Ficção| Eugène Ionesco

Para preparar um ovo cozido


Tradução: Dirce Waltrick do Amarante

Para Jean Follain, grande poeta e gastrônomo


Ilustração: Marluce Reque


Peça ao vendedor um ovo para cozinhar. Peça que ele o examine para verificar se está fresco. O mais comum será um ovo de galinha. Pode-se usar também ovo de pata, que é bem maior, geralmente de uma coloração ligeiramente esverdeada e que não se encontra tão facilmente. 

Vá para casa tentando manter o ovo intacto. 

É preferível preparar o ovo cozido na cozinha, sobre um fogão. Atenção! Não se põe o ovo diretamente sobre o fogão, mas numa panela. 

Primeiramente, ponha água na panela em quantidade suficiente para cobrir o ovo. Por exemplo, para uma panela cilíndrica, de 20 centímetros de diâmetro e 15 centímetros de altura, só precisa de meio litro de água.

Você pode obter água abrindo a torneira, na maioria dos casos em cima da pia; é na panela com água que se mergulha o ovo, que se põe no fogo. Se a água está fria, você pode aquecê-la depois de acender o fogo sobre o fogão. 

Acende-se com a ajuda de um palito de fósforo, tirado de uma caixinha, que você vai friccionar sobre uma das duas laterais coberta de fósforo vermelho. Depois segure o palito de fósforo acima dos orifícios da boca do fogão, em seguida gire o botão permitindo a passagem do gás pelos canos e sua chegada nos orifícios pelos quais jorra sob o aspecto de pequenas chamas. 

Pode-se utilizar também, no lugar do palito de fósforo, um isqueiro, ou seja, um acendedor com uma pedra de ferrocério ou elétrico de friccionar. 

Espere a água entrar em ebulição. Em seguida, mergulhe nela o ovo. 

Você pode retirá-lo ao cabo de dez minutos com uma colher a fim de evitar queimar seus dedos. Passe o ovo na água fria pela mesma razão. 

Retire a casca do ovo. Para fazer isso, bata ligeiramente nela com a ajuda de uma faca ou de uma colherinha de café. Assim que ela se quebrar, deposite o objeto contundente e tire delicadamente a casca com a simples ajuda de seus dedos. 

Jogue os restos das cascas, que não são comestíveis, na lata de lixo ou no ralo da pia, depois coloque o ovo sobre um prato de preferência raso. 

Você pode cortá-lo em duas fatias no sentido longitudinal utilizando uma faca. Coloque sal nele e, se você quiser, manteiga derretida ou óleo. Pode- se também cortá-lo diametralmente em fatias mais finas e colocá-lo na salada. Pode-se também comer o ovo sem cortá-lo em fatias. 

Nesse caso, leva-se com a mão o ovo à boca sem a intervenção do garfo, e parte-se o ovo com os dentes como uma maçã após cravar nele os incisivos e os caninos a fim de extrair aquilo que chamamos um bocado (de “boca”), depois um segundo e um terceiro bocados. Normalmente, três a seis bocados são suficientes para consumi-lo inteiramente. Pode-se eventualmente comer o ovo sem sal, sem manteiga e sem óleo. 

Se quiser fazer dois ou três ovos, se duplica ou se triplica naturalmente toda a dose. Isso não influencia no tempo de cozimento desde que sejam colocados juntos. Se você ferver um líquido ou cozinhar um produto alimentar (ensopado, purê de batata etc.), você pode constatar que o tempo de cozimento varia conforme a quantidade ou a espessura dos alimentos sob a ação do fogo. Os ovos, desde que cozidos na casca, são exceção à regra. Se são coloca dos juntos, sua quantidade não influencia na duração do cozimento. Essa particularidade não pode ser desconsiderada. 

Se, apesar de todas as precauções tomadas, o ovo estiver estragado, jogue-o fora. 

O ovo estragado é reconhecido por seu odor nauseabundo, em razão da decomposição química que provoca o desprendimento do ácido sulfídrico H2S. Você pode dar queixa, nesse caso, diretamente para o vendedor ou para os Institutos de Higiene e de Controle Alimentar, cujo endereço está nos catálogos que você encontra que em todas as casas com telefone ou nos cafés e nas agências de correio. 

O ovo cozido se distingue do ovo cru ou mole ou “na casca” por sua consistência mais compacta em razão da desidratação resultante do cozimento. No ovo chamado “na casca”, a gema permanece líquida; no ovo duro, a gema e a clara estão separadas. 

Durante o cozimento, acidentes leves podem acontecer. De modo que a casca pode rachar e uma parte do conteúdo se espalhar na água; muito mais raramente todo o conteúdo. Não se inquiete, ele continua a cozinhar fora da casca. No final do cozimento, você pode pegar esses pedaços sólidos com uma colher. Você pode colocar um outro ovo na panela, isto é, recomeçar a operação. 

Certos autores preferem e recomendam que se coloque o ovo na água fria, nesse caso, a casca corre menos risco de quebrar, pois ela se aquece e se dilata gradualmente. Uma dilatação brusca é difícil de prever, pois seu processo não é perceptível a olho nu. 

Se você coloca o ovo na água fria para fazê-lo cozinhar ao mesmo tempo que a água ferve, a duração total da preparação necessária ao endurecimento é menos longa. Informar-se sobre a duração exata. 

O fogão a gás não é absolutamente indispensável para a preparação do ovo dito cozido. Pode-se utilizar o fogo da chaminé, a grelha, o fogão à lenha, elétrico ou a álcool, etc, e mesmo saibro quente (a diferença de tempo de cozimento deverá ser levado em conta). 

O ovo é um alimento nutritivo e saudável. Portanto, ele é proibido ou pode ser recomendado em certos casos. Segundo a opinião do médico.


Eugène Ionesco (1909-1994) nasceu na Romênia, mas escolheu viver em Paris. Em 1950, Ionesco tornou-se, com outros dramaturgos da época, como, por exemplo, o irlandês Samuel Beckett, um dos pioneiros do chamado “Teatro do Absurdo”. Escreveu cinco contos especialmente para crianças, ou melhor, para a sua única filha Marie- France, intitulados Conto n.1, Conto n.2, Conto n.3, Conto n.4 e Conto n.5. O texto "Para preparar um ovo cozido" é de 1966 e, nessa mesma época, Ionesco escreveu uma peça teatral sobre esse tema, O ovo cozido.

Dirce Waltrick do Amarante é tradutora, ensaísta e 
professora do Curso de Pós-Graduação em Estudos da 
Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Vive em Florianópolis (SC).