator fundamental foi a distribuição para outros Estados, sempre a cargo do empenho de Vellozo.

A revista O cenáculo foi a mais importante?
O Cenáculo foi mais do que uma revista. Nas reuniões no “Karoim”, de Dario Vellozo, ou na biblioteca do Club Curitibano, contrariamente ao que se imagina, o debate era a defesa dos índios, do anticlericalismo e da maçonaria, portanto a proposta de novos rumos para a literatura. O interesse pelo simbolismo só irá eclodir em revistas menores e em Club Curitibano. Outro impulso foi dado pelo retorno de Jean Itiberé, que estudava na Bélgica e foi companheiro de Maurice Maeterlinck e Émile Verhaeren, integrando o grupo da “Jeune Bélgique”. O autor de Préludes chega como um informante rico em contatos e leituras, especialmente sobre o simbolismo esotérico. Em 1895, Emiliano Perneta retorna a Curitiba, muito mais maduro como poeta, mas revoltado com a ideia de viver na província. Imediatamente passa a liderar a nova literatura, sem as preocupações ideológicas de Dario Vellozo. Novos nomes aparecem e pequenas revistas são reveladoras de textos voltados
para uma arte mais depurada e interessada na musicalidade, nas novas possibilidades do símbolo, do mistério e do oculto, como Galáxia (1897), Pallium — Pela Arte, Pelo Sonho (1898), Azul (1900) Breviário (1900)e Turris Eburnea (1900).

Outra questão instigante se refere a Cruz e Sousa. Mesmo vindo de em uma cena mais acanhada, como era a de Santa Catarina, o poeta conseguiu maior reconhecimento nacional do que os autores paranaenses. Por que a senhora acha que isso aconteceu?
Esta perspectiva de que Cruz e Sousa produziu numa cena mais acanhada é equivocada. Na província, o poeta viveu grandes dificuldades e publicou apenas uma obra, em parceria com Virgílio Várzea. Em 1889, muda-se para São Paulo e é acolhido em O Mercantil, onde publica seus primeiros textos fora da província, mas sua vida financeira permanece dificílima. No ano seguinte, no Rio de Janeiro, é acolhido por Emiliano Perneta e Nestor Victor e começa a trabalhar na estrada de ferro Central do Brasil. Em contraste com o requinte de sua poesia, leva uma vida miserável com a mulher, Gavita, e seus 4 filhos. Em 1893 consegue publicar os livros Missal (com o subtítulo “Brasil-Sul”) e, mas sem alcançar sucesso. Tomado pela tuberculose, Cruz e Sousa é auxiliado por Nestor Victor e segue para Minas Gerais a fim de tratar-se numa estação de águas. Seu retorno, morto, num vagão junto com cavalos, causou a maior comoção entre os companheiros. A crítica oficial — particularmente Silvio Romero, que havia escrito um longo ensaio, pouco favorável, a Broqueis, no qual diz que o ritmo de seu poemas lembra o tam-tam dos negros — revê sua posição. Diante do episódio, a crítica mobiliza-se para divulgar a obra de Cruz e Sousa, agora conhecido como o “Cisne Negro” ou “Dante Negro”. Entre o simbolistas, dividem- se os promotores da obra. Nestor Victor, que ficou de posse dos originais, se encarrega de divulgar novas edições e de promover com vigor a obra do sofrido poeta. Saturnino de Meirelles funda a revista “Rosa-Cruz”, interessada em divulgar a poesia de Cruz e Sousa, agora bem-vista pela crítica oficial. Desse modo, não foi a província natal que reconheceu seu poeta. Foi sua consagração póstuma, ocorrida na capital das letras.

Recorrendo mais uma vez a Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy, o autor escreve que muitos modernistas, como Raul Bopp, foram influenciados pela poesia simbolista (ainda que não admitissem tal influência). Por que o movimento, ao invés de ser assimilado pela geração subsequente, foi rechaçado?
A questão da influência literária é muito complexa e demanda detalhados trabalhos de literatura comparada, sob pena de ficar na intuição. Nunca me detive na obra de Raul Bopp para fazer afirmações desse gênero. O simbolismo foi rechaçado pelos modernistas de São Paulo por sua aparente alienação, mas nunca é demais lembrar que Mario e Oswald de Andrade, além de Tarsila do Amaral, frequentam os salões decadentes de Freitas Valle ( Jacques d`Avray) e que a epígrafe de Paulicéia desvairada é de Verharen. Talvez o contato com Jacques d`Avray, com poemas como “est bleu Le myosotis/ Le myosotis est bleu”, impressos em papéis requintados, tenha assustado os modernistas frequentadores da Villa Kyrial. Os novos sempre precisam negar os consagrados, ainda que em São Paulo não existissem simbolistas expressivos à época do modernismo. No Rio de Janeiro foi completamente diferente. O modernismo se impôs através da revista Festa (1920- 30), de Tasso da Silveira e Andrade Muricy, periódico em sintonia com o cubismo, o futurismo e o dadaísmo. No periódico colaboram Cecília MeiMeireles, Murilo Araújo, Gilka Machado, Carlos Drummond de Andrade, Correia Dias, Alceu Amoroso Lima e tantos outros. Logo, há um modernismo tributário do simbolismo, mesmo que não tenha tido a força do movimento paulista e que Drummond tenha publicado texto de passagem pela revista.

Hoje, passadas várias décadas do auge do movimento, a senhora identifica a influência do simbolismo em escritores ou grupo de autores contemporâneos?
Sobre a influência simbolista em autores contemporâneos, considero um campo minado. Prefiro fugir do território das impressões.