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Inéditos

Uma das principais marcas do Cândido é manter um espaço fixo para a divulgação de material inédito. Desde a primeira edição, em 2011, foram publicados mais de 400 textos — entre contos, crônicas, poemas e trechos de romances —, assinados por autores iniciantes e veteranos, das mais diversas partes do Brasil (e até de fora daqui). Reunido, esse conteúdo compõe um vasto panorama da produção literária recente do país, em todos os gêneros.

Narrativas


“O André Sant’Anna não queria ser escritor como o Sérgio Sant’Anna, que sempre escreveu como se estivesse numa guerra contra si mesmo. O André Sant’Anna queria era ser igual ao George Harrison, que era a pessoa que tinha a vida mais maravilhosa na face da Terra, com aquela guitarra colorida, aquelas aventuras do filme Help, uma namorada lourinha, a Pattie Boyd, que foi o primeiro amor do Andrezinho, e o George tinha também uma turma com mais três amigos.”

Trecho de “A História do André Sant’Anna”, conto de André Sant’Anna, com ilustração de Leo Gibran (edição 84, julho de 2018)

“Passaram três, quatro dias. Vejo Kelly botando quente no Bom Paladar, na esquina com a Riachuelo. Rosto inchado. Murros. Na barriga. O namorado libertou. Não contou como. Nem eu sei. Agora tinha uma colega. Deusa. Uma moleca de 14 anos se tanto. Kelly sua heroína. Olhos esgazeados de crack. Top, shortinho e topando todas. Chegou o namorado. Montou na garupa. A moleca também. Saíram rindo e felizes. Poderosos. Fiquei com vontade de ligar pro Ismael. Ele faria uma bela reportagem. Foi bom não ligar. Acabei ganhando a matéria.”

Trecho de “Recorte”, conto de Edyr Augusto, com ilustração de Allan Sieber (edição 74, setembro de 2017)

“As esperanças que eu levava naquela viagem eram muito maiores e mais curtas do que as que agora me fizeram embarcar neste ônibus. Foi para falar de esperanças que me chamaram de novo ao sertão e vou pensando que as minhas mudaram e se tornaram muito mais modestas e pacientes do que antes, talvez envelhecidas como eu. Começaram a mudar naquele dia em que, pela primeira vez, me meti nessa paisagem seca e espinhosa.”

Trecho do romance Outros Cantos, então inédito, de Maria Valéria Rezende, com ilustração de Carolina Vigna (edição 32, março de 2014)


Poemas


1. A mãe


Minha mãe sepultou as parcas alegrias
em uma lata colorida de biscoitos,
que diziam de origem dinamarquesa:
três filhos que vingaram, um que não,
sombria matemática de outros tempos;
a água fresca da mina em seu rosto;
uma viagem de carro à praia longínqua,
quando enfim estabeleceu dessemelhanças
entre areia e ondas, entre ruínas e posse;
o mugido de vacas tangendo a alvorada;
um cachorro de nome Peri, outro, Veludo;
vizinhas engraçadas, vizinhas sisudas;
a comadre que se foi para São Paulo.

Suas mãos queimadas de água sanitária
jamais colecionaram retratos ou sorrisos.
Guardavam imagens, que se extraviaram
incendiando as nuvens desta tarde clara,
que a tudo ignora, eterna em seu mutismo.

Trecho de um poema de Luiz Ruffato, com ilustração de Leo Gibran (edição 29, dezembro de 2013)



O que se vai


Perco os cabelos
como perco os dias
um a um.
Um fio
de toda a cabeleira
nada vale.
Da vida
pouco vale
um dia somente.
Porém
o cabelo no pente
o dia no travesseiro
se alinham
           idos
             perdidos
             mortos
e o que se vai
mais pesa.
Não terei calva a cabeça
isso é seguro
a cada fio que parte
um se enraíza
— o crânio é campo fértil
mais que a vida.
Os dias
          no entanto
têm sua cota de estoque
limitada
e eu os vejo passar em fila indiana
sem que reposição me seja dada
e sem saber o ponto
em que a fatura
terá que ser quitada.

Poema de Marina Colasanti, com ilustração de Visca (edição 94, maio de 2019)


O verso libérrimo


depois do verso metrificado e sua música preexistente
o verso livre, letra e música do poeta
depois do verso livre, limitado ainda à superfície plana da página
o verso libérrimo, em 3D ao vivo e a cores a todos os sentidos

o verso tem cheiro?
no verso libérrimo yes
ali se misturam sangue e suor do autor e do leitor
agora ouvinte vidente

o verso libérrimo pinta borda fede cheira
o verso libérrimo troca gases fluidos corporais
o poeta não fala mais pras paredes
no verso libérrimo, autor/leitor ouvinte/vidente

são polos da mesma conversa
um completa a falha do outro

o verso libérrimo — mais que livre — incita à liberdade
olhar ouvir cheirar tocar falar com o corpo inteiro
conectado ao outro aos outros à vila à vida

verso libérrimo, gozai por nós!

Poema de Chacal, com ilustração de Adriana Peliano (edição 63, outubro de 2016)