História editorial

Polêmicos e pioneiros no século XIX

O Cândido publica primeiro capítulo do livro Narrativas gráficas curitibanas, escrito pelo artista e pesquisador José Aguiar. A obra, que será lançada neste ano pelo selo Biblioteca Paraná, resgata a história editorial da publicação de charges, cartuns e quadrinhos em Curitiba

Estabelecer o marco zero de uma tradição gráfica é algo difícil. Um motivo é a escassez de documentação. Quanto mais se regride na história, menos fontes confiáveis são encontradas. Outros problemas podem ser os critérios adotados para estabelecer um consenso em torno de uma data ou nome que assegure “legitimidade”. Neste caso, as escolhas vindas dos critérios de análise e seleção do material trazem, evidentemente, interesses e disputas que podem estabelecer uma construção, uma tradição inventada em detrimento de obras e autores que podem vir a ser negligenciados e, consequentemente, esquecidos.

Por exemplo, em 1984 a AQC (Associação dos Quadrinistas e Cartunistas do Estado de São Paulo) instituiu que no dia 30 de janeiro seria comemorado o “Dia do Quadrinho Nacional”, data que foi ganhando repercussão na mídia e — desde então — é comemorada em todo o país com eventos e debates realizados anualmente por entidades e profissionais da área. Um deles é o Troféu Ângelo Agostini, destinado a autores atuantes no mercado e também a homenagear os “Mestres do Quadrinho Nacional”.

A data foi assim fixada porque em 30 de janeiro de 1869 foi publicado, no jornal A Vida Fluminense, o primeiro capítulo da série “As aventuras de Nhô Quim”, de autoria de Agostini. Estabeleceu-se, assim, que o critério para determinar o “nascimento” dos quadrinhos brasileiros seria encontrar o primeiro personagem fixo publicado em uma série.


 Aquarelas encontradas por Newton Carneiro e atribuídas a João Pedro. Os desenhos trazem elementos mais claros de retrato e crítica aos costumes locais.

Mas pesquisadores encontraram exemplos de quadrinhos anteriores, do próprio Agostini, publicados no mesmo jornal. Todos, no entanto, sem um personagem que retornaria para novas “aventuras”. Recuando ainda mais no tempo, encontram-se exemplos de outro artista que utilizou charges com elementos que entendemos como quadrinhos: Sébastien Auguste Sisson — francês radicado no Brasil que publicou, em 1855, na revista Brasil Ilustrado, a HQ O namoro, quadros ao vivo. Ou seja, 14 anos antes do aniversário que convencionou-se atribuir à Nhô Quim. Agostini se tornou o “pai”, mas o “filho”, Sisson ficou no “limbo”, aguardando a redescoberta e o aprofundamento a respeito de seu trabalho.

Na medida em que se esmiúça mais profundamente o assunto, é possível que critérios sejam revistos, com inevitáveis atualizações que apontem um “novo” marco zero.

O debate é válido não só no Brasil.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o marco oficial é o Yellow Kid, personagem de Richard Felton Outcault, a quem comumente se atribui a “invenção” dos balões, mesmo com outros exemplos anteriores que podem contestar o suposto pioneirismo.

Mas por que levantar essas questões num livro que se propõe resgatar a memória da charge/cartum/quadrinhos especificamente na capital paranaense?

Porque mesmo neste microcosmo específico as problemáticas são as mesmas. Aqui, o desafio é estabelecer uma cronologia que sirva de guia para a compreensão da trajetória dessas narrativas locais. Mas, é preciso deixar claro, não se trata da pesquisa definitiva sobre o tema.

Ela pode ser usada como referência, ponto de partida para novos estudos mais aprofundados, de onde podem emergir novidades que possam mudar nosso ponto de vista acerca das origens das atividades artísticas ligadas à imprensa.

Seguindo a tendência polêmica de se estabelecer os pioneiros na área, Curitiba reclama para si o título de lar do “primeiro caricaturista brasileiro”. Segundo o pesquisador Newton Carneiro, foram encontradas em Lisboa, no acervo do Visconde de Veiros, oito aquarelas originais, feitas entre 1807 e 1819, que concederiam esse título a um autor oriundo da capital paranaense. Seis delas estão assinadas por um artista identificado como João Pedro, “o Mulato”, do qual pouco se sabe além de sua origem curitibana. Comparando essas obras com as de desenhistas contemporâneos, seu trabalho e técnica podem soar ingênuos, tanto que se especula que poderia ser um autodidata ou, talvez, aluno de algum dos mestres aquarelistas residentes em Paranaguá — uma vez que não se tem conhecimento de professores dessa técnica em Curitiba naquela época, período em que a capital era bem menos desenvolvida que a cidade litorânea.

Essas aquarelas, de João Pedro, “o Mulato”, nunca foram publicadas, vindo a público somente em 1975. Mas são os registros mais antigos de elementos caricaturais e satíricos identificados com origem local. Em seu livro O Paraná e a caricatura, Newton Carneiro identificou três delas como sátiras aos costumes de diferentes classes sociais do período colonial. 

Em uma, João Pedro satiriza o excesso de ornamentação e ostentação na milícia do Paraná. Em outra, mostra um negro carregador de barris de água no lombo de um desanimado burro de carga, em meio a uma paisagem igualmente desanimadora. Em uma terceira, uma mulher aguarda um sargento despachar um documento, apontando com a pena para sua barriga grávida. Provavelmente o despacho iria resolver o “problema” da moça, que sorri.


Em 1888 é publicada a primeira HQ curitibana conhecida. A curta série marca oficialmente o nascimento dessa linguagem em Curitiba.

Pela falta de documentação sobre o autor ou de alguma repercussão que seu trabalho possa ter tido à época, trata-se de um exemplo isolado de um precursor do humor gráfico na região. Isolado porque o Estado do Paraná só entrou oficialmente no cenário das publica- ções impressas e ilustradas décadas mais tarde, após o carioca João Antonio de Barros Junior lançar em 1870, na cidade de Paranaguá, o periódico O Barbeiro. Com o desenvolvimento econômico da província do Paraná, e a facilitação de acesso entre o litoral e a capital com a construção da estrada de ferro ligando-o a Curitiba, puderam enfim ser instaladas várias oficinas de tipografia e litografia na cidade, criando-se condições para que surgissem os primeiros periódicos curitibanos.

Nos principais centros do Brasil, durante o período do Segundo Reinado (1840-1889), essas oficinas modernizaram a imprensa e permitiram a difusão de revistas periódicas de humor ilustradas, que ganharam preferência dos leitores. Em um país com alto índice de analfabetismo, quem tinha acesso a tais publicações era uma elite letrada, mas com um olhar irônico às transformações sociais. Críticas feitas não somente por meio de textos, mas especialmente por narrativas visuais em forma de charges e caricaturas — pois naquele momento a linguagem das HQs ainda estava em formação e demoraria a surgir no Paraná.

O traço vigente no final do século XIX era um misto entre o desenho acadêmico com técnicas da litografia. Muitas vezes, deixando a imitação da natureza em segundo plano em favor do grafismo e abstração típicos da caricatura, que se desenvolveu e popularizou desde aquela época. Foi em tal cenário, também movido pela colonização de imigrantes europeus, industrialização, ciclo da erva-mate e transição entre monarquia e república, que surgiram os primeiros periódicos ilustrados baseados em Curitiba.

A primeira publicação local a usar da então moderna tecnologia de impressão em litografia foi a Revista do Paraná, de Nivaldo Braga, em 1887. A publicação teve apenas sete edições, mas trouxe entre seus colaboradores o primeiro nome de grande destaque na história das narrativas gráficas curitibanas. 

Nascido na Espanha, Narciso Figueras (1854-?) veio ao Brasil no início da década de 1880, onde passou a colaborar como ilustrador em jornais do Rio de Janeiro. Por volta de 1884, mudou-se para Curitiba e foi um dos principais nomes da litografia na cidade em que, em 1887, montou a Lithographia do Commercio — que no futuro daria origem à renomada Impressora Paranaense. Após o fim prematuro da Revista do Paraná, em 1888, Figueras criou sua própria publicação: a Galeria Ilustrada, revista que se notabilizou pelas caricaturas e charges, boa parte delas assinadas por STEK — supõe-se que, na verdade, seria um pseudônimo do próprio Figueras. Em suas páginas, também se destacou a seção intitulada “Gaveta do Diabo”, que, seguindo uma tendência de outras publicações da época, associava o diabo à figura do jornalista.

O personagem era um demônio bisbilhoteiro que acompanhava tudo o que se passava na cidade, desde a administração política até os costumes da população. Sua estreia se deu já na edição número 1, em 11 de novembro de 1888. Nessa história, o Diabo é apresentado como um funcionário da revista, abrindo a gaveta de sua escrivaninha repleta de segredos. Ele se prepara para sair em serviço numa HQ de página inteira feita de nove quadros. A importância dessa página reside no fato de que ela pode, até o momento, ser considerada a primeira história em quadrinhos paranaense.

Por mais três edições, a “Gaveta do Diabo” utilizou a linguagem dos quadrinhos, passando a seguir, mesmo sem mudar o nome da seção, a ser uma página dedicada a charges. Após a censura imposta à imprensa em 1890, pelo recém-criado governo republicano, que havia deposto o imperador Dom Pedro II no ano anterior, Figueras precisou cessar a publicação de charges e caricaturas, que acabaram sendo substituídas por retratos de personalidades. A Galeria Ilustrada se transformou no jornal Quinze de Novembro, que também teve vida breve. Logo em seguida o curitibano descendente de alemães Augusto Stresser (1871-1918), também deixou sua contribuição para a emergente cena gráfica de sua época. Mais conhecido por sua contribuição à música, ele foi autor de Sidéria, considerada a primeira ópera paranaense. Mas além de músico, Stresser também foi escritor, fotógrafo, escultor, pintor e entusiasta do desenho. Seu personagem era o Bendengo, publicado em 1891 na revista O Guarany, da qual era o editor responsável. A revista durou apenas 10 edições e Stresser se revezava com o artista S. Neto nos desenhos das páginas de quadrinhos presentes a cada edição. Sobre Neto, infelizmente não se encontrou maiores referências, mas a dupla tornou-se outra iniciativa precursora dos quadrinhos curitibanos. 


JOSÉ AGUIAR é artista, arte-educador formado pela FAP (Faculdade de Artes do Paraná) e quadrinista premiado com obras publicadas no Brasil (Vigor Mortis Comics, Ato 5, Revolta de Canudos, Dom Casmurro em quadrinhos, MSP50, entre outras) e França (série Ernie Adams). Foi curador e cocriador da Gibicon — Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba.